A Rio Innovation Week 2026 reúne grandes nomes da ciência e do ativismo para debater o impacto da tecnologia na experiência humana e social esta semana no Píer Mauá, no Centro do Rio de Janeiro. Já no seu primeiro dia (4 de agosto), o evento trouxe dois debates centrais para o futuro da saúde: o funcionamento do cérebro humano e os impactos da tecnologia no nosso bem-estar.

De um lado, o neurocientista norueguês Edvard Moser, explicando como o cérebro se localiza no espaço. De outro, o físico e astrônomo brasileiro Ronaldo Lemos, alertando sobre a “ditadura dos algoritmos” e a perda de atenção. Prêmio Nobel de Medicina de 2014, Edvard Moser participou da conferência “Seu cérebro também tem um GPS, e ele explica por que você esquece”.

Moser mostra como a mente constrói mapas internos e o que isso revela sobre memória e doenças neurodegenerativas. Ele detalhou a descoberta das células de grade, um sistema interno de coordenadas próximo a hipocampo do cérebro que funcionam como um “GPS biológico”, calculando posição, distância e direção. Para o neurocientista, esse mecanismo vai além da orientação espacial.

O cérebro não registra as experiências como informações isoladas: ele as organiza a partir de referências como lugares, percursos e contextos. O sistema neural nos permite reconhecer lugares, calcular trajetos e recordar caminhos. Mais do que orientar deslocamentos, esse sistema está relacionado à forma como o cérebro organiza, armazena e recupera experiências”, explicou.

O diagnóstico precoce do Alzheimer

Essa descoberta tem impacto direto na saúde. Segundo Moser, as estruturas responsáveis pela orientação espacial são as primeiras a serem afetadas pelo Alzheimer. Por isso, a pesquisa abre caminho para testes de diagnóstico precoce da doença, ainda nas fases iniciais, quando as perdas de memória começam a aparecer. Segundo ele, as estruturas de orientação espacial são as primeiras afetadas pela doença.

Ainda não há cura, mas a degeneração pode ocorrer ao longo de anos. Por isso, o diagnóstico precoce da doença é fundamental”.

O neurocientista também trouxe uma reflexão sobre tecnologia. humanidade e a percepção do tempo: ” “Nosso sentido espacial opera em uma escala de milissegundos… O tempo pode passar muito mais rápido quando algo interessante acontece. Eu acho que as máquinas vão entender que são os humanos que tornam o mundo interessante.”

O universo gerou inteligência e essa inteligência consegue contar a história do universo. Nós somos a maneira como o universo conta sua própria história. Somos a única forma de vida que conta histórias. Se tem uma coisa que define a espécie humana é que nós contamos histórias”. disse Moser.

Saúde mental digital: 9h13 por dia na tela

Na Plenária da RIW, quem abriu os debates foi o advogado e professor Ronaldo Lemos, um dos idealizadores do Marco Civil da Internet. Em bate-papo com a psicóloga Ione Szkurnik, mestre em tecnologia e educação por Stanford e CEO da Education Journey, Lemos trouxe mais dados e reflexões sobre saúde mental digital.

O dado que mais chamou atenção: o brasileiro passa 9h13 por dia na frente da tela do celular. É bem mais que a média mundial, de 6h50. Só perdemos para a África do Sul, com 9h38. Para Lemos, a IA está sendo usada de forma “egótica”, com pessoas tratando máquinas como “terapeuta, amigo ou namorado” em um momento em que estamos “exaustos e sem conseguir dar conta”

O algoritmo quer que você fique 9h por dia no celular, porque a sua atenção é vendida para marcas e anúncios. E a atenção é a coisa mais preciosa que nós temos para dar ao outro”, alertou.

Do link ao feed: a perda de autonomia

Ele lançou o livro “O monge, o iogue e o faquir: corpo, coração e mente no tempo das máquinas”. A proposta do livro é uma chamada para retomar o controle da vida diante do excesso de telas e da “ditadura dos feeds e algoritmos”. Segundo o autor, o foco mudou.

Antigamente, a tecnologia era associada a esperanças. A grande novidade era o link, e quem decidia quem entrava no link éramos nós. Hoje, trabalhamos com o feed, e o que aparece nele não é uma decisão nossa”, detalhou.

A simbologia da carruagem: corpo, mente e coração

Para explicar a relação humana com a tecnologia, Lemos buscou na Índia a metáfora da carruagem. O carro é o corpo físico, representado pelo faquir. Os cavalos são as emoções, o monge. O cocheiro e as rédeas são a mente, o iogue. Para ele, o “mestre da carruagem” precisa assumir as rédeas para não perder o equilíbrio no meio digital.

 Eu uso a imagem da carruagem para que a gente entenda o que está acontecendo nas nossas vidas. A proposta do livro é trazer o mestre da carruagem de volta. Ou seja, trazer cada um de nós de volta, para que tenhamos o controle sobre nossas vidas”, disse.

Crises de pânico como inspiração para o livro

Lemos contou que escreveu o livro após passar por crises de pânico. Por 17 anos ele foi um “iogue acelerado” que só desenvolvia a mente e negligenciava corpo e coração. Levou 6 anos para se recuperar.”

Nesse livro, Ronaldo traz muitas referências culturais e uma construção muito sólida sobre o que é o corpo, a mente e o coração, explicando como resgatar a nossa atenção”, resumiu a mediadora Ione Szkurnik.

O autor também criticou o uso da Inteligência Artificial de forma “egótica”. “Hoje se usa a IA para conversar como se fosse um terapeuta, um amigo ou um namorado”, concluiu, em um momento em que, segundo ele, estamos “exaustos e sem conseguir dar conta” das demandas.

Por que isso importa

Os dois painéis mostram lados complementares da saúde no século 21. Enquanto a ciência avança para entender o cérebro e combater doenças como o Alzheimer, a tecnologia avança para capturar nossa atenção 24h por dia.  O alerta dos especialistas na RIW 2026 é claro: cuidar da saúde também é cuidar do tempo, da memória e da conexão humana fora das telas.

A conferência integra a programação do Rio Innovation Week 2026, que acontece de 4 a 7 de agosto no Píer Mauá com o tema “Simbiose – o futuro não acontece isolado”. O conceito de simbiose permeia toda a programação do Rio Innovation Week, um dos maiores eventos globais de inovação, tecnologia e negócios, e parte da ideia de que a inovação produz maior impacto quando conecta tecnologia, pessoas, propósitos e diferentes perspectivas.

Glossário conceitual: 10 termos dos tempos atuais

A curadoria do evento preparou um Glossário Conceitual, material que reúne alguns dos principais conceitos presentes na programação e ajuda a compreender não só as ideias que estarão em debate ao longo dos quatro dias de evento, mas que já estão causando impacto na vida de todos.  Cada verbete traz uma definição sobre temas que estão sendo aprofundados na programação.  

Inteligência Algorítmica

O ecossistema de dados e automação capaz de processar e replicar conhecimento em escala. No debate moderno, a Inteligência Algorítmica representa a commodity máxima: quando as respostas técnicas passam a estar disponíveis para todos ao mesmo tempo, a execução perde valor para a intenção. Em debate com: David Eagleman, Chris Rynning, Neil Redding, Tatiana Pilnik e Ben-Hur Correia.

Erro Criativo (ou Fricção Humana)

O desvio do padrão que gera o inesperado. Enquanto os modelos de IA buscam a otimização perfeita e a previsibilidade, a inovação disruptiva humana nasce justamente da colisão de repertórios improváveis e do acidente estético. Em debate com: Beatriz Milhazes, Vik Muniz e Eduardo Lima (MinaLima). 

Reprodutibilidade Digital

A capacidade técnica de clonar, simular ou espelhar perfeitamente qualquer produto, imagem ou discurso na rede. É o cenário macro que provoca a atual crise de originalidade e que inflaciona o valor econômico da autenticidade e do design de vanguarda. Em debate com: Vik Muniz, Beatriz Milhazes e Douglas Rushkoff.

Economia da Autenticidade

O movimento de mercado que desloca o valor financeiro do objeto em si para a origem e a autoria. Em um ecossistema de réplicas infinitas, o público e as marcas passam a pagar um prêmio de valor pelo que possui história, bagagem cultural e rastro humano. Em debate com: Ana Couto, Eduardo Lima (MinaLima) e Regina Casé.

FOMO (Fear of Missing Out)

Conceito cunhado por Patrick McGinnis que descreve a ansiedade social de ficar de fora do fluxo. Transposto para o ambiente de negócios, traduz-se no pânico corporativo de perder a próxima onda tecnológica, o que frequentemente gera decisões reativas, investimentos cegos e perda de foco estratégico. Em debate com: Patrick McGinnis e Julian Pistone.

Liderança Adaptativa

O modelo de governança ideal para navegar na névoa. Substitui o antigo modelo de comando e controle pela habilidade de gerenciar a própria ignorância diante do inédito, coordenando estruturas através da agilidade cultural e da tomada de decisão sob pressão crônica. Em debate com: Carol Romano, Julian Pistone e Patrick McGinnis.

Resiliência Estratégica

A capacidade de uma organização ou indivíduo de absorver impactos, recalcular rotas e se reinventar antes mesmo que a crise aconteça. É a evolução do planejamento de longo prazo para uma postura de prontidão contínua. Em debate com: Edvard Moser, Ana Couto e Carol Romano.

Transdisciplinaridade

O colapso definitivo das divisões acadêmicas e profissionais rígidas. É a urgência de cruzar áreas aparentemente distantes como a astrofísica, a ancestralidade indígena, a filosofia e a economia digital para decifrar problemas complexos que nenhuma gaveta isolada do conhecimento consegue responder. Em debate com: Marcelo Gleiser, Ailton Krenak, Nilton Bonder, Miriam Goldenberg e Douglas Rushkoff.

Humanidades como Estratégia

O entendimento de que disciplinas como a ética, a filosofia e a antropologia deixaram de ser discussões teóricas para se tornarem ferramentas práticas de negócios. São elas que calibram os limites da tecnologia e orientam o desenvolvimento de produtos voltados para dinâmicas sociais reais. Em debate com: Tatiana Pilnik, Nilton Bonder e Marcelo Gleiser.

Zeitgeist Fragmentado

A evolução do conceito de espírito do tempo. Em vez de uma única onda cultural homogênea, o zeitgeist atual é marcado por microfrequências simultâneas e bolhas algorítmicas. Decifrá-lo hoje não significa seguir a tendência mais rápida da semana, mas sim mapear a exaustão humana diante do excesso de informação e o desejo profundo pelo atemporal. Em debate com: Camila Fremder, Miriam Goldenberg, Regina Casé e Ailton Krenak.

Mais sobre o evento

Consolidado como um dos maiores eventos globais de tecnologia e inovação, o Rio Innovation Week recebeu em 2025 mais de 205 mil participantes, sendo mais de 3 mil palestrantes, distribuídos em 60 conferências e 40 palcos.

A RIW 2026  reúne 16 trilhas e 40 palcos dedicados à Inteligência Artificial, ESG 2.0, inovação social, geopolítica, robótica, educação, saúde, energia, open innovation, indústria criativa, esporte, marcas, futuro do trabalho, cibersegurança e soft power brasileiro.

Líderes, especialistas, empreendedores e representantes de diversos setores se encontram em uma programação imersiva que promove conexões, geração de negócios, experiências e debates sobre inovação, tecnologia, sustentabilidade, diversidade e impacto social.

A RIW 2026 segue até sexta-feira (7), no Píer Mauá, no Centro do Rio de Janeiro. A expectativa é receber mais de 200 mil pessoas até sexta-feira (7). A sexta edição reúne, ainda, 2 mil startups, centenas de expositores e 60 conferências, com estimativa de geração de aproximadamente 22 mil empregos diretos e indiretos.

Com informações da Assessoria da RIW 2026

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