O avanço da medicina personalizada deu o tom da Asco 2006, a reunião nual da American Society of Clinical Oncology , em Chicago, nos Estados Unidos, entre os dias 29 de maio e 2 de junho. Essa abordagem personalizada e única de tratamento entende como o tumor cresce em cada paciente e desenvolve medicamentos inteligentes para silenciar esse crescimento individualmente.
Com o tema “A Ciência e a Prática da Translação: Melhorando os Desfechos do Câncer no Mundo”, o principal evento global de oncologia reuniu cerca de 35 mil profissionais de saúde. Considerado o principal congresso de oncologia clínica do mundo, o encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica reuniu mais de 8.700 resumos científicos e apresentou resultados que devem influenciar a prática médica nos próximos anos.
O objetivo central desta edição foi consolidar terapias capazes de traduzir as descobertas de laboratório em benefícios rápidos na ponta para o paciente, priorizando não apenas o tempo de sobrevida, mas também a redução de efeitos colaterais e a manutenção da qualidade de vida.
Na avaliação do urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos e da Medicina Genômica da BP, a principal mensagem da ASCO 2026 foi o avanço de uma Oncologia cada vez mais orientada pela biologia dos tumores, pela medicina de precisão e pela participação ativa dos pacientes nas decisões sobre seus tratamentos.
Entre os trabalhos apresentados na sessão plenária, reservada aos estudos considerados mais capazes de modificar a prática clínica, um dos destaques foi o RASolute-302. O estudo avaliou o daraxonrasibe, um inibidor oral da família RAS administrado uma vez ao dia, em pacientes com adenocarcinoma ductal de pâncreas metastático previamente tratado. O trabalho
Estudos de destaque prometem mudar protocolos clínicos
As sessões plenárias do congresso apresentaram pesquisas com alto potencial de alterar rapidamente as condutas médicas ao redor do mundo. Entre os trabalhos mais aguardados, destacaram-se inovações voltadas para os tumores de pulmão, mama, próstata e sarcomas:
Além de uma pílula diária que promete uma revolução no tratamento do câncer de pâncreas metastático – assunto que roubou a cena do evento em nível mundial -, o congresso trouxe outras frentes importantes para a medicina global, incluindo:
- Câncer de pâncreas: O estudo RASolute 302, um dos grandes marcos da edição, testou o daraxonrasib em pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático previamente tratado, desafiando a proteína KRAS. De acordo com o cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO) e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, esse avanço interfere de forma efetiva no motor do crescimento tumoral. Coimbra compara a proteína mutada a uma fechadura cujo mecanismo interno foi desgastado: o remédio impede que o sistema seja acionado e gire.
- Câncer de bexiga avançado: O estudo de fase 3 PROTEUS avaliou o uso da medicação apalutamida associada à terapia hormonal em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco submetidos à cirurgia. A estratégia busca eliminar a doença residual e reduzir drasticamente o risco de progressão metastática. O oncologista Fernando Maluf chamou a atenção para os dados de longo prazo no câncer de bexiga avançado. A combinação de imunoterapia com um anticorpo conjugado à droga conseguiu reduzir o risco de morte em cerca de 50%. Ele também celebrou o fato de que o Brasil coordenará um importante estudo internacional para avaliar essas novas linhas de cuidado.
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Cânceres ginecológicos – O oncologista destacou o avanço dos Anticorpos Conjugados à Droga (ADCs) como uma das áreas mais inovadoras da atualidade. ACDs são medicamentos desenhados para entregar a quimioterapia diretamente dentro da célula tumoral, preservando os tecidos saudáveis. Estudos em câncer de ovário, endométrio e colo do útero mostraram respostas altamente significativas, mesmo em tumores complexos e resistentes a tratamentos anteriores.
- Câncer de mama: Os anticorpos droga-conjugados (ADCs), que funcionam como “cavalos de Troia” entregando a quimioterapia diretamente nas células cancerígenas, continuam no topo das inovações. Estudos envolvendo as moléculas sacituzumabe govitecane e datopotamabe deruxtecan trouxeram dados promissores para casos metastáticos, com foco no subtipo triplo-negativo. Outra vertente aguardada foram os resultados do estudo SERENA-6, focado em novos medicamentos orais para degradar receptores de estrogênio em tumores hormonais positivos.
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Câncer de pulmão e poluição do ar: O estudo LIBRETTO-432 testou o selpercatinibe no cenário curativo, voltado para pacientes com tumor de pulmão de não pequenas células com mutação RET positivo após a cirurgia, visando bloquear a via molecular para evitar a recidiva. Também na área pulmonar, o estudo HARMONi-6 testou o ivonescimabe, um anticorpo biespecífico projetado para atacar simultaneamente mecanismos imunológicos e angiogênicos (de irrigação sanguínea) do tumor.
- Câncer de próstata avançado: Grandes avanços também foram citados por ele na área de câncer de próstata avançado, com atualizações de longo prazo de terapias voltadas para mutações específicas e o uso de biópsias líquidas para monitoramento.
- Sarcomas raros: O estudo SARC041 tornou-se o primeiro ensaio de fase 3 a investigar o uso de um inibidor de CDK4/6 para o lipossarcoma desdiferenciado avançado, um tipo de tumor raro, agressivo e que historicamente conta com pouquíssimas opções terapêuticas.
Pesquisas brasileiras ganham espaço na programação científica
A produção científica e a expertise dos médicos brasileiros ganharam forte projeção na ASCO 2026, com a apresentação de dados focados na realidade latino-americana e no suporte integral aos pacientes. Investigadores nacionais lideraram sessões importantes que conectam tecnologia, bem-estar e oncologia.
Entre os trabalhos apresentados estão pesquisas sobre saúde emocional de pacientes jovens com câncer, telemedicina aplicada aos cuidados paliativos, câncer hereditário de pulmão e uso de biópsia líquida na América Latina.
Na área de oncologia torácica, estudos da Oncoclínicas, em parceria com o Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) discutiram o mapeamento do câncer hereditário de pulmão e os desafios para a implementação prática da biópsia líquida — exame de sangue capaz de detectar fragmentos do DNA do tumor — em países da América Latina.
O oncologista William Nassib William Jr., professor associado adjunto da University of Texas MD Anderson Cancer Center e uma das lideranças em tumores torácicos no Brasil, esteve à frente dessas discussões focadas na expansão do diagnóstico molecular na região.
Novas terapias-alvo, radioligantes mais potentes e até a possibilidade de interromper tratamentos contínuos movimentam o maior congresso de oncologia do mundo
Na oncologia, poucos congressos têm tanto poder de influenciar a prática clínica quanto a reunião anual da American Society of Clinical Oncology. E, em 2026, uma das áreas mais movimentadas deve ser justamente a de tumores geniturinários, especialmente câncer de próstata, bexiga e rim.
Os estudos apresentados este ano mostram uma oncologia cada vez mais personalizada, menos centrada apenas em prolongar a sobrevida e mais preocupada em equilibrar eficácia, qualidade de vida e, em alguns casos, até a possibilidade de interromper tratamentos contínuos.
Para Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas, alguns trabalhos têm potencial real de mudar a forma como essas doenças são tratadas nos próximos anos.
“Estamos vendo uma evolução muito importante em diferentes cenários: desde pacientes com doença localizada de alto risco até aqueles com câncer metastático avançado. É uma ASCO que traz discussões sobre intensificação terapêutica, medicina de precisão e até desintensificação em pacientes que respondem muito bem”, afirma.
Estudo que pode mudar o tratamento do câncer de próstata antes da cirurgia
Entre os trabalhos mais aguardados de toda a ASCO está o estudo PROTEUS, escolhido para a sessão plenária, o espaço mais prestigiado do congresso. O estudo de fase 3 avalia o uso de apalutamida combinada à terapia hormonal antes e depois da cirurgia em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco.
Hoje, o padrão costuma ser operar primeiro e decidir tratamentos complementares posteriormente, dependendo do risco de recorrência. O PROTEUS pode mudar essa lógica. “A ideia é entender se tratar antes da cirurgia, com bloqueio hormonal intensificado, melhora significativamente os resultados oncológicos. Se o estudo for positivo, existe potencial para mudança de paradigma”, explica Denis Jardim.
Na prática, isso significaria adotar uma estratégia mais agressiva já no início do tratamento para pacientes com maior risco de progressão.
Terapias-alvo avançam para pacientes com mutação BRCA
Outro destaque importante é o TALAPRO-3, estudo que avalia a combinação de talazoparibe, um inibidor de PARP, com enzalutamida em pacientes com câncer de próstata metastático hormônio-sensível portadores de alterações genéticas relacionadas ao reparo do DNA, como mutações em BRCA.
Esse grupo de pacientes costuma ter tumores mais agressivos e respostas menos duradouras aos tratamentos convencionais. “Os pacientes com alterações em genes de reparo geralmente têm pior prognóstico. O talazoparibe já demonstrou atividade importante e esse estudo pode consolidar uma nova estratégia de tratamento personalizado”, afirma o oncologista.
O avanço reforça uma tendência cada vez mais forte na oncologia: usar o perfil molecular do tumor para definir terapias mais eficazes e individualizadas.
Pausa terapêutica pode virar uma possibilidade
Um dos destaques da edição está na discussão do estudo A-DREAM, que investiga se alguns pacientes com câncer de próstata metastático podem interromper temporariamente a terapia hormonal sem perder controle da doença.
A proposta surge em um contexto em que os tratamentos se tornaram tão eficazes que alguns pacientes alcançam respostas profundas e prolongadas.
“Hoje, o bloqueio hormonal costuma ser contínuo e pode trazer impactos importantes na qualidade de vida, como fadiga, perda de libido, alterações metabólicas e cardiovasculares. Então, existe um interesse crescente em entender se alguns pacientes poderiam fazer pausas terapêuticas com segurança”, explica Denis Jardim.
Embora ainda preliminar, a discussão representa uma mudança importante de mentalidade: não apenas viver mais, mas viver melhor.
Radioligantes entram em nova fase
Outro tema que deve ganhar atenção é a evolução dos radioligantes no câncer de próstata. Um estudo de fase 1 apresentará resultados do Actinium-PSMA617, nova geração de terapia direcionada ao PSMA, proteína altamente expressa em muitos tumores prostáticos.
A estratégia funciona como uma espécie de “radiação inteligente”, que leva partículas radioativas diretamente às células tumorais. “Atualmente já temos o Lutécio-PSMA, que trouxe resultados muito relevantes. O Actinium surge como uma nova geração, potencialmente ainda mais potente”, diz o especialista.
Uma nova expectativa para o câncer de bexiga
No câncer de bexiga metastático, os novos dados do estudo EV-302 também devem chamar atenção. O trabalho já havia mudado o tratamento padrão ao mostrar que a combinação de enfortumabe vedotina e pembrolizumabe era superior à quimioterapia tradicional.
Agora, os pesquisadores apresentam um seguimento mais longo, de três anos e meio, algo essencial para entender a durabilidade das respostas. “A grande pergunta agora é: existem pacientes que podem permanecer em resposta completa por longos períodos, talvez até sem necessidade contínua de tratamento? Isso começa a abrir discussões sobre possibilidades de cura em doença metastática”, afirma Denis Jardim.
A mesma combinação também vem mostrando resultados expressivos em pacientes com doença localizada submetidos à cirurgia, reforçando o avanço da imunoterapia em diferentes fases da doença.
Imunoterapia tenta consolidar espaço no câncer renal
Já no câncer de rim, um dos destaques será o estudo RAMPART, que avalia o uso de durvalumabe após cirurgia em pacientes com doença localizada de alto risco. O cenário é particularmente relevante porque, apesar do pembrolizumabe já aprovado nesse contexto, outros estudos com imunoterapia tiveram resultados negativos nos últimos anos.
Se esse estudo for positivo, ele reforça a ideia de que existe, sim, um grupo de pacientes com câncer renal localizado que se beneficia de imunoterapia adjuvante”, explica o oncologista.
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