As eleições presidenciais brasileiras deixaram uma constatação que ultrapassa a política: as decisões estão, literalmente, na ponta dos dedos. É na tela do celular que milhões de pessoas recebem informações, acompanham acontecimentos, formam opiniões, discutem ideias e constroem percepções sobre pessoas, marcas e instituições. A opinião pública é conduzida no toque das telas.

A comunicação digital deixou de ser uma alternativa para se tornar parte da vida cotidiana. E isso não diz respeito somente a empresas, políticos, celebridades ou profissionais liberais. Qualquer pessoa que precise estabelecer relações, conquistar credibilidade ou apresentar seu trabalho está, de alguma maneira, inserida nessa dinâmica.

A pergunta que faço é: ainda é possível escolher não ter presença digital?

Durante muito tempo, estar na internet significava manter um site, publicar fotografias ou atualizar uma página nas redes sociais. Como já anunciava Paula Sibilia, no livro O show do Eu, era uma questão de se fazer presente para aparecer. Hoje, a presença digital envolve reputação, reconhecimento, circulação de informações e capacidade de estabelecer relacionamentos. Mesmo quem decide não participar das plataformas pode ser mencionado, avaliado, fotografado ou comentado por outras pessoas.

Em outras palavras, a ausência digital também comunica.

As campanhas eleitorais ajudam a compreender esse fenômeno. A disputa pela atenção dos eleitores acontece em diferentes ambientes, dos debates televisionados aos vídeos curtos, das entrevistas aos grupos de mensagens. Um comentário pode circular fora de seu contexto original, uma publicação pode alcançar públicos inesperados e uma informação falsa pode adquirir aparência de verdade pela repetição.

O problema é que a velocidade da circulação nem sempre acompanha a qualidade da informação. Compartilhar tornou-se mais fácil do que verificar. Reagir, muitas vezes, antecede compreender.

Essa lógica também orienta decisões aparentemente simples. Antes de contratar um profissional, procuramos seu nome na internet. Antes de escolher um restaurante, consultamos avaliações. Antes de comprar um produto, buscamos opiniões de desconhecidos. Até mesmo nossas relações pessoais passam por uma espécie de investigação digital.

A reputação passou a ser construída também por aquilo que os mecanismos de busca encontram, pelos conteúdos que os algoritmos distribuem e pelas manifestações de terceiros.

Mas existe uma armadilha nessa necessidade permanente de visibilidade.

A pressão para publicar, comentar e aparecer pode transformar a presença digital em uma obrigação desgastante. Pessoas e organizações passam a produzir conteúdos para alimentar plataformas, muitas vezes sem saber exatamente com quem desejam conversar ou por que precisam estar ali.

Confunde-se frequência de publicação com relevância. Número de seguidores com credibilidade. Curtidas com reconhecimento profissional.

Ter presença digital não significa estar em todas as redes sociais. Tampouco exige transformar a própria vida em conteúdo. Uma presença consistente pode ser construída por meio de um portfólio atualizado, publicações qualificadas, participação em comunidades profissionais ou produção de conhecimento acessível ao público.

O que importa é compreender como desejamos ser encontrados, reconhecidos e interpretados.

Há ainda outra questão: entregamos às plataformas uma parcela considerável do controle sobre nossa visibilidade. Os algoritmos determinam o alcance das publicações, organizam o que aparece nas telas e influenciam quais informações recebem atenção. Quem constrói toda a sua presença digital em uma única rede fica sujeito às mudanças de regras e aos interesses comerciais de empresas privadas.

Por isso, considero um equívoco tratar presença digital como sinônimo de exposição permanente. A comunicação precisa ter propósito, público e responsabilidade.

As eleições oferecem uma oportunidade para observarmos como a atenção se converte em influência e como a circulação de informações participa da formação de opiniões. Mas também revelam os limites de uma sociedade que frequentemente confunde popularidade com autoridade e engajamento com confiança.

A decisão de participar ou não das plataformas continua sendo individual. O que já não podemos ignorar é que nossa imagem circula em ambientes sobre os quais temos controle limitado.

A questão agora é: quem está construindo nossa reputação digital quando deixamos de participar dessa conversa?

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