No mês em que se lembra o Dia Nacional do Luto (19 de junho), a sociedade brasileira é convidada a refletir sobre um dos temas mais sensíveis e, ainda assim, mais evitados da experiência humana. Em um país onde a morte permanece cercada de silêncios e a dor da perda frequentemente sofre pressões por uma superação rápida, a data funciona como um chamado urgente à empatia, ao cuidado e à estruturação de redes de apoio estruturadas.

A relevância do tema é tão profunda que ultrapassa os rituais sociais tradicionais e ganha a esfera acadêmica. O Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) está desenvolvendo uma ampla pesquisa nacional intitulada “Representações da morte entre o luto e o trauma (ReDGriT)”.

Conduzido pela doutoranda Gislaine Leoncio Motti, sob orientação da professora Ingrid Faria Gianordoli-Nascimento, o estudo científico busca voluntários de todo o Brasil que tenham vivenciado a perda de um ente querido entre os anos de 2020 e 2025. O objetivo central é reunir elementos sensíveis para propor formas mais eficazes de acolhimento e cuidado psicológico na sociedade.

O vazio do cotidiano e as novas dinâmicas de afeto

Para a psicóloga Daniela Bittar, especialista em luto, abrir espaços para falar abertamente sobre o tema é fundamental para que as pessoas possam ressignificar suas existências. Ela explica que os rituais coletivos iniciais são fundamentais, mas a necessidade de suporte se estende muito além deles.

O velório e o enterro são rituais coletivos que ajudam a dar algum significado à perda, porque ali existe partilha, acolhimento e expressão das emoções. Mas, depois que tudo termina e as pessoas vão embora, fica o silêncio do dia a dia. É nesse vazio, nos momentos que antes eram compartilhados, que muitas pessoas sentem a dor mais profunda do luto”, esclarece Daniela.

A especialista reforça que o luto é um processo natural e não possui um prazo de validade rígido: “Ele caminha junto com o amor”. Contudo, manifestações que geram desorganização intensa e prolongada por mais de seis meses ou um ano servem de alerta para a busca de apoio profissional.

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Desmistificando as fases da perda: o luto não é uma linha reta

Embora seja frequentemente associado a uma sequência rígida de fases, o luto não segue uma ordem fixa nem tem prazo determinado. O modelo mais conhecido do mundo, desenvolvido a partir dos estudos da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, descreve cinco momentos emocionais que podem aparecer após uma perda. Na prática, contudo, essas etapas flutuam, repetem-se ou sequer são vivenciadas por todos.

Reconhecer esses estados ajuda a compreender que sentimentos como choque, raiva, culpa e dificuldade de seguir a rotina não são sinais de fraqueza, mas sim parte da elaboração da ausência. Veja como essas emoções costumam se manifestar:

Fase do Luto Como se manifesta na prática
Negação Funciona como uma proteção emocional inicial. Surge como choque, confusão ou uma sensação de irrealidade diante do fato.
Raiva Aparece como inconformismo, irritação ou sentimento de injustiça, podendo ser direcionada a familiares, profissionais de saúde ou a si mesmo.
Barganha Marcada por hipóteses e arrependimentos (ex: “e se eu tivesse feito diferente?”), na tentativa de encontrar controle sobre o irreversível.
Tristeza Caracterizada por desânimo, isolamento e saudade intensa. É a fase com sinais mais visíveis e necessita de espaço e respeito para ser sentida.
Aceitação Não significa a ausência de dor, mas a capacidade de reorganizar a vida e a rotina, preservando a memória de quem partiu.

O modo como cada pessoa vive o luto depende de diversos fatores, como o vínculo com quem morreu, as circunstâncias da perda e a rede de apoio disponível. Por isso, especialistas apontam que amigos e familiares ajudam mais quando evitam frases prontas ou cobranças por uma melhora rápida.

A importância do planejamento e do diálogo prévio

A dificuldade de lidar com o luto está diretamente ligada à forma como a sociedade evita conversas sobre a morte em momentos de calmaria. Em muitas famílias, esses assuntos só aparecem em meio ao caos da perda, quando a vulnerabilidade emocional é extrema e decisões administrativas complexas precisam ser tomadas com urgência.

Discutir previamente questões relacionadas a rituais de despedida, documentação e organização financeira reduz significativamente a sobrecarga burocrática em momentos de sofrimento. Serviços como planos funerários entram nessa dinâmica não apenas como uma solução prática, mas como parte de uma estratégia de proteção emocional e cuidado com quem fica.

Quando buscar apoio especializado?

Não existe receita ou roteiro para viver a ausência de alguém. Algumas pessoas encontram conforto na rotina, na espiritualidade ou no convívio familiar. O ponto de atenção, contudo, está na intensidade e na persistência do sofrimento.

Quando a dor paralisa atividades básicas, compromete a saúde física, provoca isolamento rígido ou se estende de forma crônica, o acompanhamento psicológico especializado torna-se essencial para ajudar a atravessar o processo com a dignidade e o acolhimento necessários.

Redes sociais ajudam a manter o vínculo afetivo

Por outro lado, o suporte a quem sofre tem se transformado com a tecnologia. Tendências em redes sociais têm sido usadas por milhares de pessoas para compartilhar memórias e manter o vínculo afetivo com quem já partiu. Segundo Bittar, essas plataformas digitais funcionam como uma nova ferramenta de reconexão e coletivização do luto em uma vida contemporânea urbana que tende a afastar a morte do dia a dia.

Atento a essa evolução, o setor funerário tem expandido sua atuação para além das questões burocráticas. O Grupo Zelo, maior empresa de serviços funerários do país, tem investido ativamente na produção de conteúdos e plataformas voltadas para o suporte emocional e a quebra de tabus sobre a morte, como o podcast Bucket List e o próprio Portal Além da Perda.

Sabemos que nenhuma estrutura é capaz de reparar a dor de uma perda, mas acreditamos que o acolhimento pode transformar esse momento em algo mais humano, digno e respeitoso”, pontua o diretor do Grupo Zelo, Alessandro Oliveira.

Com Assessorias

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