Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), um em cada dez pacientes sofre algum dano durante a assistência à saúde no mundo, e pelo menos metade desses eventos poderia ser evitada. No tratamento oncológico, a proporção de pacientes atingidos por eventos adversos pode chegar a 1 em cada 3. Erros de medicação, falhas de diagnóstico, infecções hospitalares, procedimentos cirúrgicos inseguros e quedas estão entre as principais causas.

No Brasil, um estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Public Health estimou 175.841 casos de efeitos adversos por tratamentos médicos em 2021 (75,09 casos por 100 mil habitantes), com crescimento médio anual de 3,88% entre 1990 e 2021. Já uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com o IESS estimou que 302,6 mil vidas são perdidas por ano no país em decorrência de eventos adversos evitáveis em hospitais.

Celebrado em 17 de setembro, o Dia Mundial da Segurança do Paciente, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), traz em 2026 o tema da segurança no cuidado às pessoas com doenças não transmissíveis (DNTs), sob o lema “Cuidados seguros durante toda a vida!” (Safe care for life!). A campanha reforça que a proteção à saúde deve ocorrer em toda a jornada assistencial, desde a atenção primária até a alta hospitalar.

Mortes por doenças crônicas

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde e o IBGE cerca de 40% da população adulta brasileira, o equivalente a 57,4 milhões de pessoas possuem ao menos uma doença crônica não transmissível – — como problemas cardiovasculares, cânceres, doenças respiratórias e diabetes. E, as DCNTs são responsáveis por mais de 72% das causas de mortes no país.

Segundo o Painel de Monitoramento da Mortalidade por CID-10, do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, o Brasil registrou até maio de 2026 números expressivos de óbitos pelas principais DNTs:

  • Doenças cardiovasculares: 124.942 óbitos

  • Neoplasias (cânceres): 93.889 óbitos

  • Diabetes mellitus: 22.163 óbitos

  • Doenças respiratórias crônicas: 16.832 óbitos

No estado do Rio de Janeiro, o impacto no mesmo período somou 23.964 mortes concentradas nesses quatro grupos: 12.231 por doenças cardiovasculares, 8.428 por neoplasias, 2.109 por diabetes mellitus e 1.196 por doenças respiratórias crônicas.

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Casos poderiam ter sido evitados

Um levantamento da Plataforma DRG Brasil, do Grupo IAG Saúde, analisou 814.155 internações por doenças não transmissíveis entre janeiro de 2021 e junho de 2026. Todas as hospitalizações foram classificadas como condições sensíveis à atenção primária, ou seja, casos que poderiam ter sido evitados com um acompanhamento preventivo e efetivo na rede básica de saúde.

Uma vez hospitalizados, esses pacientes passam a enfrentar os riscos do próprio ambiente assistencial. No período analisado, 10,9% apresentaram alguma condição adquirida durante a internação — o equivalente a cerca de uma em cada nove pessoas.

Em 4,1% dos casos, a complicação foi classificada como grave, associada ao aumento do risco de morte, sequelas permanentes ou tempo prolongado no hospital. A mortalidade no grupo com complicações graves foi aproximadamente seis vezes maior do que no grupo sem essas ocorrências.

Indicador assistencial Sem condição adquirida grave Com condição adquirida grave
Mortalidade intrahospitalar 5,6% 33,4%

Doenças cardiovasculares concentram a maioria dos casos

As doenças cerebrovasculares lideraram o volume de internações no estudo, representando 25,3% dos casos, seguidas pela insuficiência cardíaca (19,3%) e pela angina (15,7%). O diabetes mellitus respondeu por 10,4%, doenças pulmonares por 10,1%, epilepsias por 8,3%, asma por 7,7% e hipertensão por 3,1%.

A população analisada apresentou idade média próxima de 60 anos, com predomínio de idosos e atendimento majoritariamente clínico. A permanência média no hospital foi de 7,4 dias, e 32,7% dos pacientes necessitaram de passagem pelo CTI (Centro de Terapia Intensiva). No total, foram contabilizadas mais de 6 milhões de diárias, com custo assistencial estimado em R$ 12,8 bilhões.

A pesquisa também apontou que a segurança exige atenção após o desligamento do hospital: 2,2% das internações resultaram em readmissão por recaída ou complicação no prazo de 30 dias após a alta. Como os pacientes com DNTs passam por jornadas longas — envolvendo consultas, exames e múltiplos especialistas —, o risco de falhas na comunicação, erros de medicação ou transição insegura de cuidados aumenta.

Para Breno Duarte, presidente do Grupo IAG Saúde, os dados evidenciam uma elevada vulnerabilidade e reforçam a necessidade de estratégias de segurança capazes de prevenir tais eventos durante a internação. O desafio, contudo, não se limita ao avanço natural da enfermidade, mas se estende aos riscos inerentes às falhas de assistência durante o tratamento.

Dados de mortalidade revelam o peso das doenças crônicas no Brasil e no Rio

O médico clínico geral e membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA), Maurício Perroud, explica que o enfrentamento exige atuação antecipada. “A prevenção começa antes do diagnóstico e continua ao longo de toda a vida. A identificação dos fatores de risco, o acompanhamento periódico e a detecção precoce permitem agir mais cedo e reduzir a possibilidade de complicações”, ressalta.

A segurança do paciente não começa quando ele entra no hospital e também não termina quando recebe alta. No caso das doenças crônicas, comunicação, segurança no uso de medicamentos e continuidade da assistência precisam fazer parte de todo o percurso”, afirma Gilvane Lolato, gerente geral de Operações da ONA.

Além do papel dos profissionais de saúde, a campanha da OMS defende que o próprio paciente e seus familiares sejam parceiros ativos na prevenção de riscos. Compreender o tratamento, confirmar orientações, tirar dúvidas antes de alterar medicações e relatar novos sintomas são atitudes simples que criam barreiras eficazes contra eventos adversos.

Com Assessorias

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