Além de representar muitas vezes a diferença entre a vida e a morte, o acesso à medicações de alto custo no Sistema Único de Saúde (SUS) representa um enorme alívio financeiro para a população. Recentemente, o Ministério da Saúde decidiu ampliar o acesso a medicamentos trombolíticos em serviços de urgência e emergência do Sistema Único de Saúde – SUS para o tratamento do AVC Isquêmico e do Infarto Agudo do Miocárdio. 

Utilizado em emergências para desentupir artérias, o tenecteplase, comercializado principalmente como Metalyse pela farmacêutica alemã Boehringer Ingelheim, é um medicamento trombolítico de última geração tem valor elevado. Cada frasco-ampola custa entre R$ 6.200,00 e R$ 9.600,00 na farmácia comercial, variando conforme a dosagem indicada para o peso do paciente (40 mg ou 50 mg).  Em compras e licitações públicas, a dose unitária fica em torno de R$ 6.240,00.

O medicamento injetável de uso restrito hospitalar é administrado em dose única, em poucos segundos, o que simplifica o atendimento e agiliza o início do tratamento. Indicada para pacientes elegíveis nas primeiras 4 horas e 30 minutos após o início dos sintomas, a terapia pode aumentar as chances de recuperação e reduzir sequelas em uma condição em que cada minuto faz diferença.

O ganho de tempo também beneficia pacientes que necessitam de trombectomia mecânica, procedimento realizado por meio de cateter para remover o coágulo em casos específicos, otimizando toda a linha de cuidado. A utilização da tenecteplase, no entanto, depende de critérios rigorosos, como afirma Mariana Vidal, coordenadora da Unidade Neurológica do Vera Cruz Hospital.

O medicamento é indicado para pacientes com diagnóstico de AVC isquêmico agudo que atendam às recomendações das diretrizes médicas. Antes da administração, cada caso passa por avaliação clínica e exames de imagem para confirmar o diagnóstico e descartar contraindicações. Além disso, o tratamento deve ser iniciado preferencialmente nas primeiras 4 horas e 30 minutos após o início dos sintomas”.

Diferenças para outros trombolíticos

Existem outros medicamentos trombolíticos (também chamados de fibrinolíticos) utilizados com a mesma finalidade clínica de dissolver coágulos sanguíneos. O Alteplase (Actilyse), também produzido pela Boehringer Ingelheim. É o trombolítico tradicional mais utilizado no mundo para tratar AVC isquêmico, infarto agudo do miocárdio (IAM) e embolia pulmonar.
Ambos os medicamentos foram incluídos em diretrizes de ampliação de oferta da rede pública de urgências e emergências do SUS (em UPAs e ambulâncias do SAMU) para agilizar o socorro às vítimas de ataques cardíacos e derrames. Existe ainda o  Estreptoquinase, um trombolítico de gerações anteriores, menos específico para a fibrina e com maior risco de reações alérgicas ou sangramentos, mas historicamente relevante pelo menor custo.
A principal diferença em relação ao tratamento convencional está na forma de administração. Enquanto a alteplase exige infusão contínua por aproximadamente uma hora, a tenecteplase pode ser administrada em uma única aplicação, mantendo eficácia semelhante e permitindo maior agilidade na condução dos casos.
A tenecteplase representa uma evolução importante no atendimento ao AVC isquêmico, pois simplifica uma etapa crítica do tratamento. Em uma doença em que cada minuto faz diferença, reduzir o tempo entre o diagnóstico e a administração da medicação contribui para tornar toda a linha de cuidado mais eficiente.  Isso amplia as chances de preservar o tecido cerebral e de proporcionar uma recuperação com menos sequelas e mais qualidade de vida para o paciente”, afirma Mariana Vidal.
A tabela abaixo resume por que médicos e sistemas de emergência avaliam as duas opções:

Característica Tenecteplase (Metalyse) Alteplase (Actilyse)
Administração Bolus único (injeção rápida de 5 a 10 segundos). Infusão contínua (uma parte em bolus e o restante ao longo de 1 hora).
Vantagem Clínica Maior facilidade e rapidez logística em ambulâncias (como o SAMU). Amplo histórico de uso hospitalar consolidado há décadas.
Especificidade Mais específico para a fibrina do coágulo. Menos específico que o tenecteplase.

 

Prevenção e diagnóstico precoce fazem a diferença

Embora os avanços terapêuticos ampliem as possibilidades de recuperação, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz contra o AVC. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo, apneia do sono e doenças cardiovasculares estão entre os principais fatores de risco.

Estudos mostram que o controle adequado dessas condições, aliado à prática regular de atividade física, alimentação equilibrada e acompanhamento médico, pode reduzir em até 90% o risco de ocorrência da doença.

O avanço da medicina só produz impacto quando está aliado a protocolos bem estruturados, equipes capacitadas e ao acesso rápido do paciente ao atendimento. A tecnologia é um recurso importante, mas o diagnóstico precoce e a agilidade em toda a linha de cuidado continuam sendo decisivos para melhorar os desfechos do AVC“, conclui Mariana.

Por isso, reconhecer rapidamente os sinais de um AVC continua sendo um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento. Entre os principais sintomas estão fraqueza ou dormência súbita em um lado do corpo, dificuldade para falar ou compreender a fala, desvio da boca, perda súbita da visão, dificuldade para caminhar, perda do equilíbrio e dor de cabeça intensa e repentina. Uma forma simples de ajudar a identificar esses sinais é por meio do teste SAMU:

  • S de Sorria: peça para a pessoa sorrir e observe se há desvio da boca;
  • A de Abraço: peça para levantar os dois braços e verifique se há perda de força em um deles;
  • M de Mensagem: solicite que a pessoa repita uma frase simples e observe se a fala está enrolada ou confusa;
  • U de Urgente: diante de qualquer alteração, acione imediatamente o serviço de emergência.

Protocolo para AVC exige atenção multidisciplinar

O Vera Cruz incorporou a tenecteplase ao seu protocolo assistencial em julho deste ano, tornando-se o primeiro hospital da rede privada de Campinas e região a utilizar o medicamento no tratamento do AVC. A novidade chega em um cenário de aumento da demanda por atendimento à doença. Em 2024, o Departamento Regional de Saúde de Campinas (DRS-7), que reúne 42 municípios, registrou 34.970 atendimentos relacionados ao AVC, o que representa uma alta de 4,3% em relação a 2023.

De acordo com a médica, a rapidez no atendimento é sustentada por um protocolo específico para AVC que mobiliza uma equipe multidisciplinar desde a chegada do paciente ao pronto-socorro. Após a identificação dos sintomas na triagem, um sistema de monitoramento em tempo real permite que todos os profissionais acompanhem o deslocamento do paciente dentro do hospital em cada etapa, reduzindo o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento.

Após a fase aguda, os pacientes seguem para uma unidade neurológica especializada, onde são acompanhados por uma equipe multidisciplinar, que integra neurologistas, intensivistas, enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais. Neste momento passam por investigação da causa do AVC e iniciam precocemente o processo de reabilitação, fator considerado fundamental para reduzir sequelas e favorecer a recuperação funcional.

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