No Brasil, o incentivo ao aleitamento materno é amplamente promovido e reconhecido pelas políticas de saúde pública. Contudo, no centro dessa discussão, existe uma realidade que exige acolhimento e visibilidade: a das mães que, por recomendação médica, não podem amamentar os seus bebês. E essa escolha forçada pela saúde do filho não as faz menos mães.

Durante o Agosto Dourado — mês dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno —, o Projeto Criança A.M.A.R. – PCA.m.a.r (anteriormente conhecido como Projeto Criança Aids) convida a sociedade a ampliar o olhar sobre a maternidade e incluir as histórias silenciosas de mulheres que fizeram tudo ao seu alcance para garantir o nascimento e crescimento saudável de suas crianças.

Há quase 35 anos acolhendo famílias afetadas pela transmissão vertical do HIV em São Paulo, a instituição reforça que mulheres vivendo com o vírus não devem amamentar, mesmo quando apresentam carga viral indetectável no tratamento com antirretrovirais.

O cuidado que protege: a não amamentação como ato de amor

A orientação de evitar o aleitamento materno faz parte do protocolo oficial de prevenção da transmissão vertical do HIV, ao lado da adesão rigorosa ao Tratamento Antirretroviral (TARV) e da escolha da via de parto adequada. Quando seguidas corretamente desde o pré-natal, essas medidas reduzem o risco de infecção do bebê para menos de 1%.

Durante esse processo, as mães diagnosticadas recebem acompanhamento infectológico e medicação específica para inibir a lactação, evitando complicações como o ingurgitamento mamário e a mastite. Paralelamente, o recém-nascido recebe a fórmula láctea infantil fornecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo a nutrição adequada, além do xarope antirretroviral profilático.

Apesar de toda a responsabilidade e dedicação demonstradas ao longo da gestação, muitas dessas mulheres ainda enfrentam olhares de julgamento, perguntas invasivas e o estigma social. Para a presidente do PCA.m.a.r, Adriana Galvão Ferrazini, o Agosto Dourado é o momento de combater o preconceito e ressignificar esse gesto:

“Essas mães fazem o pré-natal, tomam corretamente os antirretrovirais e seguem todas as orientações para garantir que o bebê nasça saudável. Por amor, abrem mão da amamentação. Isso também é cuidado, isso também é maternidade. Para as mães que vivem com o HIV, não amamentar é uma prova de amor e de direito à vida, garantindo que o seu bebê continue saudável e livre do vírus.”

Leia mais

Projeto retira ‘Aids’ do nome e prioriza testagem pós-parto
Amamentar também faz bem para o coração da mãe
O que você deve comer enquanto está amamentando?
Amamentar também faz bem para o coração da mãe

A infecção no pós-parto e a janela de risco na amamentação

A prevenção da transmissão vertical não se encerra com o nascimento. Uma das principais preocupações sanitárias atuais é a infecção pelo HIV ocorrida durante a fase de amamentação, quando a mãe testa negativo no pré-natal, mas adquire o vírus posteriormente e mantém o aleitamento sem saber do diagnóstico.

Por ser um ato contínuo — que pode se estender dos seis meses aos dois anos de idade do bebê —, a amamentação não monitorada torna-se uma via significativa de infecção. A cada episódio de aleitamento por uma mãe infectada não tratada, o risco de transmissão do vírus ao bebê pode variar de 15% a 40%.

Quando a descoberta é tardia, as consequências para a saúde da criança podem ser graves, levando a internações e complicações sérias provocadas pela Aids em estágio avançado, tais como:

  • Bronquiolite grave e pneumocistose;

  • Anemias e pancitopenia (queda acentuada de células sanguíneas);

  • Sepse por Candida e Staphylococcus;

  • Distúrbios metabólicos e complicações neurológicas.

Para prevenir esse cenário, especialistas enfatizam a necessidade de realizar a testagem frequente para o HIV durante todo o período pós-parto e de amamentação. O uso de preservativos (masculinos ou femininos) nas relações sexuais e o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP) são indicados e seguros para lactantes com vida sexual ativa.

A responsabilidade compartilhada e o papel dos parceiros

A conscientização precisa alcançar também os parceiros sexuais. O PCA.m.a.r ressalta que muitos homens, fixos ou ocasionais, carecem de informações sobre o risco de transmissão do HIV no ambiente doméstico e durante o período de puerpério.

Incentivar a testagem regular, o uso de preservativos e o conhecimento sobre a PrEP entre os homens é fundamental para interromper a cadeia de infecção e proteger a saúde da mulher e do recém-nascido.

Recorte racial: 67,7% das gestantes com diagnóstico de HIV são mulheres negras

A análise dos dados oficiais revela que a vulnerabilidade à transmissão vertical tem recorte racial e social estrutural. Segundo o Boletim Epidemiológico Saúde da População Negra:

  • Gestantes: Entre 2011 e 2021, a proporção de casos de HIV detectados em gestantes negras (pretas e pardas) no Brasil subiu de 62,4% para 67,7%. A maioria dessas notificações (69,6%) concentrou-se em jovens de 15 a 29 anos.

  • Crianças: Em 2021, mais de 70% das notificações de Aids em crianças menores de 14 anos ocorreram em crianças negras (64,9% pardas e 6,3% pretas).

  • Diagnóstico na infância: Apesar da queda de 35,4% na taxa de detecção de HIV em crianças menores de 5 anos entre 2019 e 2021 (passando de 1,8 para 1,2 casos por 100 mil crianças), as falhas no diagnóstico precoce ainda deixam sequelas irreversíveis em muitos menores.

No Brasil, a notificação de gestantes e puérperas com HIV é obrigatória desde o ano 2000. O protocolo de saúde determina que os testes para HIV, sífilis e hepatites devam ser realizados no 1º e no 3º trimestres da gestação, obrigatoriamente no momento do parto e em casos de exposição de risco ou violência sexual.

Diagnóstico contínuo para a segurança da família

Embora as metas globais busquem a erradicação da epidemia de Aids até o final desta década, o acesso desigual ao diagnóstico e ao tratamento mantém taxas elevadas de infecção. Em 2023, dados mundiais apontaram que quase 25% das pessoas vivendo com HIV não recebiam medicação antirretroviral, e as crianças representavam 12% das mortes por Aids no mundo.

Manter a disciplina na tomada diária dos antirretrovirais garante a carga viral indetectável na pessoa infectada, o que equivale à intransmissibilidade por via sexual e assegura a qualidade de vida.

O “Agosto Dourado” reforça que a conscientização sobre o aleitamento deve incluir a orientação correta sobre quando a amamentação precisa ser substituída por alternativas seguras. A busca por assistência médica qualificada, a testagem contínua no pós-parto e a prevenção combinada são as ferramentas mais eficazes para proteger a vida e a saúde dos bebês.

Com informações do Criança A.M.A.R. – PCA.m.a.r

 

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *