A adolescência e a infância são fases marcadas pelo desenvolvimento pleno, projetos de futuro e descobertas. No entanto, é também o período em que certos tipos de câncer surgem com maior frequência. Celebrado em 15 de setembro, o Dia Mundial de Conscientização sobre Linfomas integra as ações do Setembro Dourado, mês dedicado à conscientização do câncer infantojuvenil.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 7.560 novos casos de câncer por ano na população de zero a 19 anos no triênio 2026–2028, tendo os linfomas entre as neoplasias mais comuns, ao lado das leucemias e dos tumores do sistema nervoso central.

A ocorrência da doença varia conforme a faixa etária. Enquanto os linfomas não Hodgkin prevalecem no público infantil, o linfoma de Hodgkin ganha destaque entre adolescentes e adultos jovens de 15 a 34 anos.

Apesar do impacto do diagnóstico, a perspectiva é altamente positiva: o linfoma de Hodgkin possui até 90% de taxa de cura em casos recém-diagnosticados. No panorama geral do câncer infantojuvenil, a intervenção precoce em centros especializados resulta em até 80% de cura.

Sinais de alerta e a urgência do diagnóstico em tempo oportuno

Por se manifestarem de forma semelhante a infecções triviais da infância, os sintomas exigem atenção dos pais e profissionais de saúde. A persistência dos sinais é o principal critério para a busca por avaliação médica. Os principais alertas incluem:

  • Aumento persistente e indolor dos linfonodos (“ínguas”), sobretudo no pescoço, axilas e virilha.

  • Febre prolongada sem causa aparente e sudorese noturna intensa.

  • Perda de peso não explicada e fadiga.

  • Tosse persistente, falta de ar ou massa na região abdominal.

  • Coceira generalizada na pele (prurido).

Dados do Registro Brasileiro de Linfoma de Hodgkin indicam que o tempo mediano entre os primeiros sintomas e o diagnóstico é de seis meses. Reduzir esse intervalo é determinante: a sobrevida livre de progressão em três anos chega a 95% nos casos iniciais favoráveis, caindo para 66% na doença avançada.

A importância do “nome e sobrenome” da doença

Chegar ao diagnóstico de linfoma é apenas a primeira etapa. Os linfomas englobam um conjunto de neoplasias com comportamentos biológicos distintos, como o linfoma de Burkitt (de crescimento rápido e tratamento intensivo), o linfoma linfoblástico e o linfoma difuso de grandes células B.

Determinar o tipo e o subtipo exatos é essencial para desenhar a conduta terapêutica ideal. Pedro Henrique Pinto, médico patologista responsável técnico do Hospital da Criança de Brasília José Alencar e membro da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), ressalta que as estratégias podem ser completamente diferentes dependendo da doença.

O médico hematologista Guilherme Duffles, coordenador do Comitê de Linfomas da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), reforça que a diferenciação biológica guia a escolha do tratamento mais eficaz. Nesse cenário, a biópsia de tecido e as técnicas de imuno-histoquímica desempenham papel central.

A médica patologista Cristiane Bedran Milito,  professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Associação Estadual de Patologia do Rio de Janeiro (Aperj), explica que a análise microscópica identifica proteínas específicas nas células, permitindo “dar nome e sobrenome ao linfoma”. O mapeamento molecular também auxilia no direcionamento de terapias-alvo e imunoterapias.

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Cuidado integral, saúde mental e cardio-oncologia

Tratar um paciente jovem exige um olhar para além da eliminação do tumor. O diagnóstico durante a juventude interfere na rotina escolar, na sociabilidade e na construção da autonomia. Mariana Michalowski, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) e professora da UFRGS, aponta que o suporte psicológico, social e a manutenção do vínculo escolar são vitais para preservar a normalidade da criança e do adolescente.

Outro pilar essencial é a mitigação de efeitos colaterais a longo prazo. Áreas especializadas, como a cardio-oncologia pediátrica, atuam no acompanhamento profilático antes, durante e após o tratamento. Segundo Verônica Santos, cardio-oncologista pediátrica do A.C.Camargo Cancer Center, a proteção do músculo cardíaco em desenvolvimento garante a segurança de medicamentos quimioterápicos e radioterapias, preservando a saúde cardiovascular futura.

A preservação da fertilidade e os projetos de vida pós-cura também compõem a linha de cuidado. Viviane Sonaglio, líder do Centro de Referência em Tumores Pediátricos do A.C.Camargo, reforça que a atenção continuada da família aos sinais atípicos é a ponte principal para que os avanços da medicina atinjam seu potencial máximo: salvar vidas e garantir qualidade de vida após o câncer.

Com Assessorias

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