Durante as férias escolares, quando as crianças passam mais tempo em casa, cresce significativamente o risco de acidentes domésticos com os pequenos. Levantamento da ONG Criança Segura aponta cerca de 200 mil ocorrências por ano envolvendo crianças no Brasil, com aumento de 38% nas mortes infantis causadas por acidentes nesse período. Quedas, queimaduras, intoxicações e até afogamentos estão entre as ocorrências mais frequentes.
Sem dúvida, as férias escolares são o período mais crítico para acidentes aquáticos no Brasil e expõem um problema que persiste apesar dos alertas recorrentes e do aumento de campanhas de conscientização. O afogamento segue como um dos principais riscos à saúde infantil no país — inclusive dentro de casa, em recipientes com pouca água.
Dados do Ministério da Saúde indicam que o país registrou mais de 71 mil mortes por afogamento entre 2010 e 2023, com maior incidência entre crianças e adolescentes. Dados consolidados mostram que o país registra cerca de 4 mortes infantis por afogamento por dia, índice que se mantém elevado mesmo com o avanço do acesso à informação.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o afogamento está entre as principais causas de morte nesta faixa etária, sendo um dos acidentes mais letais na primeira infância. Entre os mais vulneráveis, crianças de 1 a 4 anos estão no topo das vítimas. O afogamento segue como a principal causa de óbito nesta faixa etária e a segunda entre 5 e 9 anos.
Alerta para afogamentos domésticos
Grande parte das ocorrências acontece dentro da própria residência, em locais como piscinas, baldes e banheiras. A ONG Criança Segura alerta que, em bebês, poucos centímetros de água já são suficientes para provocar afogamento, muitas vezes em decorrência de breves momentos de distração dos cuidadores.
Piscinas residenciais continuam no centro do problema, respondendo por 55% dos casos nessa faixa etária, especialmente em casas e condomínios sem barreiras físicas, portões de segurança ou supervisão contínua de adultos. As férias ampliam essa vulnerabilidade, sendo responsáveis por 40% das mortes registradas no verão, quando as crianças passam mais tempo em clubes, praias e residências com piscinas, muitas vezes compartilhadas.
A disparidade regional reforça a gravidade do cenário, já que estados como Amapá e Amazonas registram índices muito acima da média nacional devido à maior exposição a rios, igarapés e balneários improvisados, enquanto centros urbanos como São Paulo apresentam taxas mais baixas, reflexo de campanhas estruturadas de prevenção.
Afogamentos em baldes
O Dia Mundial de Prevenção a Afogamentos, lembrado neste dia 25 de julho, acende o alerta para o risco que se intensifica nas férias: os afogamentos domésticos, muitas vezes associados a recipientes rasos com água, dentro de casa.
Quando falamos em afogamento, não estamos falando apenas de piscinas. Qualquer recipiente com água pode representar perigo, como baldes, tanques, máquinas de lavar e até o vaso sanitário”, alerta a cirurgiã pediatra Elisangela de Mattos, do Eco Medical Center.
Baldes com água nunca devem estar no chão. O ideal é mantê-los em tanques ou locais elevados, ou esvaziá-los imediatamente após o uso. O vaso sanitário deve estar sempre tampado e as máquinas de lavar que não possuem sistema de travamento da porta quando estão com água não devem funcionar nem permanecer com roupas de molho na presença de crianças.
Casos de crianças que se afogam em baldes, bacias ou recipientes com água são recorrentes no noticiário e reforçam a necessidade de atenção contínua. “Crianças pequenas não devem ficar próximas a recipientes com água sem supervisão. Mesmo um volume pequeno pode ser suficiente para causar um afogamento”, ressalta a médica.
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O pediatra Caio Rodrigo Massaini, do Hospital e Maternidade Madre Theodora, que faz parte da Rede Américas, alerta principalmente para o risco de crianças com menos de 4 anos de idade, que ainda não reconhecem adequadamente situações de perigo. A ausência de supervisão constante, mesmo por poucos segundos, o acesso fácil a piscinas, brincadeiras próximas à água e a falta de habilidades de natação estão entre os principais fatores de risco.
Ambientes desconhecidos, como rios, represas e praias, podem apresentar correntezas, fundo irregular e outras condições perigosas. É importante instalar cercas ou portões de segurança em piscinas, utilizar coletes salva-vidas adequados em águas abertas e estimular o aprendizado da natação, sempre com acompanhamento.
Em caso de afogamento, a primeira medida é retirar a criança da água com segurança, verificar se ela respira e acionar imediatamente o salva-vidas local ou o serviço de atendimento (SAMU). Se houver perda de consciência ou dificuldade respiratória, manobras de reanimação cardiopulmonar devem ser iniciadas até a chegada do socorro”, orienta.
Como escolher a roupa de banho adequada
Durante as férias escolares, o cuidado com as crianças em praias e piscinas torna-se prioridade máxima para as famílias. Para além da supervisão constante, um fator muitas vezes negligenciado pode salvar vidas: a cor da vestimenta. O pediatra e endocrinologista pediátrico Miguel Liberato alerta que a escolha estratégica do traje de banho e dos dispositivos de flutuação é essencial para prevenir acidentes graves.
De acordo com o especialista, a visibilidade é o primeiro passo para a segurança. “As cores vibrantes, como vermelho, amarelo e laranja, aumentam o contraste visual, facilitando a identificação rápida da criança em ambientes aquáticos”, explica.
Em contrapartida, tons de azul claro, cinza ou verde devem ser evitados, pois tendem a se confundir com o fundo das piscinas ou com a tonalidade do mar, dificultando o resgate em situações críticas.
Outro aliado importante para a segurança em locais públicos de grande movimento são as roupas que integram tecnologia de identificação. O médico destaca o uso de trajes com QR Codes que direcionam para informações de contato dos pais.
Inovações que trazem a frase ‘Me Encontre’ e um código escaneável permitem que os dados dos responsáveis sejam acessados rapidamente em casos de desencontros, agilizando a localização e reduzindo o trauma para a criança e para a família”, pontua.
A análise dos acessórios de flutuação também faz parte das recomendações. O Dr. Miguel Liberato enfatiza que nem todo equipamento vendido como recreativo é, de fato, seguro. O especialista desencoraja o uso de boias de cintura ou com encaixe para pernas, que podem furar ou tombar, e boias de braço, que podem escorregar facilmente.
A recomendação atual é o uso do flutuador infantil de corpo, que combina suporte no peito e nos braços. “Este modelo possui uma sustentação integrada que impede que o acessório saia dos membros ou que a criança vire de cabeça para baixo na água. É uma opção que não fura, não vira e se ajusta ao tamanho da criança, garantindo uma flutuação estável e segura”, garante o pediatra.
“O afogamento é democrático”, diz especialista
Os números são alarmantes: 16 brasileiros morrem afogados por dia, o equivalente a uma morte a cada 90 minutos, colocando o país em destaque na América Latina em número de afogamentos. Segundo maior causador de mortes infantis no Brasil, os afogamentos também acometem adultos — 57% das vítimas têm entre 15 e 49 anos —, muitas vezes por ignorarem cuidados simples que, literalmente, salvam vidas.
De 5.883 mortes computadas em um ano, 42% foram em vítimas de até 29 anos, sendo seis vezes mais em homens do que em mulheres, de acordo com o relatório da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), com informações baseadas em dados do DataSUS / Ministério da Saúde.
O afogamento é democrático, não vê raça, sexo, nível cultural ou socioeconômico. Ele acontece para todos. A prevenção é o grande remédio”, diz Rafaele Madormo, fundador do Instituto de Natação Infantil (Inati).
O cenário se insere em um contexto mais amplo de acidentes domésticos e de saúde coletiva. Sob a ótica da Saúde Única (One Health), a segurança e o bem-estar humanos estão diretamente conectados aos ambientes que habitamos e frequentamos — sejam eles urbanos, domésticos ou naturais —, exigindo uma abordagem integrada entre prevenção de acidentes, políticas públicas de saneamento e lazer seguro, e preservação da integridade física da comunidade.
5 dicas importantes para evitar afogamentos
Cuidados simples ajudam a prevenir incidentes, tanto em crianças quanto em adultos. A prevenção depende de informação clara, supervisão ativa e mudanças simples na rotina doméstica, capazes de reduzir drasticamente o número de ocorrências.
Saber nadar é apenas uma das camadas de proteção e reduz em 88% o risco de afogamento em crianças de 1 a 4 anos, mas outras medidas são fundamentais. O Inati recomenda 5 passos importantes:
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Nunca nade sozinho: Mesmo que seja adulto e tenha habilidades aquáticas desenvolvidas, câimbras e mal súbito são imprevisíveis.
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Não mergulhe de cabeça em águas desconhecidas: Rios, represas e lagos podem ter baixa profundidade, ocultar pedras ou troncos e causar danos permanentes ou óbito.
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Não prenda a respiração por muito tempo: O risco de apagão na água é real.
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Supervisione as crianças de perto: Fique alerta quando elas estiverem próximas ou dentro da água, sem distrações como o uso do celular; não delegue a irmãos mais velhos e não confie em boias e flutuadores como substitutos da supervisão humana.
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Use objetos flutuantes em caso de resgate: Utilize garrafa PET, corda, galho de árvore ou prancha para ajudar outra pessoa a se manter flutuando. Depois, busque ajuda especializada ligando para o Corpo de Bombeiros (193) ou para o SAMU (192).
Aumento de áreas de lazer e o papel da sociedade
A discussão sobre segurança infantil em ambientes aquáticos exige ações contínuas e coordenação entre famílias, escolas, gestores públicos e empresas do setor, especialmente em um país onde o calor intenso praticamente o ano inteiro intensifica riscos e amplia a exposição das crianças a piscinas, praias e rios.
O avanço das áreas de lazer em condomínios, o aumento de viagens e a expansão do acesso a piscinas residenciais tornam o tema ainda mais urgente, já que grande parte dos acidentes ocorre em locais considerados seguros pelos pais.
A indústria esportiva responde a esse movimento investindo em campanhas de conscientização e materiais pedagógicos, conectando o uso seguro das piscinas ao estímulo à atividade física. O mercado de produtos e serviços ligados ao universo aquático vem crescendo de forma consistente, impulsionado pela maior disponibilidade de piscinas domésticas e expansão dos condomínios-clube.
A segurança precisa caminhar junto com o prazer de estar na água. Nós observamos de perto como o mercado evoluiu e entendemos que as marcas têm papel direto em orientar famílias, oferecer informação confiável e criar ferramentas práticas que salvem vidas”, afirma Roberto Jalonetsky, da Speedo Multisport.
Com Assessorias
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