O consumo crônico de álcool e tabaco, assim como a ingestão acidental de bebidas adulteradas, pode provocar danos graves e irreversíveis à visão, podendo levar até mesmo à cegueira. O uso contínuo de bebidas alcoólicas e cigarro causa um colapso na produção de energia das células nervosas responsáveis pela visão, provocando uma degradação progressiva do nervo óptico.

De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), a perda visual decorrente do uso crônico de álcool e tabaco costuma ser lenta, indolor e simultânea nos dois olhos, o que atrasa a busca por atendimento médico. Os principais sinais incluem:

  • Surgimento de um borrão na visão central, mantendo a visão periférica intacta;

  • Desbotamento das cores (a cor vermelha, por exemplo, passa a ser percebida como um tom de rosa lavado).

Risco gravíssimo com o metanol

A ingestão de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol representa uma emergência médica gravíssima. A substância causa toxicidade direta em toda a via visual — da retina ao córtex cerebral.

Os sintomas da intoxicação por metanol costumam surgir entre 6 e 24 horas após a ingestão e incluem visão turva, fotofobia (sensibilidade extrema à luz), pupilas dilatadas e perda da visão de cores, podendo evoluir para cegueira irreversível, convulsões, coma e morte.

A obra inédita “Neuro-Oftalmologia” aborda desde as bases anatômicas até o diagnóstico de doenças complexas no sistema nervoso central que se manifestam por meio do sistema visual. Organizada pelos oftalmologistas Eric Pinheiro de Andrade, Leonardo Provetti Cunha e Mário Luiz Monteiro, a publicação durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), realizado esta semana em Salvador, Bahia.

A visão como janela para o cérebro

De acordo com o CBO, o olho é a única estrutura do corpo humano que permite visualizar, sem procedimentos invasivos, o funcionamento do sistema nervoso central. Isso é possível por meio do nervo óptico, que funciona como uma extensão direta do cérebro.

A neuro-oftalmologia é a subespecialidade encarregada de investigar alterações visuais provocadas por disfunções no cérebro ou nos nervos ópticos. Muitas vezes, uma queixa visual simples pode ser a primeira manifestação de doenças neurológicas importantes e tratáveis.

Além das chamadas neuropatias ópticas tóxicas e carenciais, como as causadas pelo consumo de álcool e tabaco, outras condições diagnosticadas pela área são:

  • Neurites ópticas: associadas a doenças autoimunes, como a esclerose múltipla;

  • Infarto do nervo óptico;

  • Compressões tumorais: causadas por tumores de hipófise ou por aneurismas;

  • Papiledema: inchaço do nervo óptico decorrente do aumento da pressão intracraniana;

  • Paralisias oculomotoras: provocadoras de visão dupla (diplopia).

Sinais de alerta neurológicos e diagnóstico precoce

O CBO destaca que os pacientes devem buscar avaliação especializada imediata ao notar sintomas neuro-oftalmológicos clássicos, tais como:

  1. Perda súbita de qualidade visual;

  2. Visão dupla que desaparece ao cobrir um dos olhos;

  3. Pálpebra caída que piora no decorrer do dia;

  4. Dor ao movimentar os olhos;

  5. Dores de cabeça persistentes acompanhadas de escurecimento visual ao se levantar.

Anamnese: o papel da conversa médica

Segundo o conselho, o exame mais eficaz da neuro-oftalmologia é a anamnese — uma entrevista detalhada durante a consulta médica. Quando bem conduzida, investigando fatores como padrão de consumo de substâncias, histórico familiar, alimentação e cirurgias prévias (como a cirurgia bariátrica), a anamnese é capaz de direcionar o diagnóstico correto em até 90% dos casos.

Exames complementares como a Tomografia de Coerência Óptica (OCT), a ressonância magnética, os testes eletrofisiológicos e a dosagem de vitamina B12 auxiliam na confirmação do quadro.

Tratamentos e condutas terapêuticas

O tratamento das neuropatias ópticas depende diretamente da causa identificada:

  • Neuropatias tóxicas: Exigem a interrupção imediata do agente agressor (álcool, tabaco ou medicamentos específicos).

  • Neuropatias carenciais: Necessitam da reposição urgente de vitaminas, como as do complexo B.

  • Intoxicação por metanol: Requer atendimento de emergência com administração de antídotos, correção da acidose metabólica e, quando indicado, diálise imediata para tentar preservar a visão.

  • Outras doenças neurológicas: Podem envolver o uso de corticosteroides em altas doses, plasmaférese (em quadros inflamatórios) ou procedimentos de radioterapia e cirurgia para descompressão tumoral.

Retinopatia diabética: complicação do diabetes exige exame anual de fundo de olho

O evento do CBO também destacou o tratamento de complicações oculares  da diabetes, uma doença crônica que afeta os vasos sanguíneos de todo o organismo. Quando essa agressão vascular atinge a retina — o tecido frágil e vascularizado localizado no fundo do olho —, desenvolve-se a da retinopatia diabética, uma das condições mais temidas.

Se não for diagnosticada e tratada adequadamente nas fases iniciais, a retinopatia diabética pode levar a danos severos na visão e até à cegueira. A presidente do CBO,  Maria Auxiliadora Frazão, ressalta a importância do acompanhamento médico constante:

O diabetes é uma doença que agride os vasos sanguíneos. E, assim como ele agride os vasos do organismo em geral, também agride os vasos que estão na retina. Por esse motivo, o controle do diabetes é extremamente importante para os olhos.”

Prevenção e diagnostico precoce

O coordenador do departamento de Saúde Ocular da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Fernando Malerbi, enfatiza que a perda de visão não é uma consequência inevitável para quem vive com o diagnóstico:

A perda da visão não é uma sentença pra quem tem diabetes. O paciente pode sim ter uma vida saudável. O problema acontece quando a pessoa não sabe que tem ou não sabe se cuidar. É quando as complicações podem acontecer.”

O diagnóstico da condição é realizado por meio do exame de fundo de olho, que exige a dilatação da pupila para a análise detalhada da retina e de suas estruturas neurais.

Recomendações para pacientes diabéticos:

  • Consulta oftalmológica periódica: Realizar a avaliação com o oftalmologista pelo menos uma vez ao ano.

  • Acompanhamento intensificado na gestação: Mulheres que já possuem diabetes antes da gravidez devem passar por exames a cada três meses.

  • Estilo de vida saudável: Manter o controle rigoroso da glicemia, manter o peso adequado, ter uma alimentação equilibrada e praticar atividades físicas regularmente.

Com informações da Agência Brasil

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