O tratamento do câncer de próstata localizado de alto risco ou localmente avançado acaba de ganhar novas e robustas evidências científicas que prometem redesenhar as condutas médicas. Durante a sessão plenária da reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO 2026), em Chicago, nos Estados Unidos, foram apresentados resultados de um estudo clínico que prometem revolucionar o tratamento da doença, evitando a metástase e a a morte.

Dados inéditos de fase 3 Proteus demonstraram que a associação do medicamento apalutamida à terapia de privação androgênica (ADT) — realizada antes e depois da cirurgia de remoção da próstata (prostatectomia radical) — reduziu em 20% o risco de metástase à distância ou morte. O ensaio internacional de grande porte, publicado simultaneamente no conceituado periódico The New England Journal of Medicine, incluiu 2.109 pacientes acompanhados em 184 centros de 18 países.

A oncologista Mary-Ellen Taplin, pesquisadora do Dana-Farber Cancer Institute e responsável pela apresentação dos achados, apontou que o protocolo — baseado em seis meses de tratamento sistêmico pré-operatório e mais seis meses pós-cirúrgico — atingiu com sucesso seus dois objetivos primários, trazendo um ganho clínico substancial para uma população que convive com elevadas taxas de recorrência da doença ao longo da vida.

Resultados cirúrgicos e o impacto no adiamento de novas terapias

Historicamente, até metade dos pacientes com tumores prostáticos de alto risco apresenta o retorno da doença nos cinco anos seguintes ao procedimento cirúrgico. Isso impulsiona a busca por estratégias perioperatórias capazes de eliminar precocemente focos microscópicos de células tumorais que já tenham se espalhado para além da próstata.

Os dados detalhados na ASCO 2026 evidenciaram que a intensificação do tratamento trouxe benefícios nítidos em múltiplos desfechos analíticos:

  • Resposta patológica na cirurgia: A proporção de pacientes que alcançaram resposta patológica completa ou doença residual mínima na peça cirúrgica saltou para 8,9% no grupo tratado com a apalutamida, contra apenas 1,0% no grupo que recebeu placebo.

  • Sobrevida livre de metástases: Após pouco mais de cinco anos de seguimento médio, 78,2% dos pacientes que usaram a medicação permaneciam vivos e livres de metástases à distância, em comparação com 73,5% do grupo controle (razão de risco estimada em $\text{HR } 0,80$).

  • Atraso em tratamentos subsequentes: O tempo médio para a necessidade de resgate por meio de novas intervenções locais ou sistêmicas aumentou significativamente de 41,5 meses para 74,2 meses, adiando em quase três anos a exposição das pacientes a terapias adicionais.

Em termos de segurança, eventos adversos graves de graus 3 ou 4 ocorreram em 39,6% dos pacientes no braço da apalutamida, comparados a 31,0% no braço do placebo. A principal divergência clínica encontrada foi o aumento na incidência de erupções cutâneas (rash) associadas ao tratamento experimental.

Limitações metodológicas e a evolução dos exames de imagem

Apesar de consolidar um marco terapêutico inédito, a interpretação prática dos dados do estudo PROTEUS exige ponderações metodológicas profundas. O urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR), explica que o recrutamento dos voluntários foi iniciado em 2019, período em que o exame de imagem PSMA PET ainda não era utilizado de forma rotineira como o padrão ouro para o estadiamento inicial do câncer de próstata de alto risco. À época, a elegibilidade dos participantes foi validada por métodos convencionais, como tomografia computadorizada, ressonância magnética e cintilografia óssea.

De acordo com o especialista, o PSMA PET possui uma sensibilidade significativamente superior para detectar focos tumorais microscópicos. “Hoje sabemos que uma parcela dos pacientes classificados como livres de metástases pelos métodos convencionais provavelmente seria reclassificada se tivesse realizado o PSMA PET desde o início. Isso significa que parte do benefício observado pode estar relacionada ao tratamento precoce de uma doença micrometastática que não era detectada na avaliação inicial”, pondera Guimarães.

Essa transformação tecnológica adiciona complexidade ao transporte dos resultados para os consultórios atuais, onde o PSMA PET já é largamente utilizado antes da decisão cirúrgica. Os próprios autores do estudo demonstraram que, se considerados unicamente os exames de imagem convencionais para rastrear a sobrevida livre de metástases ao longo do acompanhamento, a diferença estatística entre os dois grupos perdia significância.

A evolução tecnológica não anula o valor científico do estudo PROTEUS, que desponta como forte candidato a alterar as futuras diretrizes médicas globais de oncologia e urologia. Contudo, os dados reforçam a necessidade de uma estratificação minuciosa por parte das equipes médicas para identificar com precisão quais subgrupos de pacientes realmente colherão os melhores benefícios dessa abordagem combinada, balanceando a eficácia antitumoral com o manejo de toxicidades e a manutenção da qualidade de vida do indivíduo.

Fique por dentro das principais notícias de saúde, bem-estar e avanços da medicina:
👉 Clique aqui para entrar no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e receba nossos conteúdos diariamente!

Com Assessorias

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *