A taxa global de novos casos de câncer está aumentando devido ao envelhecimento da população mundial: um em cada cinco homens e uma em cada seis mulheres desenvolvem algum tipo de câncer ao longo da vida, resultando em uma morte em cada oito homens e um morte em cada 11 mulheres. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que de 30 a 40% dos casos de câncer estão ligados ao estilo de vida, como tabagismo, consumo excessivo de álcool, inatividade física, sobrepeso e obesidade.

Além desses fatores de risco, a OMS destaca que uma dieta pobre em frutas e vegetais e o consumo excessivo de carne vermelha – incluindo opções como bovina, vitela, suína, cordeiro, carneiro e cabra – está associado a cânceres como colorretal, pâncreas, próstata e estômago. O risco pode ser ainda maior com as carnes processadas, quem passa por processos como salga, cura, fermentação, defumação, como presunto, salame, bacon e salsicha.

A boa notícia é que estudos mostram que a atividade física regular e uma dieta estilo mediterrânea estão associadas a um risco reduzido de diversos tipos de câncer. Amplamente divulgada, essa dieta preconiza uma maior ingestão de alimentos de origem vegetal, como frutas, vegetais, cereais integrais, leguminosas (feijão, grão de bico, lentilha, ervilha), oleaginosas (nozes, castanhas, amêndoas) e sementes.

O azeite é a principal fonte de gorduras, enquanto produtos lácteos magros, peixes e aves são consumidos moderadamente, limitando-se o consumo de ovos a um máximo de quatro por semana. A carne vermelha é reservada para ocasiões especiais e consumida em pequenas quantidades”, recomenda a nutricionista Adriana Stravo, formada em Medicina do Estilo de Vida pela Universidade de Harvard Medical Schooll.

O medo das dietas prescritas no tratamento

Mas quando o assunto é câncer, a alimentação vai além da prevenção. Após um diagnóstico da doença, alimentar-se pode passar a ser um desafio cotidiano. O próprio tratamento frequentemente afeta o apetite, altera o paladar e impõe restrições ou desconfortos.

Para além das necessidades biológicas, o ato de se alimentar carrega memória, afeto e identidade, elementos que acabam ameaçados diante do medo e da rigidez das dietas terapêuticas. Um estudo publicado no Asia Pacific Journal of Clinical Nutrition, com 245 pacientes com câncer nasofaríngeo e colorretal, apontou que 86% relataram evitar determinados alimentos por receio relacionado à doença.

Paralelamente, as diretrizes da Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) alertam que a desnutrição é frequente no câncer e afeta a qualidade de vida, sendo recomendada a avaliação contínua da ingestão alimentar, peso e IMC desde o diagnóstico. A baixa adesão a planos alimentares é outro desafio: dados da Revista Saúde em Debate indicam que o abandono de consultas de nutrição varia entre 40% e 65% em diversos perfis clínicos no Brasil.

O Método Puterman e a comida com afeto

É para preencher a lacuna entre a prescrição e a mesa que atua a gastrônoma Helen Puterman. Seu trabalho não substitui o acompanhamento nutricional, mas parte das diretrizes e restrições médicas para convertê-las, por meio da gastronomia, em preparações adaptadas, saborosas e viáveis para a rotina de cada paciente.

Para garantir que a orientação clínica se converta em consumo efetivo, Helen desenvolveu o Método Puterman. A proposta utiliza técnicas gastronômicas para adaptar receitas sem descaracterizar a essência, o sabor, o aroma ou a memória afetiva dos pratos favoritos dos pacientes. “O nutriente só cumpre sua função quando o paciente consegue comer”, resume a gastrônoma.

Com isso, itens cotidianos ou pratos afetivos — como a pizza do fim de semana ou memórias de infância — passam por adaptações de textura e modo de preparo para contornar sintomas como náuseas, mucosite ou alterações de paladar, garantindo acolhimento e normalidade.

Em remissão de um câncer de mama há três anos, Rogéria Rocha relata a mudança prática em sua rotina após conhecer o método.

A Helen me mostrou que a alimentação na remissão do câncer não precisa ser sem graça ou restritiva. Com as técnicas e receitas que aprendi nas aulas dela, consegui driblar minhas intolerâncias alimentares e enriquecer muito o meu cardápio diário. O trabalho dela é um suporte prático indispensável para qualquer paciente.”

Capacitação de profissionais da saúde

Além do atendimento a pacientes e familiares, a metodologia é direcionada a profissionais de saúde. Para responder a essa demanda, Helen Puterman realiza o curso prático “Técnica Dietética Adaptada às Necessidades do Paciente”, voltado a nutricionistas e estudantes da área.

A formação capacita os profissionais a irem além dos cálculos de nutrientes, aplicando técnicas de preparo, apresentação e alteração de textura para solucionar queixas como diarreia, constipação, mucosite e inapetência, aumentando a taxa de adesão aos tratamentos propostos.

Palavra de Especialista

Os benefícios da dieta mediterrânea para o câncer de mama

Por Adriana Stravo*

No estudo de 2014 sobre a ‘Dieta Mediterrânea Espanhola e o Risco de Câncer de Mama’, os autores destacaram o papel protetor do padrão alimentar mediterrâneo em relação ao risco de mortalidade pela doença.

A ligação entre a ingestão alimentar e o câncer pode ser atribuída aos efeitos anti-inflamatório, antioxidante e de reparo do DNA atribuídos a alguns nutrientes. Estes incluem:

  • Ácidos graxos ômega-3: Os ácidos graxos ômega-3, presentes em salmão, sardinha e cavala, oferecem benefícios à saúde, incluindo um efeito protetor contra o câncer. Os ácidos graxos eicosapentaenoico (EPA) e docosaexaenoico (DHA) são mediadores lipídicos importantes, associados à redução da inflamação e prevenção de doenças.
  • Quercetina: É um pigmento flavonoide presente em várias frutas, vegetais e folhas como brócolis, cebola, maçã, pimentão, alcaparra, limão, uva e trigo sarraceno, possui propriedades antioxidantes e antitumorais. Estudos indicam que a quercetina pode proteger contra o câncer, agindo na morte de células cancerígenas, restauração de genes supressores de tumor e reversão de alterações epigenéticas associadas à ativação de oncogenes.

  • Epigalocatequina-3-Galato (EGCG): Encontrada no chá verde, tem sido extensamente estudada por seu potencial efeito protetor contra vários tipos de câncer em humanos. Comparado a outros chás, o chá verde contém a maior quantidade de compostos bioativos, pertencentes ao grupo dos polifenóis. A maioria dos dados experimentais indicou que os polifenóis têm a capacidade de modular diversas vias de sinalização, regulando o crescimento, a sobrevivência e a metástase de células cancerígenas em diversos níveis.
  • Curcumina: A curcumina, usada como agente terapêutico e preventivo no câncer de mama, conta com amplo respaldo de evidências provenientes de estudos laboratoriais e com animais, destacando sua diversificada atividade biológica contra células tumorais. A administração simultânea de piperina pode aumentar significativamente a absorção, concentração sérica e biodisponibilidade da curcumina em humanos, podendo chegar a até 20 vezes
  • Folato (vitamina B9): Alimentos como feijões, lentilhas, ervilhas, grão-de-bico, ovos e carne são ricos em folato (vitamina B9). Uma análise com 23 estudos prospectivos, envolvendo 41.516 casos de câncer de mama, indicou uma redução de 18% no risco de câncer de mama associada à ingestão de folato. Além disso, uma alta ingestão de folato mostrou uma associação inversa com o risco de câncer no útero, ovários e endometrial
  • Vitamina B6: A vitamina B6, encontrada em alimentos como carnes, leite, ovos, aveia, banana, gérmen de trigo, abacate, levedo de cerveja, cereais, sementes e nozes, desempenha um papel crucial em diversas reações bioquímicas. Além disso, pode ter um papel importante na proteção contra a carcinogênese
  • Licopeno: Diversos estudos em humanos têm observado uma associação entre a ingestão de licopeno, presente no tomate, e a redução do risco de câncer de próstata. Vale destacar que cozinhar ou assar os tomates pode aumentar a biodisponibilidade de licopeno.

*Adriana Stavro é nutricionista e atua como especialista em Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre pelo Centro Universitário São Camilo, pós-graduada em Nutrição Clínica Funcional pelo Instituto Valéria Pascoal (VP) e EM Fitoterapia pela Courses4U. possui . Instagram – @adrianastavronutri – Mais informações https://lattes.cnpq.br/

Com Assessorias

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