Durante anos, a jornalista , produtora cultural e influenciadora Kika Gama Lobo dedicou-se a ouvir as mulheres. Em suas colunas, palestras e projetos, ela ecoou as dores, os silêncios e os desejos contidos do universo feminino na maturidade.  No entanto, um elemento central dessas narrativas parecia constantemente envolto em mistério e silenciamento: os homens.

Presentes quase como alvo principal nas queixas e nas vidas das mulheres, eles permaneciam ausentes do diálogo público sobre sentimentos, fraquezas e envelhecimento. Foi a partir desse incômodo que Kika decidiu inverter os papéis, afastando-se do centro do palco para assumir a posição de escuta dedicada ao público masculino.

O movimento, que começou de forma pioneira no sugestivo PodPau,  seu podcast independente, ganhou as páginas impressas com o recém-lançado livro “O que eles dizem? Kikando com os homens maduros” (R$ 59,90). No lançamento da obra, Kika recebeu homens maduros, como o médico e gerontólogo Alexandre Kalache, de 80 anos, uma referência em longevidade, além de vários dos personagens reais de sua obra.

Para construir esse panorama detalhado da mente e do coração do homem maduro, Kika Gama Lobo entrevistou uma seleção de homens acima dos 55 anos, de diferentes trajetórias, que aceitaram o desafio de vulnerabilizar-se. Entre os nomes que compartilharam suas vivências, dores, superações e reflexões na obra estão empresários, jornalistas, esportistas, advogados, médicos, artistas e muitos mais.

Nas entrevistas ao PodPau, eles falam sobre temas considerados verdadeiros tabus: disfunção erétil, o impacto da pornografia na vida adulta, o luto, a solidão e a saúde mental. O livro aborda o sofrimento psíquico decorrente da perda de status após a aposentadoria, o medo da dependência física, o distanciamento dos filhos e a pressa de um mundo em rápida transformação cultural.

Entre o “analfabetismo afetivo” e a ilusão do super-homem

As reflexões trazidas por Kika Gama Lobo em suas entrevistas mais recentes revelam que o envelhecimento masculino carrega nuances complexas e silenciosas. Enquanto as mulheres compartilham redes de apoio e elaboram suas crises na maturidade, muitos homens 50+ enfrentam o que a autora define como um verdadeiro “analfabetismo afetivo geracional“.

Trata-se de uma profunda dificuldade de encarar o próprio envelhecimento sem as antigas muletas sociais do status profissional, do poder aquisitivo ou do capital de sedução. De acordo com Kika, ao perderem esses atributos tradicionais de identidade, muitos homens entram em pânico diante do aumento da régua da longevidade.

Por trás da armadura de invulnerabilidade, o que se esconde frequentemente é um sentimento de “banzo”, como ela define — uma melancolia profunda alimentada pelo isolamento emocional e por válvulas de escape contemporâneas, que vão desde o uso excessivo de medicamentos para dormir, acordar e transar, até o refúgio no alcoolismo e em apostas online (as chamadas bets).

‘Tenho ainda muita raiva dos homens’

Kika Kama Lobo e Franklin Toscano, na Travessa do Leblon (Foto: Divulgação)

A proposta da obra, contudo, passa longe de ser um ataque gratuito ou um tribunal de gênero para se buscar a absolvição de comportamentos. Kika propõe um espelho inesperado para o gênero masculino e um verdadeiro atlas de compreensão para as mulheres. O objetivo central é construir pontes e propor um exercício de escuta crítica em tempos de tanta polarização masculino x feminino.

Ao escutar sem rodeios as queixas de homens maduros sobre temas delicados — como o luto, as heranças, as mudanças no mercado de trabalho e o estranhamento diante dos novos limites entre flerte e assédio —, Kika joga luz sobre as dores de uma geração que não aprendeu a falar de suas próprias fragilidades, mas que agora começa a ensaiar os primeiros passos em busca de um repertório emocional mais rico e saudável.

Kika Gama Lobo e Jonathan Santos, no lançamento do livro na Travessa do Leblon (Foto: Divulgação)

Aos 62 anos, a jornalista não esconde suas próprias contradições no processo. “Tenho ainda muita raiva dos homens”, escreve na obra, esclarecendo em seguida que o sentimento não se direciona ao indivíduo, mas ao sistema patriarcal que aprisiona a todos — ensinando meninos a negarem o afeto e homens mais velhos a enfrentarem crises e dores no mais absoluto isolamento.

Com seus cabelos completamente grisalhos a bagagem que só o tempo traz, Kika Gama Lobo entrega uma obra que não serve como um afago confortante, mas sim como uma conversa essencial. Afinal, em tempos de transição social, escutar e dar voz continuam sendo profundos atos de coragem.

Sobre a autora: uma história de resiliência e coragem

A própria história da jornalista carioca Kika Gama Lobo renderia um longo e eletrizante capítulo independente — ou, quem sabe, uma série especial de TV. Atual colunista da revista Veja Rio e colaboradora do Circuito Elegante Magazine, Kika é também a mente criativa por trás da badalada festa Kikando. Ao lado do sócio e DJ Marcos Mamede, o evento reúne a turma 50+ da Zona Sul carioca para celebrar a vida ao som de clássicos da disco music, flashback dos anos 70 e 80 e remixes contemporâneos com roupagem vintage.

Mas nem tudo na trajetória de Kika foi festa e glamour. Sua caminhada é marcada por um “combo tsunâmico” de desafios que testaram sua fé, coragem e dignidade. Aos 47 anos, Kika foi diagnosticada com um agressivo câncer de endométrio. No meio das sessões de quimioterapia, aceitou o desafio profissional de assumir a filial de uma grande empresa de comunicação no Rio. Foi nesse mesmo período turbulento que enfrentou a separação do marido e precisou deixar o apartamento de 300 m² onde morava no charmoso bairro do Leme, zona sul carioca.

Kika Gama Lobo e a jornalista Lu Lacerda, no lançamento do livro em São Paulo (Fotos: Divulgação)

As adversidades não pararam por aí. Durante a época das Olimpíadas no Rio, o imóvel para onde se mudou provisoriamente foi interditado devido a imbróglios fiscais, resultando em um despejo judicial. Sem teto, mudou-se com as duas filhas para a casa da mãe. Em seguida, enfrentou uma demissão inesperada, uma infecção por dengue e a dor de ver as filhas desligadas do colégio por problemas decorrentes de reprovações causadas pela instabilidade familiar.

No fundo do poço financeiro e emocional, Kika tomou uma decisão ousada: em vez de se esconder atrás da vergonha, expôs tudo nas redes sociais. Compartilhou suas dores, desabafou sobre os percalços da maturidade e começou a vender o que podia — de móveis a livros antigos — para garantir a subsistência. O que parecia loucura para algumas amigas tornou-se um porto seguro e reconfortante para milhares de seguidores que se identificavam com tamanha honestidade.

Kika Gama Lobo e Pedro Werneck, no lançamento do livro no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

Dessa vulnerabilidade escancarada nasceu a hashtag #Atitude50, que posteriormente se transformou em um respeitado programa de entrevistas no YouTube. Foi ali que Kika consolidou seu papel como influenciadora da longevidade, equilibrando as gravações com seu trabalho como captadora comercial.

Anos após ouvir de seu médico que o câncer mudaria sua vida para melhor, ela compreendeu o recado. Kika transformou a liberdade em festa e a dor em movimento. Hoje, ela fala com autoridade sobre o que a sociedade ainda tenta silenciar: corpo, desejo, finanças, saúde mental e envelhecimento. Como ela mesma define com precisão: “Envelhecer não é defeito, nem doença. É o auge da liberdade”.

Road show por Rio, Niterói e São Paulo

Rosayne Macedo, Kika Gama Lobo e Mônica Ulisses no lançamento de ‘O que eles dizem’ na Travessa do Leblon (Fotos: Miriam Pontes de Farias)

Após uma bem-sucedida noite de autógrafos no Rio de Janeiro, em maio, Kika e seu ‘O que eles dizem’ seguem em turnê de lançamento pelo país, já tendo passado por livrarias de Niterói (RJ) e de São Paulo (capital), mobilizando leitores ávidos por debates francos em torno de um tema ainda invibilizado mas, mais do que nunca, necessário.

Junto com a também jornalista Mônica Ulisses, editora do site Comida na Mesa, a psicóloga e hipnóloga Miriam Pontes de Farias e a terapeuta integrativa Nalva Farias – todas colaboradoras e parceiras de Vida e Ação – , fizemos questão de comparecer à Livraria da Travessa do Shopping Leblon, para abraçar a autora e celebrar o novo marco de sua carreira. Merecido, pois ela é uma querida.

Uma parceria de longa data e sem tabus

A conexão de Kika Gama Lobo com Vida e Ação não é de hoje. Nós nos conhecemos em um grande evento sobre longevidade em São Paulo. Entre uma conversa e outra, estabelecemos uma conexão em pleno Aeroporto de Congonhas, de volta ao Rio – Kika sabe como arrancar nossas mais íntimas confissões.

Kika aceitou se juntar à rede JornalistasRJ, que criei e administro no Whatsapp, que reúne, em sua maioria, profissionais na senioridade. Meses depois, convidei a jornalista para protagonizar o lançamento do projeto Saúde sem Idade, voltado ao incentivo à longevidade ativa e saudável, um dos pilares editoriais do nosso portal, que extravasou para além das quatro linhas do digital.

De uma generosidade e um magnetismo que impressionam, ela aceitou. Assim, no primeiro encontro oficial do projeto, realizado em parceria com Comida na Mesa, Kika foi a convidada de honra de um diálogo descontraído à beira-mar, em um quiosque da Praia de Copacabana, em meio ao calor extremo do verão de 2025.

Influencer sobre maturidade, Kika Gama Lobo no Saúde sem Idade (Fotos: João Mário Nunes)

A jornalista arrancou gargalhadas e profundas reflexões ao falar abertamente, e sem rodeios, sobre a sua própria história e abordar um tema ainda sensível: a sexualidade na maturidade, quebrando mitos e levando letramento em longevidade ao público. Essa mesma postura desarmada e corajosa é o fio condutor de seu novo livro que. é claro, eu trouxe pra casa, com autógrafo e tudo.

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Um presente necessário para o Dia dos Namorados

Com o Dia dos Namorados se aproximando, “O que eles dizem? Kikando com os homens maduros” surge como uma excelente e profunda opção de presente. Para os casais que já atravessaram décadas juntos ou para aqueles que estão descobrindo o amor e o companheirismo na maturidade, o livro é um convite ao diálogo.

Presentear o parceiro ou a parceira com esta obra é uma forma delicada e inteligente de abrir caminhos para conversas mais sinceras, fortalecer a cumplicidade e mostrar que o afeto, o desejo e a empatia mútua podem — e devem — se renovar em todas as fases da vida. Afinal, para quem ainda acredita no amor maduro, a compreensão do outro é o maior vínculo que se pode cultivar.

Serviço completo:

  • Título: O que eles dizem? Kikando com os homens maduros
  • Autora: Kika Gama Lobo
  • Editora: Lura Editorial
  • Páginas: 168
  • Preço sugerido: R$ 59,90
  • Onde encontrar: Disponível nas principais livrarias físicas do país (como a Livraria da Travessa no Rio e São Paulo) e também nas principais plataformas de e-commerce e sites especializados.
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