Na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre 22 e 26 de julho, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, contou que foi confundida por uma mulher ao sair de um supermercado. Após o episódio, concluiu com bom humor: “Eu não tenho medo da inteligência artificial. Mas da desinteligência natural.” A frase rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais porque sintetiza uma preocupação que vai além da tecnologia. Em vez de concentrar o debate apenas no avanço das máquinas, ela desloca o foco para o uso que fazemos da nossa própria inteligência. Falamos sobre até onde a Inteligência Artificial poderá chegar, mas deveríamos dedicar a mesma atenção ao que estamos fazendo com a nossa capacidade de pensar.
Grande parte das preocupações em torno da IA segue nessa direção: quais profissões serão substituídas, quais decisões poderão ser automatizadas, como a desinformação será afetada, o que acontecerá nas eleições, quais transformações chegarão à educação e quais competências humanas perderão importância. Nesta semana, em que acontece o Rio Innovation Week 2026, todos esses temas estão presentes nas rodas de conversa do evento.
Tudo isso merece discussão. O que me interessa na expressão “desinteligência natural”, porém, é outra questão. Ela recoloca o ser humano no centro do problema. Não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. Precisamos discutir o que estamos dispostos a entregar a ela.
Quando uma resposta convincente basta
A cena já se tornou comum. Uma pessoa faz uma pergunta a uma ferramenta de IA e recebe, em poucos segundos, um texto organizado, bem escrito e com argumentos aparentemente consistentes. A resposta parece boa. E isso basta. Cuidado: revise sempre antes de entregar qualquer resultado.
Em geral, o conteúdo é copiado, compartilhado ou usado para tomar uma decisão. A fonte não é verificada. Outras perspectivas não são consultadas. A segurança transmitida pela resposta é confundida com sua qualidade. Pouco importa como aquela conclusão foi construída, desde que pareça convincente. Esse comportamento me preocupa mais do que o erro eventual de uma ferramenta.
Sistemas generativos erram, inventam informações, reproduzem vieses e podem apresentar afirmações falsas com uma segurança desconcertante. Já sabemos disso. O ponto que merece mais atenção é a facilidade com que aceitamos uma resposta sem submetê-la ao nosso próprio julgamento. É nesse aspecto que a expressão de Cármen Lúcia ganha força.
A IA amplia nossa capacidade de pesquisar, escrever, analisar dados, criar imagens, programar e organizar informações. Também pode dar escala a comportamentos que não são novos: preguiça intelectual, confiança excessiva, compartilhamento sem verificação e resistência a informações que contrariam aquilo em que já acreditamos. Essas práticas não nasceram com a IA. O que mudou foi a velocidade, o alcance e a facilidade com que podem ser reproduzidas.
Estamos terceirizando o pensamento?
A educação sempre esteve preocupada em ampliar o acesso à informação. Bibliotecas, livros, jornais, enciclopédias e, depois, a internet transformaram profundamente nossa relação com o conhecimento. A IA generativa acrescentou algo diferente a esse processo. Agora podemos pedir não apenas a informação, mas também sua interpretação. Pedimos à máquina que resuma, compare, explique, argumente, recomende, escolha. Podemos até solicitar que formule uma opinião e apresente argumentos para defendê-la.
Vejo enorme potencial nisso. Uso essas ferramentas e acompanho com interesse suas possibilidades na educação, na pesquisa e na produção de conhecimento. Minha preocupação começa quando deixamos de perceber a diferença entre usar uma ferramenta para pensar e entregar a ela o trabalho de pensar.
Um estudante pode pedir à IA que explique um conceito que não compreendeu. Depois, pode consultar outras fontes, confrontar interpretações, fazer novas perguntas e construir seu entendimento. Outro pode pedir que a ferramenta produza um trabalho inteiro, copiar o resultado e entregá-lo sem conseguir sustentar uma conversa sobre aquilo que supostamente escreveu. Nos dois casos houve uso de IA. O que não houve, necessariamente, foi aprendizagem em ambas as situações.
Esse problema não está restrito à escola ou à universidade. Vale para quem usa uma resposta gerada por IA para decidir sobre finanças, interpretar uma notícia, conhecer um candidato, compreender uma questão de saúde, preparar uma reunião ou formar opinião sobre um assunto que desconhece. A questão é o que fazemos cognitivamente depois que a máquina responde.
Saber usar IA não é suficiente
Por isso, tenho ressalvas quando a discussão sobre IA na educação se concentra em ensinar prompts ou apresentar uma coleção de ferramentas. Aprender a usar esses sistemas será necessário. Saber questioná-los será indispensável. De onde veio essa informação? Que evidências sustentam a resposta? O que ficou de fora? Existem outras interpretações? Por que essa resposta me convenceu? Tenho conhecimento suficiente sobre o assunto para perceber um erro?
Essas perguntas fazem parte do letramento midiático e informacional e também nos aproximam do metaletramento: a capacidade de refletir sobre nossas próprias competências, reconhecer limites e perceber o que precisamos aprender para lidar criticamente com a informação.
Diante da IA, isso significa também avaliar a relação que estabelecemos com a ferramenta. Em que situações ela amplia minha capacidade? Em quais estou apenas delegando uma tarefa? Quando sua ajuda contribui para que eu aprenda? Quando apenas me entrega algo pronto? Deixo essa resposta para os humanos.




