Em tempos de canetas emagrecedoras, o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares (2 de junho) lança luz sobre uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e que, muitas vezes, permanece silenciosa dentro das famílias, escolas e ambientes de trabalho. Mais do que uma preocupação estética, os transtornos alimentares são doenças psicossomáticas graves, com impactos físicos, emocionais e sociais significativos.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas convivem atualmente com algum transtorno alimentar no mundo. No Brasil, dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) apontam um crescimento expressivo dos casos nos últimos anos, especialmente entre adolescentes e mulheres jovens, embora o problema também atinja homens, crianças e pessoas adultas.
Entre as condições mais conhecidas estão a anorexia nervosa, caracterizada pela restrição alimentar extrema e distorção da imagem corporal; a bulimia nervosa, marcada por episódios de compulsão seguidos de comportamentos compensatórios; e o transtorno da compulsão alimentar periódica, associado à ingestão exagerada de alimentos acompanhada de culpa e sofrimento emocional.
Para o médico nutrólogo Felipe Gazoni, um dos maiores desafios ainda é combater a banalização do tema:
“Transtorno alimentar não é vaidade ou falta de força de vontade. Estamos falando de doenças sérias, que envolvem fatores emocionais, psicológicos e biológicos.”
O médico explica que as mudanças bruscas de peso, obsessão por calorias, culpa ao comer, compulsões e distorção da autoimagem estão entre os principais sinais de alerta. Além dos impactos emocionais, os transtornos alimentares podem trazer consequências severas para a saúde física, incluindo desnutrição, alterações hormonais, problemas cardiovasculares, perda muscular, ansiedade, depressão e aumento do risco de suicídio.
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Se os fatores biológicos e psicológicos formam a base dessas doenças, o ambiente contemporâneo atua como um potente catalisador. Atualmente, esse cenário ganha contornos ainda mais complexos com o avanço das redes sociais. O TikTok, dentre todas as plataformas, se tornou um dos principais “guias alimentares” da atualidade, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.
Vídeos de receitas hiperpalatáveis, dietas restritivas, desafios virais e os populares “what I eat in a day” (“o que eu como em um dia”) acumulam milhões de visualizações diariamente. Mas, por trás do entretenimento e da estética perfeita, especialistas alertam: o algoritmo pode estar influenciando diretamente a forma como o cérebro percebe comida, prazer, culpa e autoestima, servindo como porta de entrada ou agravante para os transtornos alimentares.
De acordo com um estudo publicado na revista Nature Communications, conteúdos digitais altamente estimulantes podem ativar mecanismos ligados ao sistema de recompensa cerebral de forma semelhante a outros estímulos de reforço imediato, aumentando a impulsividade, o desejo e o comportamento compulsivo.
Já uma pesquisa da Harvard T.H. Chan School of Public Health aponta que a exposição frequente a conteúdos sobre dietas e padrões corporais irreais nas redes sociais está associada a maior insatisfação corporal, ansiedade alimentar e risco de transtornos alimentares, especialmente entre mulheres jovens.
Para a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, o problema não está apenas no conteúdo em si, mas na repetição constante e personalizada promovida pelos algoritmos:
Nosso cérebro aprende por repetição. Quando uma pessoa passa horas consumindo vídeos que associam comida à culpa, recompensa, punição ou perfeição estética, ela começa a construir conexões emocionais automáticas em relação à alimentação. Isso altera a percepção, o desejo e até a forma como ela se sente ao comer”, explica Sophie.
Comparação social e alimentação performática
Segundo a neurocientista, vídeos de “what I eat in a day” parecem inocentes, mas frequentemente funcionam como comparações sociais disfarçadas de rotina.
“O cérebro humano é extremamente sensível à comparação social. Quando alguém vê repetidamente corpos considerados ideais acompanhados de rotinas alimentares restritivas, surge a sensação inconsciente de inadequação. A pessoa começa a acreditar que deveria comer menos, controlar mais ou performar uma alimentação ‘perfeita’ para ser aceita.”
O impacto vai além da autoestima: um levantamento publicado pelo Journal of Eating Disorders identificou que conteúdos sobre alimentação nas redes sociais frequentemente promovem informações nutricionais imprecisas, padrões restritivos e mensagens moralizantes sobre comida, reforçando os ciclos de culpa alimentar e compulsão que desafiam os consultórios médicos.
Para Sophie, o ambiente digital atual favorece extremos porque eles geram engajamento. “O algoritmo não está preocupado com a saúde mental ou com o comportamento alimentar saudável. Ele privilegia aquilo que prende a atenção. E conteúdos radicais, seja uma dieta impossível, uma receita exageradamente indulgente ou uma transformação corporal chocante, ativam curiosidade, desejo e comparação, que são gatilhos poderosos para o cérebro”, diz.
Outro ponto de atenção é o efeito psicológico da chamada “alimentação performática”, em que comer deixa de ser uma necessidade fisiológica e passa a funcionar como identidade, validação social e produção de conteúdo. “A alimentação virou espetáculo. As pessoas não estão apenas comendo; elas estão sendo observadas comendo. Isso muda a relação emocional com a comida, porque o foco deixa de ser fome, prazer e saciedade, e passa a ser aprovação social”, comenta Sophie.
Protegendo as mentes em desenvolvimento
A especialista alerta que esse cenário pode impactar especialmente os adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento e apresenta maior sensibilidade à validação social e à recompensa instantânea. “Quanto mais cedo alguém aprende a associar comida à culpa, comparação ou performance, maior a chance de carregar uma relação conflituosa com a alimentação ao longo da vida”, diz Sophie.
Como destacado pelo Dr. Felipe Gazoni, o tratamento para essas condições deve ser individualizado e multidisciplinar, envolvendo médicos, psicólogos, psiquiatras e nutricionistas. Mas a prevenção também passa pelo comportamento digital.
Para a neurocientista, o caminho não é demonizar as redes sociais, mas desenvolver consciência crítica sobre aquilo que se consome digitalmente, inclusive do ponto de vista emocional:
“O algoritmo aprende rapidamente o que captura nossa atenção, mas nosso cérebro também aprende rápido aquilo que repetimos todos os dias. A pergunta que precisamos fazer é: estamos alimentando nosso corpo ou treinando nossa mente para viver em constante insatisfação?”, finaliza Sophie.
Com Assessorias




