No Dia de Finados (2 de novembro), o Brasil inteiro para para lembrar de quem partiu. Eu sei o que é o luto. Eu perdi meu pai muito cedo, aos 50 anos, vítima de um erro médico após uma cirurgia no rim. Perdi minha mãe aos 65 anos, vítima de um AVC. E perdi meu irmão, com apenas 24 anos, vítima de um acidente de moto. Três perdas precoces, três lutos diferentes, que me atravessaram e me transformaram.
É por isso que eu digo com tanta convicção: o luto não é doença. É uma reação humana, natural e necessária diante de uma perda. Mas ele adoece quando se prolonga, quando paralisa a vida. E ele afeta cada pessoa de um jeito diferente.
- Nas mulheres, os estudos mostram que o impacto costuma ser mais intenso e duradouro. Somos, na maioria das vezes, as cuidadoras da família. Quando perdemos um companheiro, um filho ou os pais, acumulamos a dor da perda com a sobrecarga de ter que manter tudo de pé. Ansiedade, insônia, queda de imunidade e depressão são muito comuns.
- Nos idosos, o luto pode ser ainda mais delicado. Perder o companheiro de uma vida inteira, depois de 40, 50 anos juntos, é perder uma parte da própria identidade. O idoso enlutado se isola, para de comer, para de tomar os remédios direito. Não é “frescura”, é solidão profunda. É um dos maiores fatores de risco para depressão.
- E nas crianças? A criança também vive o luto, mas ela não sabe nomear. Ela pode voltar a fazer xixi na cama, ter medo de dormir sozinha, ficar agressiva na escola ou muito calada. Ela precisa ouvir a verdade, com linguagem simples e acolhedora. Frases como “virou estrelinha” confundem mais do que ajudam.
Agora, atenção para um ponto muito importante: quando o luto não passa? É normal sentir tristeza profunda nos primeiros meses. Mas quando, depois de 6 meses a um ano, a pessoa continua sem conseguir retomar a rotina, sem sentir prazer, com culpa intensa, com a sensação de que a vida acabou junto, isso tem um nome: Transtorno do Luto Prolongado, já reconhecido no CID-11 da Organização Mundial da Saúde. Não é fraqueza. É uma condição que precisa de cuidado profissional.
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O que fazer?
1. Permita-se sofrer. O luto precisa ser vivido, não abafado. Chorar, falar sobre quem partiu, faz parte. Foi assim comigo.
2. Mantenha rituais de afeto. Acender uma vela, escrever uma carta, plantar uma árvore, continuar um projeto que a pessoa amava.
3. Não se isole. Volte, aos poucos, para sua rede de apoio.
4. Cuide do corpo. Durma, se alimente, caminhe 20 minutos por dia.
5. Peça ajuda. Se a tristeza te paralisa, procure ajuda.
Onde buscar ajuda?
Na sua Clínica da Família, com o psicólogo do SUS. Nos CAPS – Centros de Atenção Psicossocial. No CVV – Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188, 24 horas por dia.
E quero lembrar que aqui no Vida e Ação a gente não fala disso só em Finados. Nós temos a nossa seção Mente Saudável, onde trabalhamos o ano inteiro essas questões da saúde mental e emocional.
No Dia de Finados a gente lembra da morte. Mas o luto, como eu aprendi na pele, nos ensina sobre a vida. Sobre o valor dos vínculos. Quem viveu o luto e conseguiu atravessá-lo não esquece quem partiu. Ele aprende a levar esse amor de um jeito novo, dentro do peito. Se você está passando por isso hoje, receba o meu abraço. Você não está sozinho.




