Estimativas do Ministério da Saúde apontam cerca de 400 mil casos por ano de Trombose Venosa Profunda (TVP) no Brasil. Além disso, dados do Sistema Único de Saúde (SUS) compilados pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) indicam mais de 700 mil internações anuais — o que equivale a uma média de 165 internações diárias na rede pública para o tratamento de complicações venosas.

Neste 16 de setembro, Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose, especialistas de todo o país reforçam a conscientização sobre a condição, que ocorre pela formação de um coágulo sanguíneo que bloqueia a circulação em um vaso. Trata-se de uma condição assintomática e de difícil diagnóstico no início, mas que pode evoluir para complicações potencialmente fatais.

A complicação mais grave é a embolia pulmonar (EP), que acontece quando o trombo se desprende, geralmente das pernas, e atinge os pulmões, comprometendo o fluxo de oxigênio e a função cardíaca.  O tromboembolismo venoso (TEV) representa a terceira principal causa de morte cardiovascular no mundo.

Nos casos mais graves, pode comprometer rapidamente o funcionamento dos pulmões e do coração, colocando a vida do paciente em risco”, alerta o médico Pedro Jardim, hematologista do Hospital Universitário dos Servidores do Estado (HUSE-Unirio), gerido pela HU Brasil.

Sinais de alerta: como identificar a dor que não é normal

De acordo com os protocolos médicos, a manifestação da doença costuma ser assimétrica, afetando predominantemente um dos lados do corpo. O cirurgião vascular Caio Focássio, membro da SBACV, ressalta que o diagnóstico precoce é fundamental:

Os sintomas de trombose podem ser silenciosos ou manifestar-se por dor e inchaço nas pernas, vermelhidão e sensação de calor na área afetada. Pessoas que passam longos períodos sentadas trabalhando ou em viagens longas, ou que apresentam condições como obesidade, tabagismo, gravidez e doenças cardíacas, estão no grupo de maior risco.”

  • Sinais nos membros inferiores: Dor intensa e repentina concentrada em apenas uma das pernas, inchaço assimétrico acentuado, vermelhidão, sensação de calor na pele e rigidez muscular.

  • Diferenciação nos sintomas: Ter varizes não indica necessariamente trombose, embora exija atenção. O Dr. Pedro Jardim pondera que nem sempre é fácil diferenciar a trombose de um problema muscular apenas pelos sintomas, mas ressalta que o edema e a dor da TVP costumam focar em um único membro. “Na dúvida, a avaliação médica é indispensável”, reforça o hematologista.

  • Emergência médica: A ocorrência de dor no peito, falta de ar súbita, tontura ou palpitações indica a possibilidade de o coágulo ter atingido o pulmão, exigindo atendimento de emergência imediato.

Por ter um início sutil, é comum que as pessoas atribuam os primeiros desconfortos ao cansaço e adiem a busca por assistência médica. A fisioterapeuta Joseanny Nicolussi, consultora da Sigvaris Group, explica esse cenário:

A dor nem sempre se manifesta de forma intensa no começo, assim como o edema pode parecer sutil. Essa confusão ocorre com frequência em pessoas com problemas venosos prévios, habituadas ao inchaço ao final do dia e que tendem a achar o sintoma normal. O risco desse engano é a descoberta tardia, quando o quadro já evoluiu para uma complicação.”

Grupos de risco, gestação e a atenção no puerpério

A retenção e a imobilidade provocadas por cirurgias, internações, câncer, uso de contraceptivos hormonais e predisposição genética estão entre os principais fatores desencadeantes. Pedro Jardim acrescenta que o evento trombótico pode, inclusive, revelar outras condições de saúde subjacentes:

Temos muitos pacientes com comorbidades que, a partir do evento trombótico, tiveram doenças autoimunes e neoplasias diagnosticadas. A maioria evolui muito bem quando mantém o tratamento e o acompanhamento adequados.”

A gestação e o puerpério também demandam cautela. As mudanças hormonais e a pressão do útero sobre as veias pélvicas elevam em até cinco vezes o risco de episódios tromboembólicos.

Embora a prevalência na gestação seja de 1 a 2 casos a cada mil mulheres, a atenção deve ser total, sobretudo no pós-parto imediato. Dor e inchaço concentrados em apenas uma perna não representam um desconforto normal da gravidez”, adverte Joseanny Nicolussi, destacando a necessidade do acompanhamento pré-natal.

Prevenção contínua e a nova legislação hospitalar

A adoção de hábitos saudáveis é a principal forma de evitar complicações. “Evitar longos períodos sentado é essencial. Quem precisa trabalhar ou viajar por muitas horas deve se levantar e caminhar a cada 1 ou 2 horas, além de beber água regularmente para ajudar a manter o sangue mais fluido. O check-up vascular anual ajuda a evitar que a condição se instale”, orienta o Dr. Caio Focássio. O uso de meias de compressão graduada também atua como forte aliado para estimular o retorno venoso.

A proteção no ambiente hospitalar ganhou um importante suporte legal. Sancionada em 30 de junho, a Lei nº 15.448/2026 determina que hospitais públicos e privados adotem protocolos para avaliar o risco de TEV em pacientes internados.

O cirurgião vascular Adilson Ferraz Paschoa, membro da Comissão de TEV da SBACV-SP, explica o impacto da mudança: “A permanência no leito ou a mobilidade restrita interferem no retorno venoso. Essa orientação, agora com a força de lei, representa um grande avanço para reduzir o impacto da doença.”

A diretriz hospitalar engloba medicamentos anticoagulantes, mobilização precoce e compressão pneumática intermitente. O Dr. Adilson lembra que os cuidados não terminam com a alta: “A chance de desenvolver tromboembolismo venoso persiste por três meses ou até mais após uma internação, sendo maior nas primeiras três semanas. Por isso, o paciente deve permanecer atento aos sinais de alerta mesmo quando já estiver em casa.”

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