O cenário da longevidade no Rio de Janeiro ganhou um alerta vermelho e urgente. As notificações de abusos e maus-tratos contra a população 60+ saltaram de 2.386 casos em 2024 para 2.967 em 2025 — um preocupante aumento de 24% no território fluminense.

Os dados fazem parte do painel “Cenário da Violência contra a Pessoa Idosa”, divulgado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) nesta segunda-feira (15 de junho), Dia Mundial de Combate à Violência contra a Pessoa Idosa.

O recorte de gênero mostra que a violência tem rosto: o rosto feminino. Das vítimas registradas no último ano, 2.002 eram mulheres idosas, o que representa mais de 71% dos casos.

O endereço da dor: a face oculta da negligência doméstica

Os dados acendem um sinal de alerta grave sobre onde e como nossos longevos estão vivendo. O maior perigo para o idoso no Rio de Janeiro hoje não está na vulnerabilidade das ruas, mas no silêncio do próprio lar.

A análise estatística promovida pelo Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Pessoa Idosa (CAO) trouxe à tona o peso da violência intrafamiliar.

Do total de registros em 2025, 2.816 pessoas idosas foram vítimas diretas de violações, sendo que a esmagadora maioria delas ocorreu na própria residência da vítima: foram 2.154 casos reportados dentro de casa.

Negligência é acentuada por desigualdades sociais

Boa parte das violações aos direitos dos idosos ocorre dentro de casa (Foto: Daniel Mello / Agência Brasil)

A principal vilã apontada pelo relatório é a negligência — caracterizada pela falta de atenção, omissão de cuidados básicos e privação de assistência à saúde —, que responde sozinha por 29% de todas as denúncias que chegam aos promotores fluminenses.

De acordo com o coordenador do CAO, o promotor de Justiça Luiz Cláudio Carvalho, o avanço da idade e o consequente declínio funcional deixam o idoso mais exposto ao abandono.

A perda de independência e autonomia tem relação direta com o aumento de casos de abandono e negligência identificados pelo Ministério Público”, avalia .

O painel estadual joga luz também sobre um abismo social: o Estado precisa intervir porque muitas famílias não possuem condições financeiras nem estrutura emocional para absorver a rotina complexa de cuidados de um idoso dependente, gerando um ciclo nocivo de esgotamento e abandono.

Golpes financeiros migram para o digital

Além do sofrimento físico e da omissão de amparo, o topo das violações patrimoniais vem mudando de formato. A vulnerabilidade dos mais velhos tem sido explorada por quadrilhas especializadas e abusos familiares por meio de telas.

A violência não é apenas física, mas se dá por meio de fraudes e, cada vez mais, de crimes cibernéticos”, adverte o procurador-geral de Justiça, Antônio José Campos Moreira. “Precisamos conscientizar a sociedade sobre a importância do respeito aos direitos das pessoas idosas, assim como também é necessário estimular o poder público para que seja fornecido atendimento digno a essa parcela da população, com a oferta de uma rede de apoio estruturada”.

Os crimes digitais, que envolvem engenharia social, empréstimos consignados falsos e transferências bancárias fraudulentas via Pix, retiram não apenas o sustento financeiro e os benefícios previdenciários do idoso, mas destroem sua saúde mental, gerando quadros profundos de depressão e isolamento social.

Subnotificação esconde a dimensão real do problema

Embora a alta de 24% nos indicadores assuste, as autoridades do Rio fazem uma ressalva importante: o número real de idosos sofrendo abusos no estado é ainda maior. Existe uma enorme camada de invisibilidade provocada pela subnotificação. Por vergonha do julgamento social, medo de represálias ou mesmo laços de dependência afetiva com o filho ou neto agressor, muitos idosos preferem calar e sofrer sozinhos.

A campanha  Junho Violeta atua exatamente para romper esse pacto de silêncio familiar. Monitorar as estatísticas não basta se não mudarmos a cultura do etarismo que nos cerca. Garantir que a extensão da vida seja vivida com autonomia é um dever coletivo — que envolve o acolhimento do poder público, a vigilância de vizinhos e a presença afetiva da comunidade.

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Agenda Positiva

TJRJ realiza ação social com serviços gratuitos para a população idosa

Para além dos dados urgentes de combate à violência, o fortalecimento da cidadania e o acesso a direitos básicos surgem como ferramentas cruciais de proteção. Em sintonia com as demandas do Junho Violeta, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) realiza, nesta quarta-feira (17) a segunda edição da ação social Justiça para a Pessoa Idosa.

O evento ocorre das 10h às 17h, na parte externa da Lâmina III do Fórum Central, e é promovido pela Secretaria-Geral de Sustentabilidade e Responsabilidade Social (SGSUS) em parceria com a Coordenadoria Judiciária de Articulação das Varas da Infância e da Juventude e do Idoso (Cevij). Ao todo, 34 instituições parceiras estarão presentes para oferecer uma ampla rede de serviços gratuitos voltados ao público 60+.

O mutirão social contará também com um espaço de debate qualificado: uma roda de conversa integrada por especialistas em geriatria e gerontologia. O painel educativo é fruto de uma cooperação técnica com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), focado em orientar a população sobre prevenção à violência e os cuidados com o envelhecimento saudável.

A mobilização social do Judiciário responde a um cenário demográfico sem volta. Dados consolidados do último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a população brasileira com 60 anos ou mais atingiu a marca de 32,1 milhões de pessoas — saltando de 10,8% do total de habitantes em 2010 para 15,6% em 2022. Esse crescimento de 56% no contingente de longevos reforça a necessidade de criar mecanismos práticos que tirem os idosos da invisibilidade.

Entre os destaques da programação estão:

  • Cidadania e documentação: Emissão de registro tardio de nascimento, atendimento da Receita Federal, serviços da Fundação Leão XIII e balcão de oportunidades do Sistema Nacional de Emprego (Sine).

  • Apoio jurídico: Orientações e atendimentos conduzidos por equipes da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

  • Justiça itinerante: Realização de audiências rápidas e celebrações programadas de casamentos.

  • Saúde e qualidade de vida: Atendimentos preventivos de saúde, orientação para o retorno aos estudos de jovens e adultos, além de distribuição gratuita de livros para o incentivo à leitura.

 

Como pedir ajuda e denunciar no Rio de Janeiro

Se você suspeita, testemunha ou é vítima de negligência, violência psicológica, financeira ou física, utilize os canais de denúncia. O registro é seguro e sigiloso:

  • Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ): Basta ligar para o telefone 127 (canal direto da Ouvidoria do MP) ou acessar o portal oficial do órgão.

  • Disque 100: Serviço gratuito e anônimo do Governo Federal para violações de direitos humanos, com prioridade de atendimento técnico para o público idoso.

  • Emergências: Havendo risco iminente à vida ou integridade física, acione imediatamente a Polícia Militar (190) ou o Samu (192).

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Com informações da Agência Brasil (Douglas Corrêa) e do TJRJ.

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