Tristeza profunda, perda de interesse em atividades antes prazerosas (anedonia), fadiga crônica, alterações no sono ou no apetite e sentimentos constantes de inutilidade ou culpa. Na juventude, esse conjunto de sintomas costuma acender um alerta imediato para a depressão — classificada pela Organização Mundial da Saúde como episódio depressivo (CID-10: F32).
Foi exatamente essa a suspeita inicial recebida por M. aos 16 anos, durante uma consulta online com uma psicóloga em março de 2022. No entanto, um ano e meio depois, o quadro tomou outro rumo: sua psiquiatra recomendou dobrar as sessões de psicoterapia ao diagnosticar o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB / CID-10: F60.3).
A confirmação do diagnóstico veio após uma avaliação neuropsicológica detalhada. Naquele momento, a família foi orientada a apostar na psicoterapia contínua como a pilar central do tratamento, uma vez que traços estruturais de personalidade não respondem de forma isolada ao uso de medicamentos.
Avanço científico: estudo reforça o papel da genética no Borderline
Historicamente associado de forma quase exclusiva a traumas de infância e fatores ambientais, o Transtorno de Personalidade Borderline acaba de ter sua base biológica reforçada. Um estudo publicado na renomada revista científica Nature Genetics — considerado a maior pesquisa genética já realizada sobre a condição — identificou evidências robustas de fatores genéticos associados ao TPB.
Para a neuropsicóloga Aline Graffiette, os achados científicos confirmam o que há anos é observado na rotina dos consultórios:
A pesquisa vem trazer ciência para aquilo que a clínica já observa no dia a dia. Quando recebemos um paciente com suspeita de transtorno de personalidade borderline, uma das primeiras etapas da avaliação é entender a dinâmica familiar. Investigamos se há parentes com transtornos psiquiátricos ou padrões semelhantes de comportamento. É muito comum encontrarmos esse histórico.”
A especialista destaca que delimitar esses marcadores pode abrir portas para diagnósticos cada vez mais precoces e assertivos:
Hoje já existem testes genéticos voltados para marcadores comportamentais. No futuro, esse conhecimento pode ser ampliado para os transtornos de personalidade, trazendo ainda mais segurança ao processo diagnóstico.”
Aline pondera, no entanto, que a genética não atua de forma isolada: a condição resulta de uma interação entre a predisposição biológica e as vivências do indivíduo.
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Setembro Amarelo: o risco de suicídio e os dois tipos de Borderline
O Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e prevenção do suicídio, joga luz sobre a urgência de identificar precocemente o Transtorno de Personalidade com Instabilidade Emocional (CID F60.3). Pessoas com este transtorno apresentam uma vulnerabilidade emocional significativamente maior diante de frustrações, o que eleva substancialmente o risco de comportamentos autodestrutivos e ideação suicida.
O código CID F60.3 identifica o transtorno a partir de traços como instabilidade emocional, oscilações repentinas de humor, autoimagem instável, relacionamentos tumultuados e tendência a atuar de forma imprevisível ou com acessos de raiva ao ser contrariado ou censurado.
A Classificação Internacional de Doenças divide a condição em dois tipos principais:
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Tipo Impulsivo (F60.30): Marcado predominantemente pela incapacidade de controlar impulsos, forte tendência a agir de forma imprevisível e acessos de raiva ou agressividade quando a pessoa é contrariada.
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Tipo Borderline (F60.31): Além da impulsividade, apresenta perturbações profundas da autoimagem, dificuldade para estabelecer projetos e preferências pessoais, sensação crônica de vazio, relações interpessoais intensas e instáveis, e alta propensão a comportamentos autodestrutivos, incluindo automutilação e tentativas de suicídio.
A combinação entre a dor psíquica intensa e o medo de abandono faz do acompanhamento contínuo uma medida indispensável para preservar a vida do paciente.
Do TOD à desregulação emocional: o histórico que antecede o diagnóstico
O caso de M. ilustra uma trajetória comum na psiquiatria infantojuvenil. O transtorno de borderline não surge do dia para a noite nem representa uma ansiedade que “evoluiu”, mas sim uma estrutura de personalidade que se manifesta de formas distintas ao longo do desenvolvimento.
Inicialmente, a medicina costuma tratar a “superfície” desse sofrimento, diagnosticando as crises resultantes como quadros isolados de ansiedade ou depressão. A avaliação neuropsicológica foi o divisor de águas no caso de MC.
O mapeamento mostrou que a impulsividade, a reatividade emocional e as dificuldades interpessoais não eram apenas sintomas de uma crise passageira, mas o padrão persistente de funcionamento da jovem desde o início de seu desenvolvimento.
Na infância, MC chegou a receber a suspeita de Transtorno Opositor Desafiante (TOD), caracterizado por humor irritável e comportamento desafiador. A intensa desregulação emocional do que mais tarde se confirmaria como Borderline é frequentemente confundida com o TOD, pois a criança reage com extrema agressividade a regras e frustrações.
À medida que o paciente cresce, a instabilidade interna ganha contornos mais complexos:
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Vazios profundos e crônicos;
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Medo intenso e desesperado do abandono ou rejeição;
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Oscilações bruscas de humor.
Divergências no laudo: estado X traço
A divergência diagnóstica entre profissionais de saúde mental é comum e não significa necessariamente erro médico. O laudo neuropsicológico mapeia funções cognitivas e emocionais, servindo como um “mapa” para o psiquiatra aplicar seu critério clínico.
A confusão entre Depressão (F32) e Borderline (F60.3) ocorre principalmente por dois motivos:
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Sintomas parecidos, origens distintas: Tanto na depressão grave quanto no TPB, o paciente pode apresentar alta reatividade, impulsividade e desesperança. Um profissional pode interpretar esses sintomas como temporários (causados pela depressão), enquanto outro identifica que eles fazem parte do funcionamento permanente da pessoa.
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O fator tempo: A chave para desempatar o diagnóstico é a história de vida. Se o sofrimento surgiu recentemente após um trauma ou esgotamento em alguém que antes tinha um funcionamento estável, o quadro aponta para F32. Se a instabilidade, o medo de rejeição e as relações tumultuadas estão presentes de forma contínua desde a adolescência, trata-se de F60.3.
Caso haja discordância entre laudos e equipes médicas, a recomendação é buscar uma segunda ou terceira opinião com um psiquiatra especialista em transtornos de personalidade para revisar o histórico do paciente ou promover um alinhamento direto entre os profissionais.
Entendendo os códigos médicos (CID-10)
Para compreender o diagnóstico e os laudos médicos, é fundamental diferenciar as duas classificações:
| Código CID-10 | Classificação | Características Principais |
| F32 | Episódio Depressivo | Transtorno de humor temporário (estado). Há queda brusca de energia, apatia e desesperança. Subdivide-se em leve (F32.0), moderado (F32.1), grave sem psicose (F32.2) e grave com sintomas psicóticos (F32.3). |
| F60.3 | Transtorno de Personalidade com Instabilidade Emocional | Condição estrutural e contínua (traço). Começa na adolescência e acompanha o indivíduo. Divide-se em Tipo Impulsivo (F60.30) e Tipo Borderline (F60.31), este último marcado por perturbação da autoimagem, vazio crônico e medo de rejeição. |
Aviso importante: Esta matéria possui caráter informativo e não substitui a consulta médica ou psicológica. Se você ou alguém que você conhece está passando por momentos de crise emocional, sofrimento psíquico ou pensamentos autodestrutivos, busque ajuda profissional imediatamente ou entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188 (ligação gratuita em todo o Brasil).

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