Uma mudança repentina no diagnóstico, a frustração na busca por doadores na família e uma corrida contra o tempo. A história do carioca Flávio de Barros Moses, de 50 anos, sintetiza a realidade vivida por milhares de brasileiros que enfrentam o câncer de sangue e precisam de um transplante de medula óssea.

Projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicando mais de 12.220 novos casos de leucemia por ano no Brasil para o triênio 2026–2028. Por trás das estatísticas, no entanto, existem trajetórias humanas marcadas pela ciência de ponta, pelo amor e pela solidariedade de quem decide doar.

Flávio descobriu uma Leucemia Mieloide Crônica (LMC) que, em um movimento raro e agressivo, se transformou em uma Leucemia Linfoide Aguda (LLA). Diante da gravidade do quadro, a única alternativa definitiva de cura era o transplante alogênico de medula óssea, mas ele dependia de um doador compatível.

Neste Dia Mundial do Doador de Medula Óssea (celebrado neste 19 de setembro), a conscientização ganha um contorno urgente e cheio de esperança. A história de Flávio reforça o papel decisivo do diagnóstico precoce e da solidariedade.

O desafio de uma mutação rara e agressiva

 Jacques Kaufman, hematologista e médico transplantador do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), unidade da Rede Américas, diz que a transformação da doença do Flávio foi um cenário clínico raro e de altíssima gravidade.

Foi como se uma patologia que caminha devagar sofresse uma mutação e se transformasse em um adversário extremamente veloz. Diante disso, o transplante de medula óssea era a única chance real de cura”, explica

Sem doadores compatíveis na família, a esperança de Flávio veio do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). A voluntária Beatriz apresentou uma compatibilidade quase perfeita (9 em cada 10 pontos).

O procedimento foi realizado com sucesso em setembro de 2022 no CHN. No entanto, o pós-transplante impôs grandes desafios, incluindo complicações graves como reativação viral e disfunção do enxerto. Hoje, totalmente recuperado, Flávio teve a oportunidade inesquecível de conhecer pessoalmente a mulher que lhe devolveu o futuro.

Após a frustração de não encontrar compatibilidade na família e uma longa busca, recebi a confirmação de uma doadora brasileira e fiz o transplante. Hoje, tenho uma vida normal, com qualidade de vida, e guardo uma enorme gratidão por todos os profissionais que me acompanharam e pela minha doadora”, relata Flávio.

Inovações em terapias celulares e novas esperanças

Para além dos transplantes tradicionais com doadores compatíveis encontrados em bancos de dados, a medicina deu passos largos na criação de estratégias personalizadas para os casos mais resistentes de cânceres do sangue.

A história de Sandra Abelha Lima, de 71 anos, exemplifica essa revolução. Diagnosticada com linfoma do manto, Sandra enfrentou uma maratona terapêutica: passou por quimioterapia convencional, transplante autólogo e terapia-alvo com o medicamento Acalabrutinib, garantindo períodos de remissão. Quando a doença voltou a progredir, a ciência ofereceu uma alternativa altamente inovadora.

O presente da vida doado pelo próprio filho

Em maio de 2024, a equipe médica do CHN realizou um transplante alogênico haploidêntico, utilizando a medula do filho de Sandra, Daniel, de 37 anos, apenas 50% compatível. O objetivo foi ativar o “efeito enxerto contra tumor”, no qual as novas células doadas pelo filho passam a reconhecer e destruir qualquer vestígio de câncer no corpo da mãe.

Simone Maradei, também hematologista e responsável técnica pelo transplante de células-tronco hematopoéticas do CHN, destaca a relevância desse avanço para a medicina:

O grande avanço desse caso foi mostrar que a ausência de um doador 100% compatível já não representa um impedimento. Hoje, os transplantes haploidênticos apresentam resultados cada vez mais comparáveis aos totalmente compatíveis, permitindo que a grande maioria dos pacientes tenha um doador dentro da própria família.”

Apesar de enfrentar complicações críticas no pós-transplante imediato — como infecções severas e a Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (DECH) —, o suporte médico intensivo garantiu a remissão completa da doença.

Foram cerca de dez anos de uma intensa jornada de tratamento. Meu filho Daniel teve a coragem de me devolver aquilo que eu lhe dei há 37 anos: a vida. Hoje, recuperei minha saúde física, mental e a alegria de viver plenamente”, conclui Sandra.

Para a Dra. Simone Maradei, o Dia Mundial do Doador de Medula Óssea reforça a importância do diagnóstico precoce e da doação, pontuando que as inovações nos tratamentos onco-hematológicos têm proporcionado desfechos positivos antes considerados improváveis.

Passo a passo para salvar vidas no Redome

O diagnóstico precoce e a ampliação do cadastro de doadores voluntários são as ferramentas mais poderosas para vencer as estatísticas do câncer de sangue.

  • Quem pode doar: pessoas entre 18 e 35 anos, em bom estado geral de saúde e sem doenças infectocontagiosas ou incapacitantes.

  • Como funciona o cadastro: basta procurar o hemocentro mais próximo, preencher um formulário com dados pessoais e coletar uma pequena amostra de sangue (5 ml) para o teste de histocompatibilidade (HLA).

  • O que acontece depois: seus dados ficam armazenados no Redome. Caso apareça um paciente compatível, você será contactado para realizar exames complementares e confirmar a doação.

Seja a esperança de alguém. Cadastre-se como doador de medula óssea e ajude a salvar vidas!

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