Jovens consomem conteúdos nas redes sociais, mas demonstram cautela na hora de publicar. O que isso revela sobre exposição, privacidade e pegadas digitais?
Você já reparou que muitos jovens mantêm perfis no Instagram com poucas fotografias, publicações antigas ou o feed vazio? Continuam conectados, assistem a vídeos, acompanham influenciadores e conversam com amigos. Mas nem sempre querem transformar a própria vida em exposição pública.
Especialistas em marketing digital comentam que é preciso construir uma presença digital. Profissionais, empresas e instituições passaram a disputar visibilidade, seguidores e engajamento. Agora, parte da geração que cresceu diante das telas parece administrar com mais cuidado aquilo que decide mostrar.
Uma pesquisa do Pew Research Center, publicada em abril de 2026, ouviu 1.458 adolescentes norte-americanos, de 13 a 17 anos. Entre os usuários do Instagram, no máximo 20% disseram publicar ou compartilhar conteúdo diariamente. O dado não demonstra que a geração Z abandonou as redes, mas evidencia uma diferença entre estar presente e se expor.
O estudo qualitativo Children’s Media Lives 2025, do órgão regulador britânico Ofcom, também encontrou adolescentes que evitam publicações abertas por medo de críticas e constrangimentos. Alguns preferem interações em espaços privados, onde conseguem controlar melhor quem vê o que compartilham.
Mas publicar menos significa deixar menos rastros?
Quando postamos fotografias, escrevemos comentários ou compartilhamos vídeos, produzimos pegadas digitais ativas. Existem também as passivas: informações geradas enquanto navegamos, como buscas, vídeos assistidos e padrões de interação, conforme os recursos e as práticas de coleta de cada plataforma.
Imagine alguém que passa duas horas assistindo a Reels, pesquisando viagens e visitando perfis de marcas. Pode encerrar o dia sem fazer uma única publicação. Mesmo assim, suas atividades podem alimentar sistemas de recomendação e publicidade. O perfil está vazio; os registros de comportamento, não necessariamente.
Os Stories reforçam essa contradição. Desaparecem da visualização habitual após 24 horas, salvo quando ficam nos destaques. Mas isso não garante que os dados associados sejam apagados no mesmo prazo. Capturas de tela, compartilhamentos e políticas de armazenamento tornam o desaparecimento da interface diferente do esquecimento digital.
Há interesses econômicos envolvidos. Plataformas utilizam sinais de comportamento para personalizar conteúdos e anúncios. Até quem prefere observar, sem publicar, participa dessa produção de dados.
Isso não significa que os jovens estejam rejeitando a exposição. Publicar menos pode indicar receio de julgamento, preferência por mensagens privadas ou simples mudança de hábito. E pesquisas com adolescentes dos Estados Unidos e do Reino Unido não autorizam conclusões sobre toda a geração Z brasileira.
A questão interessa especialmente à educação midiática. Ensinamos a pensar antes de postar, mas ainda falamos pouco sobre o que revelamos quando apenas assistimos, pesquisamos e rolamos a tela. A privacidade não depende somente das escolhas que fazemos diante do botão “publicar”.
No artigo anterior da Curadoria, perguntei quem constrói nossa reputação digital quando deixamos de participar das conversas nas redes. Agora, a inquietação é outra: que retrato de nós mesmos as plataformas conseguem montar a partir de comportamentos que quase não percebemos?
Podemos escolher o que publicar. Mas sabemos o que revelamos quando apenas observamos?




