A pergunta já virou quase um clichê: a inteligência artificial vai pegar o meu trabalho? O site “IA Vai Pegar Meu Trabalho?” resolveu transformar essa inquietação em um levantamento sobre 130 profissões. Há ocupações em situação crítica, outras muito expostas e algumas nas quais o impacto ainda é considerado pequeno. O exercício é curioso porque nos obriga a olhar para aquilo que fazemos todos os dias e imaginar quanto desse trabalho continuará sendo realizado da mesma maneira nos próximos anos.
Os números reunidos pelo site mostram que 29,6% dos trabalhadores brasileiros estão em ocupações expostas à inteligência artificial generativa e 5,2 milhões estão no grau máximo de exposição. A Organização Internacional do Trabalho estima que um em cada quatro trabalhadores no mundo esteja em alguma ocupação exposta à tecnologia. Já o Fórum Econômico Mundial projeta o deslocamento de 92 milhões de postos de trabalho até 2030.
Esses números impressionam, mas não contam toda a história. Tenho a impressão de que ficamos esperando uma cena que provavelmente não acontecerá. Um belo dia chegaríamos ao trabalho e descobriríamos que uma máquina ocupou nosso lugar. Na prática, a mudança tem sido bem menos cinematográfica. Continuamos empregados, com o mesmo cargo no crachá, enquanto algumas das coisas que fazíamos começam a ser feitas de outra forma.
Percebi isso recentemente por causa de uma camiseta.
Eu tinha uma imagem e precisava fazer uma alteração que, até pouco tempo atrás, me levaria a procurar alguém que entendesse de Photoshop. Como não domino o programa, recorri à IA. Enviei a imagem, expliquei o que queria e consegui chegar ao resultado. Para mim, naquele momento, estava resolvido.
No dia seguinte fui a uma loja para estampar a imagem em uma camisa. O designer que me atendeu precisou fazer outro ajuste no arquivo antes da impressão. Fiquei observando o trabalho e percebi que ele também recorreu à inteligência artificial. Era praticamente o mesmo tipo de operação que eu havia solicitado à IA no dia anterior.
Achei aquela cena mais esclarecedora sobre o futuro do trabalho do que muitas previsões que tenho lido. Eu havia usado IA porque não sabia fazer algo no Photoshop. O designer continuava trabalhando naquilo que sabia fazer, mas já não precisava executar todas as etapas da maneira como fazia antes. A tecnologia havia chegado aos dois lados do balcão.
Isso ajuda a entender por que procurar apenas uma lista de profissões que desaparecerão pode nos levar ao lugar errado. O trabalho pode mudar profundamente sem que seu nome desapareça. O designer continuará sendo designer. O jornalista continuará sendo jornalista. O professor continuará entrando em sala como professor. Só que parte das tarefas que justificavam horas de trabalho já pode ser resolvida em minutos.
No caso daquele designer, havia ainda uma diferença importante. Eu sabia dizer o que queria. Ele sabia avaliar o arquivo, prepará-lo para impressão e entender o que precisava ser feito para que a estampa funcionasse na camiseta. A IA havia me permitido fazer uma operação que antes estava fora do meu alcance, mas isso não fez de mim um designer.
O levantamento do site mostra algo parecido quando apresenta o que a IA já consegue executar em cada profissão. Digitadores, transcritores, revisores de textos básicos e atendentes de primeiro nível estão entre as ocupações mais expostas. São trabalhos nos quais boa parte da rotina pode ser convertida em procedimentos que sistemas computacionais conseguem reproduzir.
No design, a situação é diferente. A IA já produz imagens, peças e variações de uma criação. Isso não significa que direção de arte, identidade visual e decisões sobre uma marca tenham perdido importância. A experiência da camiseta mostrou uma versão bem cotidiana dessa mudança. O profissional não desapareceu. Uma parte da operação que ele executava mudou.
O jornalismo também aparece no levantamento. Sistemas de IA conseguem resumir documentos, acompanhar assuntos, transcrever entrevistas e produzir textos factuais. Tudo isso ocupa uma quantidade considerável de tempo em uma redação. Apurar uma informação, conquistar a confiança de uma fonte, perceber que alguma coisa não fecha e responder pelo que foi publicado pertencem a outra dimensão da profissão.
Como professor, vejo a mesma questão chegando à educação. Hoje consigo pedir a um sistema que produza exercícios, organize um plano de aula, resuma um texto ou proponha uma atividade. Seria estranho concluir que, por causa disso, não precisaremos mais de professores. O que fica evidente é outra coisa: se a atividade docente estiver reduzida a transmitir conteúdos e preparar exercícios, uma parcela importante desse trabalho já encontrou concorrência.
Há alguns anos, dominar determinadas ferramentas ajudava a definir um profissional. Saber Photoshop diferenciava quem trabalhava com imagem. Saber editar um vídeo, montar uma apresentação sofisticada, manipular uma planilha ou escrever determinados tipos de texto representava uma competência que tinha valor próprio. A IA está mexendo justamente nessa relação entre domínio da ferramenta e domínio da profissão.
Isso também coloca um problema para a universidade. Ainda dedicamos muito tempo a ensinar procedimentos que durante décadas fizeram parte da formação profissional. Eles continuam importantes porque é preciso compreender como o trabalho é feito. O que já não parece suficiente é organizar uma formação inteira em torno da capacidade de executar esses procedimentos.
O estudante que está entrando hoje na universidade encontrará, ao se formar, ferramentas melhores do que aquelas que estamos usando agora. Algumas tarefas ensinadas durante o curso provavelmente estarão automatizadas antes mesmo da formatura. Não temos como atualizar um currículo na mesma velocidade em que esses sistemas mudam. Podemos, no entanto, formar alguém capaz de entender o próprio campo profissional e acompanhar suas transformações.
Também não acredito muito na ideia de que a solução seja simplesmente “aprender IA”. Em pouco tempo isso poderá significar tão pouco quanto dizer que alguém sabe usar a internet. A familiaridade com essas ferramentas será necessária, mas dificilmente bastará para distinguir um profissional.
Volto então àquela loja. Eu consegui alterar uma imagem usando inteligência artificial. O designer também usou inteligência artificial. Nós dois tivemos acesso à mesma tecnologia, mas não estávamos fazendo o mesmo trabalho. Ele tinha um conhecimento que permitia colocar aquela ferramenta dentro de um processo profissional. Eu só queria minha camiseta.
É nessa diferença que tenho pensado quando alguém pergunta quando a IA vai pegar o nosso trabalho. Talvez estejamos tão preocupados em descobrir quais profissões desaparecerão que não estamos prestando atenção suficiente ao que já está desaparecendo dentro delas. E isso já começou.




