Celebrado nacionalmente em 15 de setembro, o Dia Nacional do Musicoterapeuta lança luz sobre uma prática clínica que vai muito além do simples entretenimento ou relaxamento. Instituída oficialmente em 1991 em São Paulo e posteriormente adotada em todo o país, a data homenageia os profissionais da área e conscientiza sobre a atuação da União Brasileira de Associações de Musicoterapia (UBAM).
Trata-se de uma disciplina fundamentada em rigor científico, avaliação técnica e planos terapêuticos individualizados, com aplicação em áreas como reabilitação neurológica, psiquiatria, geriatria e educação especial. No campo do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a musicoterapia tem se consolidado como uma importante aliada no acompanhamento multidisciplinar.
Com o aumento na prevalência dos diagnósticos — atualmente estimados em 1 em cada 31 crianças pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e afetando cerca de 2,4 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, a busca por intervenções eficazes para a regulação emocional e o desenvolvimento da linguagem tornou-se prioritária.
O impacto da música na neurobiologia e no cérebro emocional

A música ativa simultaneamente diversas regiões cerebrais ligadas à memória, atenção, emoção e linguagem. Em pessoas com TEA, essa experiência pode ser um canal direto para a construção de conexões neurais.
A música tem um acesso direto ao cérebro emocional. Ela organiza, regula e cria conexões que muitas vezes não conseguimos acessar apenas pela fala. Por isso, ela se torna uma ferramenta tão potente dentro de processos terapêuticos, especialmente no autismo”, explica o musicoterapeuta Gustavo Gattino, professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca.
Gattino aponta ainda que o envolvimento com a música aciona o sistema de recompensa do cérebro, promovendo engajamento natural: “A experiência musical pode gerar uma sensação de prazer muito intensa, semelhante a estímulos como comer algo que a pessoa gosta muito. Isso faz com que o engajamento seja maior e o processo terapêutico aconteça de forma mais natural”.
O fator rítmico exerce um papel estruturante na diminuição da ansiedade. “O ritmo organiza o cérebro. Ele traz previsibilidade, segurança e ajuda a reduzir a ansiedade — algo essencial para muitas pessoas no espectro”, acrescenta o especialista.
Comunicação, linguagem e interação social

Muitas crianças autistas demonstram uma resposta positiva a estímulos sonoros, mesmo quando encontram barreiras na comunicação verbal. A psicóloga clínica Sirlene Ferreira, especialista em autismo e pós-graduada em Psicanálise em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que a sonoridade favorece o vínculo e a atenção.
A música cria um ambiente previsível, organizado e acolhedor. O ritmo, a repetição e a melodia despertam interesse, favorecem a atenção compartilhada e podem estimular iniciativas de comunicação”, afirma Sirlene Ferreira, proprietária da Clínica Conecta ABA Incluir Brincando.
Durante o atendimento clínico, recursos como canções, jogos sonoros, instrumentos e atividades rítmicas são integrados sem a finalidade de ensino musical, mas como instrumentos terapêuticos. A abordagem beneficia tanto crianças verbais quanto não verbais.
A música não substitui outras intervenções, mas pode potencializar o trabalho terapêutico quando inserida em um plano de cuidado individualizado. O mais importante é compreender que cada criança possui seu próprio ritmo de desenvolvimento e diferentes formas de se comunicar”, enfatiza a psicóloga. Segundo Sirlene, a prática fortalece expressões não verbais, como gestos, contato visual e uso de comunicação alternativa.
A atuação integrada entre profissionais de Psicologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e Musicoterapia amplia as oportunidades de aprendizado e inclusão social da criança.
Estratégias práticas para a rotina familiar
Além da intervenção em consultório, elementos sonoros podem ser incorporados pelos pais e cuidadores no cotidiano familiar para estruturar a rotina diária:
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Sinalização de transições: utilizar canções específicas para indicar a transição entre atividades (como a hora das refeições, banho ou sono).
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Previsibilidade de ambiente: estabelecer padrões sonoros constantes para dar sensação de segurança.
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Organização emocional: empregar ritmos mais cadenciados e suaves para auxiliar a autorregulação nos momentos de agitação ou sobrecarga sensorial.
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Estímulo à interação: promover jogos cantados simples que incentivem a troca de olhares e a imitação de sons e gestos.
Com Assessorias
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