O câncer de próstata é uma doença marcadamente heterogênea. Anualmente, cerca de 186 mil homens recebem o diagnóstico de câncer de próstata metastático hormônio-sensível no mundo. O grande desafio clínico é evitar que a patologia evolua para a fase resistente à castração, o que costuma ocorrer em média 20 meses após o diagnóstico inicial, piorando de forma drástica o prognóstico e reduzindo a expectativa de vida para menos de dois anos.

Uma pesquisa robusta apresentada na Asco 2026 reforça uma mudança importante no tratamento do câncer de próstata avançado. A consolidação da terapia radioligante — método que utiliza radiação direcionada para atingir alvos moleculares específicos no corpo — foi um dos destaques no recente congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica.

Nova análise do estudo clínico de fase 3 PSMAddition mostrou que os benefícios da terapia radioligante com lutécio-177 se mantêm de forma consistente em diferentes perfis de homens com câncer de próstata metastático hormônio-sensível, incluindo aqueles com maior ou menor carga tumoral. O medicamento radioisótopo mais conhecido dessa classe é a vipivotida tetraxetana marcada com lutécio-177, comercializada pela Novartis como Pluvicto.

O câncer de próstata é uma doença heterogênea, cuja evolução pode variar conforme a carga tumoral e a forma de apresentação. A consistência dos resultados com a vipivotida tetraxetana em diferentes subgrupos reforça seu potencial como uma opção terapêutica relevante para uma ampla população de pacientes”, diz  Fred Saad, professor e presidente do Departamento de Cirurgia da Universidade de Montreal.

Mas o que é terapia religante com lutécio?

É uma forma de medicina nuclear que combina duas coisas: uma molécula capaz de localizar células do câncer e uma substância radioativa que as destrói. A maioria das células tumorais da doença está presente no chamado PSMA (Antígeno de Membrana Específico da Próstata), uma proteína que está superexpressa na superfície celular em mais de 80% dos casos de câncer de próstata.

Os pesquisadores desenvolveram uma molécula que se liga especificamente a esse alvo. A nova estratégia terapêutica atua diretamente no PSMA),. Ao se ligar ao PSMA, o medicamento entrega a radiação do lutilécio-177 diretamente nas células tumorais, minimizando os danos aos tecidos saudáveis ao redor.

Quando essa molécula é ligada ao radioisótopo lutécio-177, ela funciona como uma espécie de “míssil guiado”. Após a aplicação na veia, ela circula pelo organismo, encontra as células que expressam PSMA e libera radiação diretamente nelas. A principal vantagem é que a radiação fica muito concentrada no tumor e relativamente menos exposta aos tecidos saudáveis.

Por isso ela é chamada de terapia radioligante:

• “Radio” porque utiliza material radioativo.
• “Ligante” porque existe uma molécula que se liga a um alvo específico da célula tumoral.

É diferente da radioterapia convencional, em que a radiação vem de um aparelho fora do corpo e é direcionada para uma região específica. Na terapia radioligante, a radiação viaja pelo organismo e procura as células cancerosas onde quer que elas estejam, inclusive em metástases espalhadas pelos ossos ou linfonodos.

O que tornou esse tema relevante na Asco 2026 é que essa tecnologia já demonstrou benefício em pacientes com doença mais avançada e agora começa a mostrar resultados promissores em fases mais precoces do câncer de próstata metastático. Isso pode ampliar bastante o número de pacientes elegíveis para esse tipo de tratamento no futuro.

Os novos dados detalhados na ASCO aprofundam esse cenário ao comprovar que a eficácia se mantém estável, com taxas de redução de risco variando de 26% a 28% em todos os perfis avaliados, incluindo pacientes com alta ou baixa carga tumoral (critério CHAARTED), doença recidivada e casos que já apresentavam metástase no momento do diagnóstico inicial.

Nova terapia retarda evolução da doença

Além da sobrevida livre de progressão, o estudo apontou melhorias expressivas no tempo até a progressão do PSA (Antígeno Prostático Específico) e no retardamento da evolução para estágios mais graves. Em termos de segurança, o perfil se mostrou tolerável e consistente com os ensaios anteriores, sendo os eventos adversos mais frequentes a boca seca (xerostomia), fadiga, náusea, ondas de calor e anemia.

O achado fortalece uma discussão que vem ganhando espaço na oncologia: levar a radioterapia molecular para fases mais precoces da doença, antes reservada principalmente a pacientes em estágios mais avançados.  A consistência desses achados reforça o potencial do radioligante como uma opção terapêutica relevante para uma ampla população de pacientes.

O estudo original, cujos primeiros dados globais foram apresentados no congresso da European Society for Medical Oncology (ESMO 2025), já havia comprovado que a combinação reduz em 28% o risco de progressão da doença ou morte em comparação ao tratamento padrão isolado, apresentando uma razão de risco significativa.

Esses resultados reforçam o potencial da terapia radioligante em beneficiar diferentes perfis de pacientes com câncer de próstata metastático hormônio-sensível. Os achados ampliam a perspectiva de utilização dessa terapia-alvo em estágios anteriores da doença”, afirma Bianca Cormanich, diretora de Oncologia e Hematologia da Novartis Brasil.  

Actínio-2225: uma nova geração de terapias radioligantes

Além da consolidação dos dados do lutilécio,  o congresso trouxe os primeiros resultados clínicos de uma nova geração de terapias radioligantes baseadas em actínio-225, tecnologia que busca entregar radiação de forma ainda mais direcionada às células tumorais.

O estudo de fase 1 AcTION,  apresentado pela equipe de desenvolvimento e pesquisa da Novartis  para avaliar uma nova fronteira terapêutica com o radioligante em investigação, visa determinar a dosagem ideal e segura para os próximos ensaios clínicos.

Utilizando o radioisótopo actínio-225, que emite partículas alfa de alta energia e curto alcance, a nova molécula busca aumentar o potencial de destruição das células tumorais com precisão ainda maior.  Os dados preliminares apontaram um perfil de segurança aceitável e uma atividade antitumoral promissora.

Os avanços apresentados na ASCO 2026 reforçam a mudança de paradigma na abordagem do câncer de próstata avançado, indicando que o uso dessas ferramentas biológicas e moleculares em fases mais precoces da jornada do paciente pode reescrever a história natural da doença, proporcionando mais tempo e qualidade de vida.

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Com informações da Novartis

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