A campanha Maio Roxo conscientiza sobre o funcionamento do sistema digestivo e a saúde intestinal, que reflete no corpo como um todo — influenciando desde funções vitais básicas até as emoções e a saúde mental. De acordo com especialista, o risco de desenvolver câncer colorretal é uma realidade para pacientes que convivem com Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs) de longa duração.
O câncer colorretal é o segundo mais frequente no Brasil, e os números de internações e diagnósticos vêm batendo recordes no país. O que muitas pessoas não sabem é que quem convive com as chamadas DIIs — representadas principalmente pela doença de Crohn e pela retocolite ulcerativa — faz parte de um grupo que exige atenção redobrada.
O rastreamento regular por meio de exames de imagem, como a colonoscopia com biópsia, continua sendo o padrão-ouro para detectar qualquer alteração celular antes que ela se transforme em um tumor maligno. Por isso, o recado dos especialistas para este Maio Roxo é claro: controlar a inflamação hoje é prevenir o câncer de amanhã.
A inflamação constante altera o ambiente intestinal e pode favorecer o surgimento de células cancerígenas. Por isso, quem tem diagnóstico há mais de oito anos deve realizar colonoscopias periódicas com biópsias“, reforça Lucas Nacif, cirurgião gastrointestinal e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD).
Sistema imunológico desencadeia reação do intestino
O especialista explica que as DIIs são condições de caráter imunomediado, ou seja, provocadas por uma resposta exagerada e desregulada do próprio sistema imunológico. Elas causam episódios sucessivos de inflamação e cicatrização na mucosa do intestino. É exatamente esse ciclo contínuo que eleva o risco oncológico.
O processo altera o ambiente intestinal e faz com que a mucosa saudável desenvolva displasias (formações celulares alteradas) que, ao longo do tempo, podem se transformar em tumores malignos. Segundo ele, o risco de desenvolvimento do câncer colorretal em pacientes com DIIs está diretamente associado a três fatores principais:
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Tempo de evolução: o risco cresce de forma significativa em pacientes com diagnóstico há mais de 8 a 10 anos;
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Extensão da doença: quanto maior a área afetada (como os casos em que a inflamação atinge todo o cólon), maior é a probabilidade de mutações celulares;
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Gravidade das crises: a falta de tratamento adequado mantém a inflamação ativa por longos períodos, acelerando as lesões estruturais.a
Diagnóstico tardio é o principal desafio
Um dos maiores desafios enfrentados por médicos e pacientes é o diagnóstico tardio. Por serem parecidas com distúrbios intestinais comuns, as DIIs são frequentemente negligenciadas no início. Sinais como dor e sangramento acabam sendo normalizados pelo paciente, permitindo que a inflamação avance por anos sem o tratamento correto.
A gastroenterologista Camila Coradi, do Hospital Orizonti, detalha que fatores como a industrialização, o estilo de vida moderno, a obesidade e as alterações na microbiota intestinal têm impulsionado a incidência das doenças no Brasil, atingindo principalmente jovens de 15 a 40 anos, mas também idosos acima de 60 anos.
É fundamental que a população esteja atenta aos sinais de alarme, como dor abdominal persistente, diarreia com mais de quatro semanas de duração, perda de peso inexplicada e sangramento nas fezes. Se diagnosticarmos e tratarmos a DII precocemente, podemos evitar complicações graves, como estenoses, fístulas, cirurgias e até mesmo o desenvolvimento de câncer“, alerta a médica.
Ela explica que o diagnóstico é complexo e funciona como um quebra-cabeça. Ele requer uma avaliação detalhada que inclui anamnese, exames laboratoriais, exames de imagem e avaliações endoscópicas com biópsias, como a endoscopia e a colonoscopia.
É fundamental que a população esteja atenta aos sinais de alarme, como dor abdominal persistente, diarreia com mais de quatro semanas de duração, perda de peso inexplicada e sangramento nas fezes. Se diagnosticarmos e tratarmos a DII precocemente, podemos evitar complicações graves, como estenoses, fístulas, cirurgias e até mesmo o desenvolvimento de câncer”, alerta a médica.
Sinais de alerta: fique de olho no banheiro
O formato das fezes e a frequência das idas ao banheiro são os primeiros indícios de que algo não vai bem. Dr. Lucas Nacif ressalta que as pessoas tendem a normalizar disfunções intestinais por muito tempo.
Qualquer alteração deve ser avaliada e investigada o quanto antes. Muitas pessoas acreditam que é normal ficar dias sem evacuar e acabam procurando ajuda apenas quando estão com o intestino solto demais, a famosa diarreia, mas ambos os casos são preocupantes e precisam de acompanhamento”, adverte Nacif.
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Tratamento e a necessidade de cirurgia
Embora as doenças inflamatórias intestinais não tenham cura definitiva, o tratamento adequado permite controlar a inflamação, aliviar os sintomas e devolver a qualidade de vida ao paciente. As terapias envolvem:
- Mudanças na dieta e manejo do estresse;
- Medicamentos convencionais e imunossupressores;
- Avanços com medicamentos biológicos.
Apesar da evolução dos medicamentos, entre 30% e 50% dos pacientes com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa precisarão passar por alguma intervenção cirúrgica ao longo da vida. As cirurgias são indicadas em casos avançados, resistência aos remédios ou diante de complicações como obstruções, hemorragias graves, fístulas complexas e suspeita de tumores.
Os procedimentos cirúrgicos mais comuns incluem:
- Ressecção intestinal: remoção do segmento do intestino que está comprometido;
- Colectomia parcial ou total: retirada de partes ou de todo o cólon em inflamações extensas;
- Proctocolectomia com bolsa ileal (pouch): indicada principalmente na retocolite ulcerativa;
- Estomas (ileostomia ou colostomia): desvios intestinais temporários ou permanentes.
A ideia de cirurgia ainda assusta muitos pacientes, mas em diversos casos ela é a única maneira de garantir qualidade de vida e prevenir complicações fatais”, esclarece o cirurgião.
Monitoramento constante afasta o risco
Tratamento adequado é possível manter a doença (DIIs) sob controle e garantir qualidade de vida ao paciente
Embora as doenças inflamatórias intestinais não tenham cura definitiva, o controle rigoroso da inflamação é a estratégia mais eficaz para afastar o risco de câncer. O tratamento atual envolve desde mudanças na dieta e manejo do estresse até o uso de medicamentos convencionais, imunossupressores e terapias biológicas modernas.
Ainda assim, as lesões acumuladas fazem com que entre 30% e 50% dos pacientes com Crohn ou retocolite necessitem de intervenção cirúrgica ao longo da vida para remover os segmentos intestinais comprometidos (como ressecções e colectomias) ou tratar fístulas e obstruções.
O recado final dos especialistas para este Maio Roxo é claro: ouvir os sinais do próprio corpo e buscar ajuda médica especializada é o caminho mais seguro para proteger a saúde do intestino.
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