Durante a Rio Innovation Week, realizada esta semana no Rio de Janeiro, muito se falou sobre o excesso de tela: em média o brasileiro passa nove horas e 13 minutos por dia na frente do celular, do computador ou de outros dispositivos. Muito além de impactos na saúde mental, o excesso de telas também pode estar destruindo sua coluna.
No consultório, tenho recebido cada vez mais pacientes com uma combinação muito parecida de queixas: dor no pescoço, tensão nos ombros, desconforto entre as escápulas, dor de cabeça e aquela sensação de estar “travado” depois de passar horas no celular ou no computador.
A tecnologia não é a vilã. O problema está na forma como estamos usando a tecnologia — e, principalmente, no tempo que permanecemos praticamente imóveis diante das telas.
Quando olhamos para o celular, é comum projetarmos a cabeça para frente e permanecermos com o pescoço inclinado por longos períodos. Se isso acontece repetidamente ao longo do dia, músculos e articulações precisam sustentar uma posição pouco variável durante muito tempo. O resultado pode aparecer como fadiga, rigidez e dor.
E aqui está um ponto importante: não existe uma “postura perfeita” que precise ser mantida o dia inteiro. Nosso corpo foi feito para se movimentar. Muitas vezes, o maior problema não é exatamente estar alguns minutos em uma postura considerada ruim, mas permanecer nela por horas, sem alternância.
Por isso, no consultório, além de tratar a dor, procuro ensinar o paciente a modificar pequenas coisas da rotina. São mudanças simples, mas que podem fazer bastante diferença.
3 exercícios pra desfazer a corcunda digital
Primeiro: aproxime a tela dos olhos. Em vez de passar horas olhando para baixo, eleve o celular sempre que possível e organize o monitor do computador de maneira confortável, evitando manter a cabeça constantemente projetada para frente.
Segundo: crie pausas de movimento. A cada período prolongado diante da tela, levante, caminhe um pouco e movimente pescoço, ombros e coluna. Não precisa transformar o escritório em uma academia. Um ou dois minutos de movimento já quebram aquele período prolongado de imobilidade.
Terceiro: faça três movimentos simples durante o dia. Recolha suavemente o queixo, como se quisesse alongar a parte de trás do pescoço; aproxime e relaxe as escápulas algumas vezes; depois, levante os braços e faça uma extensão confortável da coluna torácica. Tudo sem provocar dor.
Também vale observar a ergonomia: pés apoiados, cadeira confortável, antebraços sustentados quando possível e tela posicionada de maneira que você não precise passar o dia “mergulhando” a cabeça em direção ao computador.
Outra dica que costumo dar aos meus pacientes é simples: a melhor postura é, muitas vezes, a próxima postura. Alterne. Trabalhe sentado, levante quando puder, mude o apoio, caminhe enquanto fala ao telefone. Nosso sistema musculoesquelético gosta de movimento e variedade.
E atenção aos sinais persistentes. Dor frequente, perda de força, formigamento ou sintomas que começam a interferir no sono e nas atividades diárias merecem avaliação profissional. Nem toda dor cervical é consequência do celular, e atribuir qualquer sintoma à postura pode atrasar a identificação de outros problemas.
Depois de tantos anos trabalhando como fisioterapeuta e professor, percebo que uma das melhores ferramentas contra as dores relacionadas à vida digital continua sendo bastante analógica: movimento.
Não precisamos abandonar a tecnologia. Precisamos aprender a fazer com que nosso corpo sobreviva melhor a ela.




