À primeira vista, parece apenas mais um movimento das redes sociais. Batizado de nonna maxxing, o fenômeno que viralizou no TikTok incentiva jovens a adotarem hábitos inspirados nas tradicionais avós italianas: cozinhar em casa, caminhar diariamente, cultivar plantas, reduzir o tempo de tela, reunir a família para as refeições e viver com menos pressa.
Mas, por trás da estética das redes sociais, existe uma discussão muito maior. Neste Dia dos Avós, celebrado em 26 de julho, a onda chama atenção justamente por valorizar comportamentos que as pessoas mais velhas cultivam há décadas e que hoje encontram respaldo na ciência quando o assunto é envelhecimento saudável.
Para a especialista em longevidade Natália Dornellas, o fenômeno revela uma mudança importante na forma como as novas gerações enxergam o envelhecimento.
Talvez a maior inovação da geração Z seja redescobrir hábitos que as pessoas mais velhas praticam há décadas. O que hoje ganha um nome em inglês e viraliza nas redes sociais sempre fez parte da rotina de muitas avós e avôs: cozinhar com alimentos frescos, caminhar, cultivar vínculos, viver em comunidade e desacelerar.”
Segundo Natália, o sucesso do movimento não está relacionado apenas ao interesse pela cultura italiana, mas ao desejo de encontrar um estilo de vida mais equilibrado em um cenário marcado pelo excesso de estímulos, hiperconectividade e esgotamento emocional.
O nonna maxxing fala muito mais sobre o cansaço de uma geração que cresceu conectada do que sobre receitas italianas. Existe uma busca crescente por relações mais presenciais, por tempo de qualidade e por hábitos que tragam mais significado para o cotidiano.”
A ciência já conhecia esses hábitos
Embora tenha surgido nas redes sociais, a especialista destaca que os comportamentos incentivados pelo movimento fazem parte das principais pesquisas sobre longevidade.
Dieta baseada em alimentos naturais, movimento incorporado à rotina, convivência familiar, participação na comunidade e redução do estresse aparecem há décadas nos estudos sobre envelhecimento saudável. Não existe fórmula mágica para viver mais, mas sabemos que o estilo de vida exerce um papel determinante na qualidade dessa longevidade.”
Esses fatores também são observados nas chamadas Blue Zones, regiões do mundo com alta concentração de pessoas centenárias, como a Sardenha, na Itália.
Valorizar quem envelheceu também combate o idadismo
Para Natália, a popularização do movimento também convida a uma reflexão sobre o preconceito contra o envelhecimento.
É curioso perceber que muitos desses hábitos só passaram a despertar interesse depois que ganharam um nome em inglês e viralizaram nas redes sociais. Isso mostra o quanto ainda desvalorizamos os conhecimentos das pessoas mais velhas.”
No Brasil, onde a população envelhece rapidamente, ela acredita que o debate é ainda mais necessário.
O Dia dos Avós é uma oportunidade para lembrar que envelhecer não significa perder relevância. Pelo contrário. As pessoas mais velhas acumulam experiências e modos de viver que podem inspirar todas as gerações. Talvez o maior aprendizado dessa tendência seja justamente perceber que inovação e tradição podem caminhar juntas quando o objetivo é viver melhor.”
Novas gerações ressignificam o envelhecer e fortalecem vínculos entre idades
Avós de hoje vivem uma nova relação com a idade, mais ativa, conectada e integrada às outras gerações
O Dia dos Avós, também ajuda a refletir sobre como o envelhecimento vem sendo ressignificado na sociedade contemporânea. Para a psicóloga Lívia Barreto, da Mental One, as novas gerações de avós representam uma mudança importante na forma como a velhice é vivida e percebida.
Mais conectados, ativos e presentes na rotina digital e social, esses avós se distanciam de um modelo mais tradicional de envelhecimento marcado pelo isolamento e pela menor participação no cotidiano das famílias.
Estamos diante de uma das primeiras gerações de avós que já chega à terceira idade de forma muito mais conectada com o mundo. São pessoas que usam smartphone, estão nas redes sociais, fazem atividades físicas e buscam uma vida mais ativa e saudável. Isso muda completamente a forma como se relacionam com os filhos e netos”, explica.
Segundo a especialista, essa aproximação entre gerações cria um ambiente mais rico de troca, no qual diferenças de idade passam a conviver de forma mais integrada e menos hierárquica.
Antes, havia uma separação mais clara entre o mundo dos idosos e o das outras gerações. Hoje, existe muito mais convivência, compartilhamento de experiências e interesses em comum. Isso fortalece vínculos e cria uma sensação de pertencimento entre as gerações”, afirma.
Lívia destaca ainda que essa convivência tem impacto direto na forma como jovens enxergam o próprio envelhecimento. A relação com avós mais ativos e saudáveis pode funcionar como uma espécie de espelhamento positivo para o futuro.
Quando a gente convive com avós que se cuidam, fazem exercício, se alimentam bem e têm uma vida social ativa, isso também influencia a forma como imaginamos o nosso próprio envelhecer. Existe um processo de identificação e de inspiração, em que o envelhecimento deixa de ser visto apenas como perda e passa a ser também associado a continuidade, vitalidade e propósito”, diz.
Para a psicóloga, esse novo cenário reforça a importância dos vínculos intergeracionais como espaço de troca, aprendizado e construção de memória afetiva.
É uma convivência muito rica, porque junta experiências de vida muito diferentes em um mesmo ambiente. E isso fortalece tanto os vínculos familiares quanto a forma como cada geração se entende dentro da sociedade”, conclui Lívia Barreto.
Com Assessorias





