Aprendi a fazer crochê com minha avó Rosa lá na zona rural de Itaperuna (RJ), onde ela morava. A lembrança do movimento ritmado de suas mãos, conduzindo o fio entre os dedos com uma paciência quase mágica, é uma das memórias afetivas mais doces que carrego.

Por isso, neste Dia Mundial do Crochê (12 de setembro), o resgate dessa arte milenar ganha um significado ainda mais profundo ao se cruzar com o Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e os cuidados com a saúde mental.

A conexão entre a trama dos fios e o bem-estar emocional não é mero saudosismo. O Brasil lidera o ranking mundial de prevalência de transtornos de ansiedade, com 9,3% da população afetada de forma patológica, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Quando não tratada, a ansiedade pode evoluir para quadros graves de depressão — condição que atinge cerca de 300 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e se consolida como a principal causa de suicídio. No Brasil, são registrados cerca de 14 mil casos anuais.

Diante desse cenário, atividades de desaceleração ganham papel terapêutico fundamental. A prática do crochê tem sido amplamente recomendada por especialistas como uma “meditação ativa”. A combinação entre o estímulo tátil, a contagem de pontos e a repetição motora auxilia na redução do cortisol (o hormônio do estresse) e induz a mente ao estado de flow, promovendo presença e foco no momento atual.

Um estudo publicado no Journal of Neuropsychiatry & Clinical Neurosciences indicou que a prática de atividades manuais reduz as chances de perda de memória em idosos, prevenindo doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.

Já a pesquisadora e terapeuta Betsan Corkhill, autora de obras sobre os impactos do crochê, entrevistou mais de 3,5 mil tecelões e constatou que quem pratica a técnica mais de três vezes por semana relata níveis significativamente maiores de calma e felicidade.

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Expressão de afeto e reencontro com a calma

Essa busca por equilíbrio e afeto através das agulhas faz parte da rotina da psicóloga Dora Sampaio, de 55 anos. Assim como eu, ela encontrou no crochê uma ponte para as próprias memórias familiares.

Aprendi a fazer crochê com minha avó. Em meados de 2011, conheci a Novelaria para recomeçar a fazer tricô e crochê, e estou lá até hoje. Me apaixonei logo de cara pelo ambiente acolhedor”, conta Dora, que é aluna do curso em São Paulo.

Para a psicóloga, o fazer manual vai muito além de um passatempo. “É muito bom vermos uma peça pronta, produzida com nossas próprias mãos. O crochê é minha hora de satisfação. Então considero uma forma de terapia, pois conseguimos ter mais concentração naquilo que estamos fazendo. Durante as aulas, também interagimos com as pessoas, e isso aumenta ainda mais o poder terapêutico. Fiquei um ano sem praticar crochê e senti que faltava algo”, relata.

Aida Fonseca, psicóloga e proprietária da Novelaria — espaço especializado em artes manuais que atende mais de 200 alunos —, reforça o papel benéfico da técnica.

Praticar crochê, tricô ou bordado ajuda a aliviar o estresse devido aos movimentos repetitivos que exigem atenção plena. Quando produzimos algo com as próprias mãos, criamos uma forma de nos expressar, aumentando a criatividade e a autoestima”, explica Aida, ressaltando que muitos alunos chegam ao local por recomendação médica para o tratamento da ansiedade.

A revolução analógica da Geração Z e histórias que desmistificam o rótulo

Se antes o crochê era associado exclusivamente ao universo doméstico das gerações mais velhas, hoje ele conquista jovens que buscam descompressão digital. Dados do Google Trends apontam um salto de 40% nas buscas por “agulha de crochê” e “linha de crochê” em 2026. Nas redes sociais, a hashtag #KnitTok acumula bilhões de visualizações com vlogs de produção e peças autorais.

Na Novelaria, com unidades nos bairros de Moema e Vila Madalena, em São Paulo, o movimento dos mais jovens refletiu em um aumento de 15% na frequência de alunos entre 18 e 28 anos. O interesse une o desejo de desacelerar da rotina exaustiva em frente às telas com a busca por vestir peças autorais e sustentáveis em fibras nobres, como seda pura, linho e algodão egípcio.

Essa juventude chega pelo desejo legítimo de desacelerar da rotina acelerada das telas e pela busca por vestir peças autorais. A agulha virou uma ferramenta de presença. A tela gera ansiedade; a trama tátil devolve o foco e a calma”, destaca Aida Fonseca.

Crochê não é apenas uma atividade para pessoas mais velhas

Essa multiplicidade de perfis e idades é o tema central da série de vídeos lançada em 2025 pela Círculo em seu canal no YouTube e no Instagram. A campanha traz 12 depoimentos reais de artesãos de 19 a 88 anos compartilhando como o trabalho manual se conecta com bem-estar e identidade.

Um dos relatos mais marcantes é o da estagiária de marketing Sofia Vesco, de 19 anos. Filha e neta de artesãs, ela cresceu enxergando o crochê como algo pertencente apenas à rotina das figuras femininas da família. Ao longo do tempo, Sofia descobriu seu próprio espaço na técnica, transformando-a em ferramenta de expressão autoral.

O nosso desejo foi desmistificar o rótulo de que crochê é apenas uma atividade para pessoas mais velhas. Buscamos reunir perfis diversos que pudessem ilustrar essa multiplicidade. Temos homens e mulheres de 19 a 88 anos. Cada relato é único e carrega aquilo que os participantes têm de mais especial. O crochê atravessa gerações e transforma vidas, essa é a nossa mensagem principal”, revela Osni Oliveira Junior, CEO da Círculo.

Das agulhas ao mercado: consumo consciente, moda e empreendedorismo

Além do impacto direto na saúde mental, o crochê se consolida como um dos motores da economia criativa no país. O resgate do feito à mão conversa diretamente com movimentos globais como slow fashion e consumo consciente.

Peças que combinam alfaiataria moderna com detalhes em fios reciclados, algodão reaproveitado e fibras naturais ganham espaço no vestuário urbano e nas coleções de luxo, impulsionando um mercado que prioriza a sustentabilidade e o valor da produção em pequena escala.

Esse movimento ganha ainda mais força nos números. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que o artesanato movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano no Brasil, o que representa aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e envolve mais de 8,5 milhões de artesãos.

O setor evoluiu: hoje, os profissionais utilizam lojas virtuais, redes sociais e cursos digitais para vender receitas, produtos personalizados (como os populares amigurumis) e transformar o hobby em renda.

Destaque na Mega Artesanal 2026, realizada em julho, o crochê reafirma seu papel na qualidade de vida e na autonomia financeira. “Existe a valorização do feito à mão, da criatividade, da sustentabilidade e da geração de renda, mas também há uma busca por atividades que tragam bem-estar, conexão e propósito”, pontua Rita Mazzotti, diretora da WR São Paulo.

O crochê permite criar, desacelerar, desenvolver habilidades e, ao final, transformar esse processo em algo que pode ser usado, compartilhado ou se tornar um negócio.”

Agenda positiva: eventos e ações pelo Brasil

Para marcar a data, iniciativas presenciais também convidam o público a desacelerar e vivenciar a arte manual em comunidade:

  • Sessão Cine Crochê nos cinemas: A rede Cinesystem realiza uma edição especial do projeto Cine Crochê no sábado, 12 de setembro, às 11h, em 12 multiplex pelo Brasil (incluindo unidades no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba e Maceió). A sala terá iluminação adaptada a meia-luz para que o público possa tricotar ou crochetar enquanto assiste ao filme “Minha Melhor Amiga”. Durante a Semana do Cinema, os ingressos custam R$ 10, e os 15 primeiros espectadores em cada sala ganharão kits de fios.

  • Ações regionais e solidariedade: Na unidade do Bourbon Shopping São Paulo (SP), haverá encontro com a influenciadora Fran (@annyatelie10). No Cinesystem Caixa Casapark (DF), a ação terá presença de Sara da Casa Criativa (@saradacasacriativacroche) e arrecadação de doações para o projeto social Pedacinhos de Afeto. Em Curitiba (PR), o público poderá interagir com criadoras do Clube do Crochezinho (@clubedocrochezinho).

Seja pelo resgate das memórias afetuosas da infância ou como uma ferramenta contemporânea de autocuidado e saúde mental, entrelaçar fios continua sendo um dos caminhos mais humanos para equilibrar as emoções.

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