O avanço da medicina personalizada deu o tom da Asco 2026, a tradicional e respeitada reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), que termina neste dia 2 de junho em Chicago, nos Estados Unidos. Essa abordagem entende como o tumor cresce em cada paciente e utiliza medicamentos inteligentes para silenciar esse avanço de forma individual.
Reunindo cerca de 35 mil profissionais e mais de 8.700 pesquisas, o principal evento global de oncologia consolidou terapias capazes de traduzir descobertas de laboratório em benefícios rápidos na ponta, priorizando o tempo de sobrevida, a redução de efeitos colaterais e o bem-estar de quem enfrenta a doença.
Abaixo, confira a avaliação de alguns especialistas brasileiros que participaram da Asco 2026 e um resumo sobre alguns dos principais avanços apresentados. Ao longo dos próximos dias, VIDA E AÇÃO traz um panorama detalhado das novidades apresentadas no evento.
Tratamentos mais individualizados e sustentáveis
Para Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas&Co, a edição de 2026 consolida uma nova etapa da oncologia moderna, marcada não apenas pelo avanço de terapias inovadoras, mas também pela busca de tratamentos mais individualizados e sustentáveis.
Estamos vivendo uma era na qual estudos que antes levariam décadas para mudar práticas clínicas agora são rapidamente incorporados ao tratamento. A Asco 2026 confirma essa tendência, com dados que vão além da sobrevida e passam a olhar com mais rigor para a qualidade de vida, o acesso às terapias e a personalização do cuidado”, afirma.
Segundo ele, o congresso aprofunda uma transformação já observada nos últimos anos. “Estamos evoluindo de poucas opções para um cenário de múltiplas estratégias terapêuticas direcionadas a diferentes características moleculares de cada tumor. Isso muda completamente o prognóstico e a abordagem clínica”, afirma.
Pílula contra o câncer de pâncreas e ‘cavalos de tróia’ em tumores ginecológicos
Um dos grandes marcos do evento foi o estudo Rasolute-302, que testou o daraxonrasibe — uma pílula de uso diário — em pacientes com adenocarcinoma de pâncreas metastático, desafiando a temida mutação da proteína KRAS. O medicamento trava o motor do crescimento tumoral.
É como uma fechadura cujo mecanismo interno foi bloqueado: o remédio impede que o sistema da célula cancerígena seja acionado”, compara o cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (Wsso) e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center.
Outro destaque que revolucionou os cenários de câncer de mama e tumores ginecológicos (ovário, endométrio e colo do útero) foi o avanço dos Anticorpos Conjugados à Droga (ADCs). Essas moléculas funcionam como verdadeiros “cavalos de Troia“, desenhadas para entregar a quimioterapia diretamente dentro da célula doente, preservando os tecidos saudáveis ao redor.
Pesquisas com os compostos sacituzumabe govitecane e datopotamabe deruxtecan trouxeram respostas altamente significativas para casos metastáticos complexos, especialmente no subtipo triplo-negativo de mama.
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Testes genômicos poupam mulheres de quimioterapia

Outro marco importante voltado para o tratamento do câncer de mama do tipo ER+/HER2– — o subtipo mais comum da doença — envolveu mais de 4.400 pacientes. A pesquisa avaliou a utilização do teste genômico Prosigna (PAM50) para identificar quais mulheres realmente precisam passar por quimioterapia após a cirurgia.
Os dados apresentados na Asco mostraram que as pacientes com menor escore de risco genético puderam dispensar a quimioterapia com segurança, mantendo excelentes resultados no controle do tumor nos primeiros cinco anos de acompanhamento.
A oncologista clínica Susana Ramalho, integrante do Grupo SOnHe que acompanhou presencialmente os debates em Chicago, destaca o impacto prático dessa descoberta na medicina personalizada.
Estamos diante de uma evidência extremamente robusta. O estudo mostra que é possível individualizar o tratamento e poupar muitas mulheres da quimioterapia sem comprometer a segurança oncológica. Isso significa menos efeitos colaterais e muito mais qualidade de vida”, afirma a Dra. Susana Ramalho.
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Revolução nos tumores de próstata, bexiga e rim
Na área de tumores urológicos, os novos dados redesenharam os protocolos internacionais. O aguardado estudo Proteus avaliou o uso do medicamento apalutamida antes e depois da cirurgia em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco, reduzindo o risco de metástase.
O oncologista Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas, aponta que a estratégia muda a lógica tradicional de operar primeiro para tratar depois.
A ideia é intensificar o bloqueio hormonal logo no início para pacientes com maior risco de progressão”, explica.
Confira outras inovações apresentadas para a área geniturinária:
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Pausa terapêutica (Estudo A-Dream): Investigou a possibilidade de pacientes com câncer de próstata metastático, que alcançaram respostas profundas, interromperem temporariamente o bloqueio hormonal. “Isso reduz impactos na qualidade de vida, como fadiga e alterações cardiovasculares”, diz o Dr. Denis Jardim.
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Radiação inteligente (Actinium-PSMA617): Nova geração de terapia direcionada que leva partículas radioativas diretamente às células tumorais de próstata, mostrando-se ainda mais potente que o atual Lutécio-PSMA.
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Resposta longa na bexiga (Estudo EV-302): O monitoramento de longo prazo da combinação de enfortumabe vedotina e pembrolizumabe mostrou que o tratamento reduziu o risco de morte em cerca de 50%. De acordo com o oncologista Fernando Maluf, cofundador do Instituto Vencer o Câncer, os dados abrem caminhos para discutir cura mesmo em cenários metastáticos.
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Imunoterapia no rim (Estudo Rampart): Trouxe dados sobre o uso do durvalumabe após a cirurgia de retirada do tumor renal, tentando consolidar o papel da imunoterapia adjuvante em pacientes de alto risco.
Pesquisas brasileiras ganham projeção internacional
A expertise dos cientistas brasileiros ganhou forte protagonismo com a apresentação de dados focados na realidade da América Latina. Na área de oncologia torácica, estudos conduzidos pela Oncoclínicas em parceria com o Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (Gbot) discutiram o mapeamento do câncer hereditário de pulmão e os desafios econômicos para a implementação da biópsia líquida — exame de sangue capaz de detectar fragmentos do DNA do tumor sem a necessidade de procedimentos invasivos.
O oncologista William Nassib William Jr., professor associado adjunto da University of Texas MD Anderson Cancer Center e uma das lideranças em tumores torácicos no Brasil, esteve à frente das discussões focadas na expansão desse diagnóstico molecular.
Além disso, investigadores nacionais lideraram sessões voltadas ao suporte integral, incluindo estudos sobre a saúde emocional de pacientes jovens com câncer e o uso da telemedicina aplicada aos cuidados paliativos na saúde pública e privada.
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Com Assessorias






