Tristeza profunda, perda de interesse em atividades que antes davam prazer (anedonia), fadiga crônica, alterações de sono/apetite e sentimentos de inutilidade ou culpa podem indicar um episódio depressivo, classificado como ‘episódio depressivo’ pelo código CID F32 da Classificação Internacional de Doenças. 
Foi esta a suspeita que a jovem MC recebeu aos 16 anos ao passar por uma consulta online com uma psicóloga, que a recomendou realizar sessões de psicoterapia em março de 2022. Um ano e meio depoisa jovem recebeu da sua psiquiatra a recomendação de dobrar o número de sessões de psicoterapia, por conta de Transtorno de Personalidade Borderline (F60.3).
A condição apareceu após MC passar por uma avaliação neuropsicológica na clínica de psicologia onde era atendida. Naquele momento, a família foi orientada a apostar no acompanhamento psicoterapêutico como a forma mais eficaz de tratar o transtorno, que não costuma reagir bem a tratamentos medicamentosos.
Não se trata de uma ansiedade que evoluiu, mas sim de uma estrutura de personalidade que sempre esteve lá e foi se manifestando de formas diferentes ao longo das fases da vida. Na Infância, MC recebeu a suspeita de  Transtorno Opositor Desafiante (TOD), caracterizado por um padrão de humor irritável, comportamento desafiador e vindicativo. A desregulação emocional severa do que viria a ser o Borderline é frequentemente confundida com TOD, pois a criança reage com muita intensidade e agressividade a frustrações ou regras.
À medida que a paciente cresce, a intensa instabilidade emocional interna começa a se manifestar. Ela enfrenta vazios profundos, medo de rejeição e oscilações de humor. Inicialmente, os médicos costumam tratar apenas a “superfície” desse sofrimento, diagnosticando as crises resultantes como depressão e ansiedade isoladas.
 A avaliação neuropsicológica foi o divisor de águas. Ela conseguiu mapear que a impulsividade, a reatividade emocional e as dificuldades de relacionamento não eram apenas sintomas de uma depressão passageira, mas sim o padrão persistente de funcionamento da paciente (o traço de personalidade).
O diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline amarra toda a história, desde a infância desafiadora até as crises atuais. A paciente desenvolveu um quadro estrutural (uma forma de sentir, reagir e se relacionar intensamente com o mundo que a acompanha desde o início do desenvolvimento).

CID F32: Episódio depressivo

O F32 identifica que a pessoa está passando por um período atual de depressão. Trata-se de um transtorno de humor temporário (que pode durar meses), onde há uma queda brusca na energia do indivíduo.Este código se divide conforme a gravidade dos sintomas:
  • F32.0: Episódio depressivo leve.
  • F32.1: Episódio depressivo moderado.
  • F32.2: Episódio depressivo grave (sem sintomas psicóticos).
  • F32.3: Episódio depressivo grave com sintomas psicóticos (quando há presença de delírios ou alucinações).

CID F60.3: Transtorno de Personalidade com Instabilidade Emocional

O F60.3 refere-se a uma condição estrutural da personalidade do indivíduo, amplamente conhecida como Transtorno de Personalidade Borderline (ou Limítrofe). Ao contrário do episódio depressivo, este é um padrão persistente de comportamento e sentimentos que começa na adolescência ou início da vida adulta e acompanha a pessoa continuamente.
A classificação médica a divide em dois tipos principais:
  • Tipo Impulsivo (F60.30): Marcado pela incapacidade de controlar impulsos, forte tendência a agir de forma imprevisível e acessos de raiva ou agressividade quando contrariado.
  • Tipo Borderline (F60.31): Além da impulsividade, inclui perturbação crônica da autoimagem (não saber bem quem se é), sensação constante de vazio interno, medo desesperado de rejeição/abandono, relacionamentos amorosos ou familiares extremamente intensos e instáveis, e propensão a comportamentos autodestrutivos ou tentativas de autolesão.

O que significa ter os dois códigos juntos?

O aparecimento conjunto dos códigos CID F32 e CID F60.3 indica que o paciente possui uma comorbidade (dois diagnósticos diferentes que coexistem e se influenciam mutuamente): o Transtorno de personalidade Borderline(F60.3) e que, neste momento, essa instabilidade evoluiu ou desencadeou uma crise de Depressão Clínica (F32).
Pessoas com o CID F60.3 têm uma vulnerabilidade emocional muito maior a frustrações e rejeições, o que as torna altamente propensas a desenvolver episódios depressivos (F32) frequentes e intensos. O tratamento para essa junção costuma envolver psicoterapia contínua (como a Terapia Dialética Comportamental) associada a medicamentos específicos para estabilizar o humor e tratar a crise de depressão.

A leitura de um mesmo laudo neuropsicológico pode gerar divergência na interpretação diagnóstica, e não necessariamente que a paciente tenha uma ou mais condições simultaneamente. Essa discordância é extremamente comum na psiquiatria. O laudo neuropsicológico não entrega um código CID pronto; ele faz um mapeamento das funções cognitivas e do perfil emocional da paciente. A partir desse “mapa”, cada psiquiatra usou seu próprio critério clínico para fechar o diagnóstico.

Diferenças entre depressão e borderline

A divergência entre o F32 (Depressão) e o F60.3 (Borderline) ocorre rotineiramente pelos seguintes motivos:

1. Sintomas idênticos, origens diferentes

A avaliação neuropsicológica de uma pessoa com depressão grave (F32) e de uma pessoa com padrão Borderline (F60.3) pode mostrar resultados muito parecidos: alta reatividade emocional, impulsividade em momentos de crise, prejuízo nas funções executivas (como tomada de decisão) e índices elevados de desesperança.
  • O psiquiatra do F32 interpretou que essas alterações são temporárias, causadas por uma forte crise depressiva atual que “desregulou” o cérebro da paciente.
  • O psiquiatra do F60.3 interpretou que essas alterações fazem parte da estrutura de funcionamento permanente da paciente, ou seja, de sua personalidade desde a juventude.

2. O fator “Tempo” (Estado vs. Traço)

Para desempatar essa divergência, a peça-chave não é o teste neuropsicológico em si, mas a história de vida da paciente:
  • Se a paciente sempre foi uma pessoa com oscilações crônicas, relacionamentos intensos/tumultuados e medo profundo de rejeição desde a adolescência, o diagnóstico tende para o F60.3. [4, 6]

  • Se a paciente tinha um funcionamento estável e entrou nesse estado de sofrimento, apatia e desespero há alguns meses devido a um esgotamento ou trauma, o diagnóstico correto é o F32. [7]

O que fazer diante dessa divergência?

Essa situação exige cautela, especialmente no tratamento medicamentoso. Antidepressivos prescritos para tratar uma depressão isolada (F32) podem não surtir o efeito desejado ou até aumentar a instabilidade de uma paciente Borderline (F60.3).
Caso os médicos não pertençam à mesma equipe profissional, o ideal é buscar uma terceira opinião de um psiquiatra especialista em transtornos de personalidade para revisar o laudo neuropsicológico e desempatar o cenário, ou promover uma conversa direta entre os profissionais envolvidos.
  • tem um quadro puramente sindrômico (uma doença clínica de ansiedade e humor que desgastou o organismo).
Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *