Os brasileiros estão vivendo mais, mas isso não significa que estejam envelhecendo com saúde. Enquanto a expectativa de vida ao nascer alcançou 76,6 anos, o maior índice da série histórica do IBGE, a população com 60 anos ou mais deverá representar 37,8% dos brasileiros até 2070. O avanço da longevidade ocorre ao mesmo tempo em que crescem as doenças crônicas e os desafios para preservar a autonomia durante o envelhecimento.

O aumento da expectativa de vida da população brasileira já começa a transformar a agenda da saúde pública. Dados do Ministério da Saúde mostram que as doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, câncer, diabetes e doenças respiratórias, permanecem entre as principais causas de morte no país e respondem pela maior parte da demanda assistencial do Sistema Único de Saúde (SUS).

Esse cenário já preocupa organismos internacionais. O Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúdeda Organização Mundial da Saúde (OMS), destaca que o envelhecimento saudável depende principalmente da manutenção da capacidade funcional, conceito que reúne mobilidade, cognição, autonomia e bem-estar, e não apenas da ausência de doenças. A própria OMS define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, entendimento que reforça a necessidade de ampliar a prevenção para além do tratamento de enfermidades.

Aliás, nunca se falou tanto sobre saúde, mas os desafios para viver mais e melhor continuam crescendo. O aumento da obesidade, do diabetes, das doenças cardiovasculares e dos problemas relacionados ao envelhecimento mostra que, apesar dos avanços da medicina, a prevenção ainda é a estratégia mais eficiente para preservar a qualidade de vida.

Por isso, no Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, especialistas defendem que o foco da prevenção precisa deixar de ser apenas o tratamento das doenças e passar a priorizar a manutenção da saúde ao longo da vida. Afinal, cuidar da saúde vai muito além de tratar doenças. O conceito atual envolve alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, sono de qualidade, manejo do estresse, equilíbrio emocional e acompanhamento preventivo ao longo da vida.

Conviver com doenças crônicas não significa envelhecer sem saúde

SBGG explica por que autonomia e independência são os principais indicadores do envelhecimento saudável

Hipertensão, diabetes e artrose estão entre as doenças crônicas mais frequentes na população idosa. Ainda assim, conviver com esses diagnósticos não significa, necessariamente, envelhecer sem saúde. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) chama atenção para uma mudança importante na forma de compreender o envelhecimento: hoje, mais importante do que as doenças que uma pessoa possui é sua capacidade de manter autonomia, independência e qualidade de vida.

A maioria das pessoas idosas convive com uma ou mais doenças crônicas e isso, por si só, não significa incapacidade ou perda de qualidade de vida. Atualmente, sabemos que é perfeitamente possível envelhecer com saúde mesmo convivendo com doenças, desde que essas condições sejam bem acompanhadas e não comprometam, de forma importante, a autonomia e a independência”, explica Isabela Oliveira Azevedo Trindade, fisioterapeuta, especialista em Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG.

O que realmente define um envelhecimento saudável

A idade cronológica explica apenas uma parte do processo de envelhecimento. Hábitos de vida, vínculos sociais, escolaridade, acesso aos serviços de saúde e condições socioeconômicas influenciam diretamente a forma como cada indivíduo envelhece.

Duas pessoas podem ter exatamente os mesmos diagnósticos e apresentar níveis completamente diferentes de saúde. Enquanto uma continua independente, ativa e socialmente participativa, a outra pode apresentar limitações importantes. Isso acontece porque a saúde da pessoa idosa é determinada, principalmente, pela sua capacidade funcional, ou seja, pela habilidade de fazer aquilo que valoriza no cotidiano”, afirma.

Na prática, esse conceito considera não apenas as doenças existentes, mas também aspectos como mobilidade, cognição, saúde mental, força muscular, visão, audição e o ambiente em que a pessoa vive. “Quando preservamos as condições físicas e cognitivas ao longo da vida e oferecemos ambientes favoráveis, aumentamos as chances de manter autonomia e independência, mesmo diante de doenças crônicas”, acrescenta.

Para Isabela, outro equívoco comum é acreditar que perder autonomia faz parte, inevitavelmente, do envelhecimento. “Embora algumas mudanças sejam naturais, muitas limitações podem ser prevenidas, retardadas ou tratadas quando identificadas precocemente. Mais importante do que perguntar quais doenças uma pessoa tem é perguntar se ela consegue viver da maneira como deseja.”

Para  Alexandre Duarte, médico, professor, pesquisador, referência em fisiologia metabólica e hormonal e fundador do Instituto Avantgarde, esse cenário exige uma mudança de mentalidade tanto entre profissionais quanto entre a população.

Esperar o aparecimento da hipertensão, do diabetes ou das primeiras limitações para mudar hábitos significa perder uma parte importante da oportunidade de prevenção. O envelhecimento saudável não começa aos 60 anos. Ele é resultado das escolhas feitas diariamente ao longo da vida”, explica Alexandre.

Para o especialista,  a medicina vive uma mudança importante de perspectiva. Segundo ele, prolongar a vida é uma conquista, mas preservar a capacidade física, cognitiva e metabólica será um dos principais desafios da saúde nas próximas décadas.

O objetivo não deve ser apenas aumentar a quantidade de anos vividos, mas garantir que esses anos sejam acompanhados de independência, disposição e qualidade de vida. Muitas doenças que aparecem depois dos 60 anos começam a se desenvolver silenciosamente décadas antes”, afirma o médico.

saúde metabólica começa a ser construída antes dos primeiros sintomas

Na avaliação do doutor Alexandre, um dos maiores equívocos é associar prevenção apenas à realização de exames ou ao início de tratamentos após o diagnóstico de alguma doença. Para ele, a deterioração metabólica costuma ocorrer de forma lenta, impulsionada por hábitos repetidos durante muitos anos.

A perda de massa muscular, a resistência à insulina, o excesso de gordura visceral e o processo inflamatório não surgem de uma hora para outra. São alterações que podem permanecer silenciosas durante décadas. Quando aparecem limitações físicas ou doenças crônicas, recuperar plenamente a capacidade funcional se torna muito mais difícil”, afirma Alexandre.

Muito além das consultas médicas

Preservar a capacidade funcional depende, além das consultas e tratamentos, da prática regular de atividade física, de uma alimentação equilibrada, sono de qualidade, vacinação, cuidados com a saúde bucal, visão e audição, prevenção de quedas e revisão periódica dos medicamentos.  Isabela Oliveira Azevedo Trindade, fisioterapeuta da SBGG, faz um alerta importante.

A prática regular de atividade física talvez seja a intervenção isolada com maior impacto para preservar força, equilíbrio, mobilidade, cognição e saúde mental. Mas outros fatores, frequentemente negligenciados, também fazem uma enorme diferença, como relações afetivas, participação comunitária, atividades culturais e propósito de vida, componentes essenciais do envelhecimento saudável”, destaca .

Segundo ela, mesmo pessoas que já apresentam doenças crônicas ou alguma limitação funcional, podem melhorar sua capacidade, recuperar parte da autonomia e ganhar qualidade de vida quando recebem intervenções adequadas.

O grande objetivo da Geriatria e da Gerontologia não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas ampliá-la com saúde. Isso significa viver mais anos com autonomia, independência, participação social e dignidade. Envelhecer com saúde não é envelhecer sem doenças. É preservar a capacidade“.

Hábitos saudáveis são determinantes para a longevidade

Para Letícia Philippi, farmacêutica e especialista em ozonioterapia,  o maior desafio da saúde moderna é fazer com que as pessoas adotem hábitos saudáveis antes do aparecimento das doenças.

Grande parte das enfermidades que mais impactam a população hoje está relacionada ao estilo de vida. Pequenas mudanças de hábito, quando incorporadas à rotina, têm potencial para reduzir significativamente o risco de doenças crônicas, preservar a autonomia durante o envelhecimento e melhorar a qualidade de vida”.

Segundo a especialista, dormir bem, manter uma alimentação rica em alimentos naturais, praticar atividade física regularmente, controlar o estresse, evitar o tabagismo, reduzir o consumo de álcool e realizar exames periódicos são medidas que produzem benefícios em praticamente todos os sistemas do organismo.

Não existe tecnologia capaz de substituir um estilo de vida saudável. A prevenção continua sendo o investimento mais importante que uma pessoa pode fazer para a própria saúde“, destaca.

Mais anos de vida exigem uma nova forma de prevenir

No Dia Nacional da Saúde, a discussão sobre longevidade ganha um significado que vai além do aumento da expectativa de vida. Em um país que envelhece rapidamente, preservar a autonomia, a capacidade funcional e a qualidade de vida tende a se tornar um dos principais indicadores de sucesso das políticas de prevenção e promoção da saúde.

O maior patrimônio que uma pessoa pode construir ao longo da vida é a capacidade de continuar independente. Envelhecer com saúde não acontece por acaso. É resultado das escolhas feitas diariamente muito antes da velhice chegar”, conclui Alexandre Duarte.

Para Letícia Philippi, a principal mensagem do Dia Nacional da Saúde é que prevenção e inovação caminham juntas. “Estamos vivendo mais. Agora precisamos viver melhor. Isso passa por prevenção, educação em saúde, acesso à informação de qualidade e incorporação responsável das inovações que realmente trazem benefícios para os pacientes.

Hábitos simples que impactam na longevidade

Na prática, o médico explica que preservar a saúde não exige medidas complexas, mas constância. Segundo ele, algumas atitudes acessíveis podem fazer diferença ao longo dos anos, como:

  • dar preferência a alimentos naturais e reduzir o consumo de produtos ultraprocessados,
  • manter uma rotina de exercícios que inclua caminhadas e fortalecimento muscular,
  • dormir entre sete e nove horas por noite,
  • controlar o estresse, evitar o cigarro e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas,
  • realizar consultas e exames preventivos regularmente e
  • manter a mente ativa por meio da leitura, do aprendizado contínuo e da convivência social.

São hábitos simples, mas que influenciam diretamente a saúde metabólica e aumentam as chances de chegar ao envelhecimento com autonomia.

Com Assessorias

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *