Se você já se pegou rolando o feed das redes sociais e se identificou com uma lista de “sintomas de TDAH” por causa de um esquecimento ou uma distração no trabalho, saiba que você não está sozinho, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) virou um dos assuntos mais comentados do ambiente digital, gerando uma onda inédita de autodiagnósticos. No entanto, o alerta dos especialistas é claro: nem toda distração é clínica

A Semana Nacional de Conscientização sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), criada pela Lei Federal 14.254/2021 para ser lembrada anualmente na semana que inclui o dia 1º de agosto, tem como objetivo principal informar a população sobre o transtorno, combater preconceitos, disseminar informações científicas e promover o diagnóstico e o tratamento adequados.

Estimativas internacionais apontam que o transtorno acomete cerca de 5,9% das crianças e adolescentes e aproximadamente 2,5% dos adultos. Apesar disso, ainda permanece subdiagnosticado em muitos casos e frequentemente é confundido com ansiedade, estresse crônico, burnout, depressão, privação de sono e até mesmo com alterações de atenção relacionadas ao estilo de vida contemporâneo.

Quando o algoritmo vira consultório: os riscos do autodiagnóstico do TDAH

Crescimento do conteúdo sobre o transtorno nas plataformas digitais amplia o acesso à informação, mas também favorece interpretações equivocadas e reforça a importância do diagnóstico médico especializado

Nunca se falou tanto sobre TDAH. Vídeos curtos, relatos pessoais e testes compartilhados nas redes sociais fizeram com que milhões de pessoas passassem a se identificar com sintomas como distração, procrastinação, impulsividade e dificuldade de concentração. Ao mesmo tempo em que esse movimento contribuiu para reduzir o estigma e ampliar a busca por atendimento especializado, especialistas alertam que o excesso de informações simplificadas pode favorecer interpretações equivocadas e estimular o autodiagnóstico.

O aumento da informação é extremamente positivo porque ajuda a reduzir preconceitos e incentiva muitas pessoas a procurar atendimento. O problema começa quando vídeos curtos, relatos individuais ou testes disponíveis na internet passam a substituir uma avaliação clínica criteriosa. Nem toda dificuldade de concentração é TDAH, assim como nem todo esquecimento representa um transtorno do neurodesenvolvimento”, explica Fabricia Signorelli, Psiquiatra do Ambulatório de TDAH no Adulto da Unifesp e Mestre em transtornos do Neurodesenvolvimento.

Entre o algoritmo e o consultório

Vivemos cercados por notificações, múltiplas telas, excesso de estímulos e jornadas marcadas pela multitarefa. Esse ambiente favorece distrações frequentes e faz com que muitas pessoas se identifiquem com conteúdos publicados nas redes sociais. Entretanto, especialistas ressaltam que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento com critérios diagnósticos bem estabelecidos, que não pode ser confirmado por testes on-line ou relatos compartilhados na internet.

De acordo com José Luis Leal, psiquiatra da Kora Saúde, o esquecimento e a dificuldade de concentração são respostas naturais do cérebro à sobrecarga de estímulos do mundo moderno e não significam, necessariamente, um transtorno mental.

A verdade é que a gente exige demais do cérebro hoje em dia. É muita informação ao mesmo tempo, muita tela, e o resultado é uma mente exausta. Esse cansaço profundo cria uma desatenção que imita o TDAH perfeitamente. Só que, no fundo, quase sempre é apenas o corpo avisando que precisa desligar um pouco”, explica o psiquiatra.

Para que a distração ou a impulsividade sejam consideradas sintomas de TDAH, elas precisam preencher critérios rígidos que vão muito além de um dia ruim ou de uma semana estressante. O psiquiatra aponta que existem três pilares que diferenciam o esquecimento comum do transtorno, e o primeiro deles é a cronicidade.

Como o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, os sintomas não aparecem de repente na vida adulta; eles precisam estar presentes e ser rastreáveis desde a infância, geralmente antes dos 12 anos”, revela o médico.

Outro ponto fundamental é a consistência. A desatenção precisa ocorrer em praticamente todos os contextos da vida do indivíduo, no trabalho, nos relacionamentos afetivos, nos estudos e nas tarefas domésticas e não apenas em momentos de tédio ou desinteresse. Por fim, o médico destaca a necessidade de um prejuízo real. O comportamento deve causar um impacto negativo substancial e mensurável na rotina, como demissões recorrentes, problemas financeiros por desorganização ou um histórico crônico de dificuldades acadêmicas.

O perigo de assumir um diagnóstico baseado apenas em vídeos curtos da internet é duplo. Por um lado, há o risco da automedicação indevida com psicoestimulantes, que podem sobrecarregar o sistema cardiovascular e causar ansiedade extrema;  já por outro, o indivíduo pode mascarar a verdadeira raiz do seu problema.

Muitas vezes, a falta de foco é o reflexo de uma depressão subjacente, de um transtorno de ansiedade generalizada, de apneia do sono ou de um quadro de burnout. Ao focar em um diagnóstico errado, a pessoa acaba atrasando o tratamento correto e prolongando o sofrimento”, alerta o médico.

Por isso, vale o lembrete de que o diagnóstico de TDAH é essencialmente clínico, dependendo de uma conversa detalhada no consultório, da análise do histórico familiar e, muitas vezes, do olhar de outros profissionais de saúde. Para quem sente que a falta de atenção está cobrando um preço alto demais no dia a dia, o caminho mais seguro e definitivo sempre será buscar a avaliação de um médico psiquiatra ou neurologista.

O que é o TDAH

O TDAH é um distúrbio neurobiológico caracterizado por sintomas como desatenção, hiperatividade e impulsividade. Atualmente, o transtorno afeta mais de 2 milhões de brasileiros e está presente em 3% a 5% das crianças encaminhadas para serviços especializados. Pessoas com TDAH frequentemente enfrentam dificuldades de aprendizado, problemas de socialização e preconceito devido ao desconhecimento sobre o transtorno.

Os impactos do TDAH vão além dos individuais, abrangendo também fatores sociais e econômicos. Quando não devidamente tratado, o TDAH está associado a um maior risco de diversos desfechos negativos, como uso nocivo de substâncias, acidentes, depressão, criminalidade e suicídio.

TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, isolados ou combinados, capazes de provocar prejuízos acadêmicos, profissionais, sociais e familiares. Embora seja mais frequentemente identificado na infância, o transtorno pode persistir na vida adulta e acompanhar o indivíduo ao longo de toda a vida.

Entre os principais sinais estão dificuldade para manter a atenção, esquecimentos frequentes, desorganização, procrastinação, inquietação, impulsividade e dificuldade para concluir tarefas. A intensidade e a combinação desses sintomas variam de pessoa para pessoa.

O transtorno é o mais comum entre crianças e adolescentes e por isso a maioria dos diagnósticos é realizada em idade escolar. Por isso, o diagnóstico precoce e o acompanhamento com profissionais de saúde garantem uma melhor qualidade de vida para quem convive com a condição.

Diagnóstico exige avaliação especializada

O diagnóstico correto e precoce é essencial para iniciar o tratamento adequado, que pode incluir abordagens farmacológicas e não farmacológicas, em sinergia, por uma equipe profissional. Indivíduos com TDAH que são diagnosticados precocemente e recebem tratamento apropriado podem levar uma vida mais saudável, com melhor sociabilidade, rendimento e produtividade.

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, teste genético ou exame de imagem capaz de confirmar isoladamente o transtorno. A avaliação deve ser realizada por médico especialista, levando em consideração a história clínica desde a infância, o impacto funcional dos sintomas em diferentes contextos e a investigação de outras condições que podem apresentar manifestações semelhantes, como ansiedade, depressão, transtornos do sono, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação.

O tratamento deve ser individualizado e pode incluir psicoeducação, psicoterapia, adaptações escolares ou profissionais, estratégias de organização da rotina e medicamentos quando indicados. O objetivo é reduzir o impacto dos sintomas e melhorar a qualidade de vida, a autonomia e o desempenho funcional do paciente.

Informação é aliada. Autodiagnóstico, não.

Se por um lado as redes sociais democratizaram o acesso ao conhecimento sobre saúde mental, por outro também ampliaram a circulação de conteúdos simplificados, muitas vezes sem respaldo científico¹. Para especialistas, ampliar a conscientização sobre o TDAH passa necessariamente por reforçar que informação de qualidade incentiva a busca por atendimento, mas nunca substitui uma avaliação médica criteriosa.

Vivemos um momento importante, em que muitas pessoas finalmente encontram explicações para dificuldades que carregam desde a infância. Isso representa um avanço. Mas o diagnóstico de TDAH não nasce nas redes sociais. Ele é resultado de uma avaliação médica cuidadosa, baseada em critérios científicos, capaz de diferenciar um transtorno do neurodesenvolvimento de dificuldades relacionadas ao estresse, ao excesso de telas, à privação de sono ou a outros problemas de saúde. Informação aproxima; diagnóstico exige ciência”, conclui Fabricia Signorelli.

A disseminação de informações sobre o TDAH permite que todos os cidadãos tenham acesso às informações necessárias para procurar os serviços de saúde, visando uma avaliação adequada e segura. Assim, a conscientização sobre a relevância do diagnóstico e tratamento precoces do TDAH, além de fomentar o debate sobre suas causas, sintomas e características.

Para saber mais sobre o transtorno, buscar ajuda especializada ou orientações de apoio, acesse o portal oficial da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA).

Fonte: Ministério da Saúde e Assessorias

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