Durante anos, falar em sarampo nos Estados Unidos parecia remeter a uma doença que havia ficado no passado. O país declarou a eliminação da transmissão contínua do vírus em 2000, depois de décadas de vacinação. Mais de 25 anos depois, porém, o cenário mudou. Novos surtos e o aumento expressivo de casos voltaram a colocar a doença no radar das autoridades de saúde. Os casos da doença ultrapassaram a marca de 5 mil registros em um único ano — um patamar que não era alcançado desde 1991.

Segundo dados atualizados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), em 2026, foram registrados 3.659 casos confirmados de sarampo no país, distribuídos por 47 jurisdições. Do total, 95% dos casos estavam associados a surtos.

O avanço de um surto de sarampo em Nova York levou o estado norte-americano a decretar situação de emergência por desastre, ampliando a mobilização das autoridades de saúde para conter a doença. Até o dia 3 de outubro, Nova York havia registrado 108 casos de sarampo em 2026, sete na cidade e 101 em outras regiões do Estado.

A situação crítica nos Estados Unidos

O surto norte-americano espalhou-se por dezenas de estados, impulsionado principalmente pela queda nas coberturas vacinais e pela hesitação em relação às vacinas.

  • Perfil dos afetados: Mais de 90% a 96% das pessoas infectadas não tinham histórico de vacinação ou possuíam situação vacinal desconhecida.

  • Faixa etária: A maior concentração de casos tem ocorrido entre crianças e jovens de até 19 anos, com destaque para a faixa de 5 a 19 anos.

  • Impacto: O avanço expressivo gerou milhares de hospitalizações e óbitos no país, fazendo com que autoridades locais decretassem medidas de emergência sanitária em regiões severamente afetadas.

O cenário epidemiológico do sarampo nas Américas tem acendido alertas em autoridades de saúde pública. Além dos Estados Unidos, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) aponta que países como Canadá, México, Guatemala e Peru também concentram a esmagadora maioria das notificações na região das Américas.

Aumento de casos x baixa cobertura vacinal

 

O avanço do sarampo nos Estados Unidos reacende o alerta internacional para uma doença altamente transmissível e que pode voltar a circular com força quando há queda na cobertura vacinal. A relação entre baixa cobertura vacinal e a reintrodução da doença também aparece em pesquisas recentes.

Um estudo publicado em 2026 no New England Journal of Medicine analisou o surto ocorrido na Carolina do Sul entre 2025 e 2026. Dos 997 casos registrados no estado, 95,3% ocorreram entre pessoas não vacinadas. Os dados científicos reforçam que a consequência da redução da vacinação não se limita ao aumento do número de casos.

Globalmente, a Organização Mundial da Saúde estima que o sarampo tenha provocado cerca de 95 mil mortes em 2024, principalmente entre crianças menores de cinco anos não vacinadas ou com vacinação incompleta. A OMS estima ainda que a vacinação contra o sarampo tenha evitado aproximadamente 59 milhões de mortes entre 2000 e 2024.

Em agosto deste ano, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) emitiu um pedido aos países das Américas para reforçar e ampliar a vacinação. O retorno do sarampo em países que anteriormente haviam controlado a circulação do vírus reforça a importância da vacinação como principal ferramenta de proteção.

A manutenção da vacinação, aliada à vigilância epidemiológica e à rápida identificação de casos importados, é considerada fundamental para evitar o restabelecimento da transmissão sustentada do vírus no país.

A recomendação internacional é que a cobertura vacinal contra o sarampo permaneça em torno de 95% com as duas doses, justamente porque a elevada transmissibilidade do vírus permite que bolsões de pessoas não imunizadas favoreçam a ocorrência de surtos.

O alerta americano também interessa ao Brasil

Em meio ao avanço do surto internacional, o Ministério da Saúde brasileiro intensificou as medidas de monitoramento, busca ativa e imunização para assegurar que o país mantenha o status de livre da circulação endêmica do vírus. No Brasil, o estado de São Paulo amplia o acesso gratuito à vacinação para frear a possibilidade de surtos, protegendo crianças e adultos.

A principal ferramenta de proteção continua sendo a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola), oferecida de forma totalmente gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O imunizante é recomendado para pessoas de 12 meses a 59 anos de idade, conforme as diretrizes do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

No entanto, dados divulgados pelo Instituto Butantan em junho de 2026 mostram uma recuperação gradual das coberturas vacinais brasileiras nos últimos anos. Em 2024, a primeira dose da tríplice viral atingiu 95,85% de cobertura. Já a segunda dose, entretanto, permanecia abaixo do patamar considerado necessário para proteção coletiva: até abril de 2026, a cobertura registrada era de 72,54%.

Resposta do Brasil: Vigilância intensificada e foco na imunização

Embora o Brasil permaneça com o certificado de eliminação da circulação endêmica do sarampo (reconquistado em 2024), a proximidade geográfica e o fluxo internacional de viagens mantêm o risco de importação do vírus. Os casos confirmados no território nacional referem-se estritamente a ocorrências importadas ou a contatos diretos com viajantes infectados.

Para blindar a população, o governo federal, em conjunto com estados e municípios, colocou em prática uma série de estratégias preventivas:

  1. Busca Ativa (Dias S): Campanhas nacionais de mobilização mobilizam profissionais de saúde para vasculhar escolas, creches, unidades de atendimento e comunidades à procura de sintomas suspeitos de sarampo e rubéola, garantindo o diagnóstico precoce.

  2. Ações em Áreas de Fronteira: O Ministério da Saúde tem atuado de forma integrada com países vizinhos, como Colômbia e Peru, por meio de dias de mobilização e bloqueios vacinais em regiões de intenso trânsito internacional.

  3. Bloqueio e Monitoramento: Diante da confirmação de casos isolados em estados como São Paulo, Amazonas, Rio de Janeiro e Acre, as secretarias de saúde realizam o rastreamento rigoroso de contatos e a vacinação de bloqueio em locais de grande circulação.

O Ministério da Saúde reforça que qualquer cidadão com doses em atraso deve procurar imediatamente a unidade básica de saúde mais próxima para atualizar a caderneta de vacinação. Manter altas coberturas vacinais é a única forma sustentável de impedir que o vírus volte a encontrar terreno fértil para circular no país

Com informações do Ministério da Saúde e da Agência Brasil

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