A ficha demorou a cair para Claudineia Rosa Figueiredo, de 53 anos, compreender que havia sido vítima de violência familiar.  Quando pisou no Abrigo Rainha Silvia, em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em 1996, ela estava grávida pela terceira vez e buscava por apoio para realizar o pré-natal. Sem emprego e suporte do pai do bebê, ela encontrou no local mais que acolhimento: a oportunidade de reconstruir sua vida.

O abrigo pagou meus estudos, abracei todas as oportunidades. Estudei, me formei em Enfermagem, voltei a fazer parte da sociedade e passei a trabalhar no atendimento a mulheres que procuravam o abrigo que me acolheu”, conta ela, que é mãe de três mulheres – Raquel, de 35 anos, Neudiane, de 31, e Stephany, 29.

Foi ouvindo outras histórias que Claudineia identificou situações de abuso e violência que havia vivido em seus próprios relacionamentos. “Hoje, meu trabalho é ajudar outras mulheres a entenderem que elas não são culpadas das acusações dos seus agressores e que é possível construir um caminho diferente”, diz ela, que atua como coordenadora da instituição desde 2025.

‘Mesmo reconhecendo o abuso, eu não conseguia romper o ciclo’

Uma dessas histórias foi a da professora Daiane Coutinho Silva, de 38 anos, que também encontrou no Abrigo um ponto de virada, em 2009. Ela reconhecia a situação que vivia, mas enfrentou dificuldades para pôr fim em mais um relacionamento abusivo. Grávida, chegou a viver em situação de extrema vulnerabilidade para fugir de um relacionamento abusivo. Ninguém a amparou. No Rainha Silvia recebeu acolhimento e o apoio que precisava para concluir os estudos.

Depois que saí do abrigo enfrentei outra relação marcada por violência doméstica por 14 anos. Mesmo reconhecendo o abuso, não conseguia romper o ciclo e foi preciso tratar o psicológico. Meus filhos e a Claudineia me deram força para sair desse relacionamento e recomeçar. De volta ao abrigo, desta vez como professora mediadora da instituição, voltei a investir na minha carreira e me formo em Pedagogia em breve”, conta a mãe de Sara, 17, Kaleb, 13 e Ariel, 10.

As trajetórias de Claudiane e Daiane são distintas, porém, unidas pela luta de romper o ciclo da violência de gênero. Atualmente, a instituição acolhe 13 mulheres vítimas de violência, todas com medidas protetivas, de vários lugares do Estado do Rio, e 24 crianças, oferecendo moradia, alimentação, atendimento médico, odontológico, psicológico e assistência jurídica.

As famílias podem permanecer no local por períodos que variam de seis meses a dois anos, tempo em que recebem apoio para reconstruir a autonomia e preparar um novo caminho, longe da violência.

‘Nem toda violência deixa marcas visíveis’

Histórias semelhantes mostram que informação, acolhimento e rede de proteção podem mudar destinos e esse é um dos focos da cartilha “Panorama Vermelho – A luta da mulher contra a violência”, lançada pelo Grupo OAF Assistencial neste sábado,19 de setembro, na OAB de Itaboraí, Região Metropolitana do Rio. A cartilha será disponibilizada na forma impressa e digital.

Com depoimentos de Claudineia e de Daiane, a cartilha também reúne entrevistas com especialistas e orientações de proteção com canais de ajuda e denúncia. O conteúdo conta com a participação da advogada Amanda Souza, presidente da Comissão OAB Mulher, seccional de Itaboraí; da psicologa e sexóloga Pâmela Clarissa Lira, e da atleta de MMA, Lorrayne Santos.

Idealizadora da cartilha, a advogada Karla Monielly Belchior, CEO da OAF Assistencial, explica que o material foi pensado como uma ferramenta de reconhecimento, capaz de ajudar mulheres a identificar situações de abuso e encontrar caminhos para buscar ajuda.

Nem toda violência deixa marcas visíveis. Muitas mulheres vivem situações de controle e medo sem reconhecer de imediato a violência. A cartilha foi produzida para criar essa ponte de reconhecimento, incentivar o diálogo e facilitar o caminho dessa vítima até uma rede de acolhimento. A ideia é tornar possível a mulher identificar sinais de abuso na própria realidade e chegar à conclusão que ela merece viver com respeito, segurança e liberdade”, afirma Karla Monielly.

Sinais de uma relação abusiva

Ciúme excessivo, tentativa de controlar roupas, amizades, redes sociais e dinheiro, isolamento da família e dos amigos, humilhações, ameaças, chantagens emocionais e a constante sensação de precisar “pisar em ovos” para evitar conflitos.

Segundo a psicóloga e sexóloga Pâmela Clarissa Lira esses são os principais sinais de alerta de um relacionamento abusivo. “O abuso também pode ocorrer de forma mais sutil, por meio de manipulação, culpa e desqualificação constante dos sentimentos e das decisões da mulher”, acrescenta a especialista.

Romper com uma relação abusiva, de acordo com Lira, não depende apenas do desejo da mulher de se livrar dessa condição, mas o processo envolve reconhecer a violência vivenciada, fortalecer a autoestima e buscar uma rede de apoio e acompanhamento especializado, que ofereçam segurança e suporte para a ruptura.

Reconhecer racionalmente que se está em uma relação abusiva não significa, necessariamente, conseguir romper de forma imediata. O medo, a dependência emocional ou financeira, a baixa autoestima e padrões afetivos construídos ao longo da vida podem dificultar a saída desse ciclo”, frisa a psicóloga.

Números da violência contra a mulher em alta

Pesquisas apontam que a violência contra a mulher é um desafio crescente. O estudo Retrato dos Feminicídios no Brasil 2026, por exemplo, publicado em março pelo Fórum de Segurança Pública, mostra que, enquanto as mortes violentas caíram 8,2% no Brasil em 2025, os feminicídios cresceram 4%, atingindo o maior número da série histórica: 1.571 mulheres assassinadas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

O crescimento ocorreu na contramão das mortes violentas intencionais, que caíram 8,2% no país. Os dados mostram que 60,9% dos autores identificados eram parceiros e em 62,5% dos casos, as vítimas foram assassinadas dentro de casa. Ainda de acordo com o levantamento, mesmo com pequena redução dos crimes envolvendo de mulheres por razões de gênero, outros indicadores de violência continuaram avançando, especialmente os registros de violência psicológica, sexual e moral.

No Rio de Janeiro, os números mais recentes também mantêm o alerta. Embora os feminicídios tenham apresentado pequena queda em 2025, o número total de mulheres vítimas de violência cresceu cerca de 3%. A violência psicológica foi a que mais avançou, atingindo 59.743 mulheres, alta de 6,3%. Os registros de violência sexual e moral também aumentaram.

Em Itaboraí, o Núcleo Integrado de Atendimento à Mulher (NIAM) registrou 317 atendimentos em 2024. Em 2025, foram 266 mulheres atendidas e, apenas até junho deste ano, outras 179 já haviam procurado o serviço por diferentes situações de violência.

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