O diagnóstico de câncer no intestino, revelado pelo ator Lúcio Mauro Filho aos 52 anos, chama atenção para uma doença que está entre os tipos mais comuns de câncer no Brasil e que tem preocupado especialistas pelo aumento de casos entre adultos mais jovens. Durante participação no programa Alt Tabet, do Canal UOL, o ator contou que concluiu os tratamentos e que, até então, nunca havia falado publicamente sobre o diagnóstico.

A descoberta aconteceu durante um check-up realizado após uma Covid-19 mais intensa. “Eu tive uma Covid que foi meio pesadinha e, por causa dela, eu tive um pânico. Quando terminou esse tratamento pós-Covid, tinha que fazer um check-up pra ver se tudo melhorou”, relatou.

câncer colorretal (CCR) é um tumor maligno que se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto, geralmente a partir de pólipos adenomatosos. Pólipos são pequenas lesões que se formam na parede interna do intestino. A maioria é benigna, mas alguns tipos podem evoluir para câncer ao longo do tempo.

Em 2020, o câncer colorretal foi responsável por mais de 1,9 milhão de novos casos e aproximadamente 935.000 mortes em todo o mundo, classificando-se como o terceiro câncer mais comum e a segunda principal causa de mortalidade relacionada ao câncer. Representa quase um décimo de todos os casos e mortes por câncer no mundo

O segundo tipo de câncer mais comum entre homens e mulheres

No Brasil, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são esperados cerca de 53.810 novos casos por ano no país durante o triênio vigente, sendo o segundo tipo de câncer mais incidente entre homens e mulheres quando excluídos os casos de câncer de pele não melanoma.

O câncer colorretal se desenvolve no cólon ou no reto, partes do intestino grosso, e pode evoluir durante anos antes de apresentar sinais mais evidentes. Apesar das altas chances de cura quando detectado precocemente, esse tipo de tumor muitas vezes é descoberto apenas em estágios mais avançados.

Cada vez recebo mais pacientes jovens com diagnóstico de câncer no intestino no consultório, é preocupante”, destaca Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD).

Para o especialista, casos como o de Lúcio também reforçam a importância da investigação médica e do acompanhamento adequado, já que a doença pode permanecer silenciosa por bastante tempo ou apresentar sintomas que acabam sendo atribuídos a problemas mais comuns.

Câncer colorretal: sinais silenciosos são o grande desafio

Nas últimas décadas, sua incidência aumentou de forma expressiva, com o número de casos mais que duplicando entre 1990 e 2019. Segundo Nacif, esse tipo de câncer geralmente se origina a partir de crescimentos anormais de células, evoluindo com pequenas lesões chamadas pólipos adenomatosos que podem se tornar cancerígenas ao longo do tempo.

O câncer colorretal pode se desenvolver por muitos anos sem causar sintomas visíveis. No entanto, à medida que o câncer cresce, podem ocorrer sinais e sintomas como mudanças nos hábitos intestinais, sangramento retal, dor abdominal, fraqueza e perda de peso inexplicada”, resume o cirurgião gastrointestinal.

O médico ainda esclarece que os estágios do câncer de intestino variam do estágio I, quando o câncer invadiu a parede do intestino, mas não através dela, até o estágio IV, quando o câncer se espalhou para órgãos distantes, como o fígado ou os pulmões.

câncer colorretal geralmente não causa sintomas nas fases iniciais ou pode provocar manifestações discretas, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do rastreamento. Quando presentes, os principais sinais e sintomas incluem:

  • Alteração persistente do hábito intestinal, como diarreia, prisão de ventre ou alternância entre ambos.
  • Fezes mais finas ou estreitas que o habitual.
  • Presença de sangue nas fezes, vermelho vivo ou escuro.
  • Dor, cólicas ou inchaço abdominal persistentes.
  • Sensação de evacuação incompleta.
  • Perda de peso sem causa aparente.
  • Fadiga persistente.
  • Anemia por deficiência de ferro, geralmente decorrente de sangramento intestinal crônico.

Fatores de risco estão ligados ao estilo de vida

Embora diversos fatores possam aumentar a probabilidade de desenvolver a doença, ainda não se conhece completamente suas causas específicas. Ele ressalta que os tumores na região geralmente se desenvolvem a partir de mutações genéticas que ocorrem em pólipos, lesões benignas do intestino.

Apesar de fatores genéticos desempenharem um papel importante, estima-se que 60 a 65% dos casos estejam relacionados a fatores ambientais e ao estilo de vida. Hábitos como o consumo excessivo de álcool, tabagismo, sedentarismo e excesso de peso também estão associados a um maior risco da doença.

De acordo com o cirurgião gastrointestinal, uma dieta pobre em frutas, vegetais e carnes magras, combinada com o consumo excessivo de carnes vermelhas e/ou processadas, pode aumentar o risco de desenvolvimento do câncer colorretal.

A nutricioista Adriana Stavro  explica o impacto das carnes processadas e das fibras na prevenção e diz que é possível prevenir essa doença pela alimentação.

  • Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou as carnes processadas como carcinogênicas para humanos (Grupo 1) e as carnes vermelhas como provavelmente carcinogênicas para humanos (Grupo 2A) em relação ao câncer colorretal.
  • Baixo consumo de frutas, verduras, legumes, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo de pelo menos 400 g de frutas e hortaliças por dia.
  • Sedentarismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a prática de pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana, além de exercícios de fortalecimento muscular em dois ou mais dias da semana.
  • Alto consumo de alimentos de origem vegetal com baixo valor nutricional, como grãos refinados, bebidas açucaradas e doces.
  • Sobrepeso e obesidade.
  • Tabagismo.
  • Consumo elevado de bebidas alcoólicas.
  • A idade é um dos principais fatores de risco. Embora a doença possa ocorrer em adultos jovens, sua incidência aumenta progressivamente com o envelhecimento, especialmente após os 50 anos.
  • Histórico familiar de câncer colorretal em parentes de primeiro grau.
  • Síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar (PAF).
  • Presença de pólipos adenomatosos, que podem evoluir para câncer ao longo dos anos quando não identificados e removidos.
  • Doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, principalmente quando de longa duração.

 

Como é feito o diagnóstico

Segundo Nacif, a identificação precoce do tumor é fundamental, pois aumenta consideravelmente a eficácia do tratamento, alcançando taxas de cura acima de 90%. “Portanto, não se deve nunca negligenciar sinais suspeitos, mas sim buscar avaliação médica especializada”, resume.

O diagnóstico precoce da doença pode ser alcançado através da realização de uma investigação minuciosa, utilizando exames clínicos, laboratoriais, endoscópicos ou radiológicos. No caso específico do câncer colorretal, o rastreamento pode ser conduzido através de dois principais exames: pesquisa de sangue oculto nas fezes e endoscopias, como colonoscopia ou retossigmoidoscopia”, explica o médico.

O diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de cura do câncer colorretal. Além disso, em pessoas sem sintomas, o rastreamento permite identificar e remover lesões pré-cancerosas, reduzindo tanto a incidência quanto a mortalidade pela doença.

A pesquisa de sangue oculto nas fezes, incluindo o teste imunológico fecal (FIT), pode ser utilizada como exame inicial de rastreamento. Quando o resultado apresenta alteração, é necessária investigação complementar, geralmente por colonoscopia.

Quem deve fazer a colonoscopia?

A colonoscopia é considerada o exame de referência para o diagnóstico e a prevenção do câncer colorretal, pois permite visualizar todo o intestino grosso, realizar biópsias e remover pólipos durante o próprio procedimento, interrompendo sua possível progressão para câncer.

Pessoas com histórico familiar de câncer colorretal ou síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar (PAF), podem necessitar de rastreamento mais precoce e acompanhamento individualizado.

No Brasil, o INCA recomenda que o rastreamento seja realizado em pessoas de risco habitual entre 50 e 75 anos, mesmo na ausência de sintomas. Algumas diretrizes internacionais recomendam o início aos 45 anos. A decisão deve considerar a orientação médica, os fatores de risco individuais e o acesso aos exames.

Pessoas com histórico familiar de câncer colorretal, doenças inflamatórias intestinais ou síndromes hereditárias podem precisar iniciar o rastreamento mais cedo e seguir um protocolo individualizado.

Câncer de intestino tem cura? Qual é o tratamento?

Quanto ao tratamento, o médico explica que varia de acordo com o estágio do tumor. Geralmente, a cirurgia é realizada para remover as partes do intestino afetadas pelo câncer. Em estágios mais avançados, a quimioterapia e a radioterapia podem ser necessárias. Em situações em que o câncer está avançando e crescendo rapidamente, tanto a radioterapia quanto a quimioterapia podem ser utilizadas para controlar o crescimento tumoral.

Lucas Nacif ressalta a importância de exames periódicos, principalmente em pessoas que já tiveram casos da doença na família, devido à possibilidade de predisposição hereditária, e de acompanhamento médico individualizado para definir o momento adequado do rastreamento. “A prevenção sempre será o melhor remédio, somado a uma alimentação equilibrada e vida saudável com atividade física”, finaliza o especialista.

O tratamento depende de diversos fatores, como o estágio da doença, a localização e as características do tumor, a presença de metástases, além do estado geral de saúde do paciente. As principais opções terapêuticas incluem:

  • Cirurgia, principal tratamento para a maioria dos tumores localizados.
  • Quimioterapia, utilizada antes ou após a cirurgia e nos casos de doença avançada.
  • Radioterapia, indicada principalmente para alguns casos de câncer de reto.
  • Terapias-alvo (terapias direcionadas), que atuam sobre alterações específicas das células tumorais.
  • Imunoterapia, indicada para um grupo selecionado de pacientes com determinadas características moleculares do tumor.
  • Uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais de saúde, deve acompanhar o paciente durante todo o tratamento.

Prevenção

  • A alimentação desempenha um papel central na prevenção do câncer, como destacado pelo Fundo Mundial para Pesquisa do Câncer (WCRF) e pelo Instituto Americano para Pesquisa do Câncer (AICR) em recomendações baseadas em evidências.
  • Priorizar um padrão alimentar rico em alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas e oleaginosas, está associado à redução do risco de câncer colorretal.
  • Consumir pelo menos 400 g de frutas e hortaliças por dia (cerca de cinco porções), conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
  • Manter uma ingestão adequada de cálcio, preferencialmente por meio dos alimentos.
  • Evitar o consumo de carnes processadas, como salsicha, linguiça, bacon, presunto e salame.
  • Limitar o consumo de carnes vermelhas a 350 a 500 g por semana (peso cozido), dando preferência aos cortes magros.
  • Manter um peso corporal saudável.
  • Praticar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
  • Não fumar.
  • Limitar o consumo de bebidas alcoólicas.
  • Conhecer o histórico familiar e informar o médico, pois isso pode modificar a idade de início do rastreamento.
  • Realizar os exames de rastreamento de acordo com a idade, os fatores de risco e a orientação médica.

Pontos importantes

  • câncer colorretal é um dos poucos tipos de câncer que pode ser prevenido pela identificação e remoção de pólipos durante a colonoscopia.
  • A doença pode não causar sintomas nas fases iniciais.
  • A maioria dos casos está relacionada a fatores ambientais e ao estilo de vida.
  • Dietas ricas em fibras estão associadas à redução do risco.
  • Carnes processadas aumentam o risco de câncer colorretal.
  • O rastreamento salva vidas porque permite identificar lesões pré-cancerosas e diagnosticar a doença antes do aparecimento dos sintomas.

Curiosidades

  • Na maioria dos casos, o câncer colorretal leva cerca de 10 a 15 anos para se desenvolver a partir de um pólipo, o que torna o rastreamento altamente eficaz na prevenção.
  • A colonoscopia é um dos poucos exames capazes de diagnosticar e tratar a doença ao mesmo tempo, pois permite remover pólipos durante o procedimento.
  • Embora seja mais comum após os 50 anos, a incidência vem aumentando entre adultos com menos de 50 anos.
  • Nem todos os pólipos evoluem para câncer. Quando identificadas durante a colonoscopia, as lesões de maior risco podem ser removidas, interrompendo esse processo e reduzindo significativamente a chance de desenvolvimento da doença.

Com Assessorias

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