Apesar de seis em cada dez brasileiros avaliarem a própria saúde como ótima ou boa, a realidade expressa em dados acende um alerta: 63% da população está acima do peso e 42% não pratica nenhuma atividade física. A constatação vem do estudo A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos, realizado pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados.
A pesquisa, que ouviu presencialmente 2.015 pessoas a partir dos 16 anos em todas as 27 unidades da Federação, traz um diagnóstico preocupante sobre fatores de risco modificáveis para o câncer. O levantamento apontou ainda que 26% dos entrevistados sofrem de obesidade, índice calculado com base nos parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre a parcela que declara praticar exercícios físicos, a média de frequência é de apenas 2,4 dias por semana. De acordo com o patologista Victor Piana, CEO do A.C.Camargo Cancer Center, a inatividade física é um perigo silencioso.
O excesso de peso é hoje reconhecido pela ciência como fator de risco para mais de dez tipos de câncer, entre eles, os de intestino, mama, pâncreas e esôfago. Ou seja: seis em cada dez brasileiros carregam, sem perceber, um dos principais fatores de risco da doença”, alerta o médico. “Quem não se movimenta abre mão de uma das ferramentas de prevenção mais baratas e acessíveis que existem.”
O paradoxo do álcool e a falsa sensação de bem-estar
Um dos achados mais marcantes da pesquisa aponta para a relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e a autoavaliação de saúde. O levantamento mostra que 58% dos brasileiros declaram não beber, 30% consomem álcool de um a dois dias por semana e 5% relatam beber de cinco a sete dias semanais.
O dado alarmante é que a percepção positiva sobre a própria saúde é mais elevada justamente no grupo de maior consumo alcoólico: 64% de quem bebe de cinco a sete dias por semana considera sua saúde ótima ou boa, frente a 58% entre os abstêmios.
A OMS classifica o álcool como uma substância sabidamente cancerígena, diretamente ligada ao desenvolvimento de tumores de boca, garganta, esôfago, fígado, intestino e mama — risco agravado substancialmente quando associado ao tabagismo.
Segundo a análise dos pesquisadores, o fenômeno expõe o perigo da falsa percepção de saúde: a socialização e o relaxamento associados ao consumo frequente de álcool fazem com que a pessoa confunda o “sentir-se bem” momentâneo com estar efetivamente saudável.
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Desigualdade socioeconômica no acesso à alimentação saudável
No campo da alimentação — pilar fundamental na prevenção do câncer de intestino —, 66% dos entrevistados relatam consumir alimentos frescos (como frutas, verduras, legumes, ovos e carnes) seis dias ou mais por semana. Em contrapartida, bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras aparecem na rotina em cerca de dois dias por semana.
Apesar desse indicador positivo, metade da população enfrenta barreiras concretas para manter uma dieta equilibrada:
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29% apontam o preço elevado de carnes frescas, frutas e vegetais;
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21% citam a falta de tempo e o cansaço decorrente da rotina diária.
A disparidade socioeconômica dita o peso dessas barreiras. Entre as pessoas que ganham até um salário mínimo, o custo dos alimentos trava a alimentação saudável de 40% das famílias. Já na faixa com rendimento superior a cinco salários mínimos, o obstáculo financeiro despenca para 10%, dando lugar à falta de tempo como principal empecilho (39%).
Apesar dos desafios, Dr. Victor Piana reforça que a conscientização é a chave para a prevenção, uma vez que fatores como excesso de peso, sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool são totalmente modificáveis. “O maior risco do brasileiro não está no que ele sente, e sim no que ele não percebe. Cuidar dos hábitos hoje é a forma mais eficaz de reduzir as chances de um diagnóstico de câncer amanhã”, conclui.
Sobre a metodologia da pesquisa
O levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados realizou entrevistas presenciais (face a face) com 2.015 cidadãos a partir de 16 anos, abrangendo todas as 27 unidades da Federação. A amostragem seguiu cotas de sexo, idade, população economicamente ativa (PEA), região e condição do município.
A margem de erro máxima é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. O trabalho de campo ocorreu entre os dias 25 e 30 de junho de 2026, sob responsabilidade do estatístico Neale El-Dash (Conre 8656-A).
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