O Brasil está envelhecendo rápido. Em 2016, o país tinha a quinta maior população idosa do mundo. Em pouco mais de uma década, o número de pessoas com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões. As projeções indicam que, em 2030, o número de pessoas idosas deverá ultrapassar o de crianças de 0 a 14 anos, mudança demográfica conhecida como “inversão da pirâmide etária”.

Mas esse bônus da longevidade traz consigo uma pergunta incômoda e urgente: como estamos cuidando de quem já cuidou tanto de nós? Os números do Disque 100 assustam: das mais de 657 mil denúncias de violações de direitos humanos registradas no último ano, 179,6 mil tiveram como alvo as pessoas idosas.

Para ajudar a romper com esse ciclo de violência,  neste 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, o Governo Federal anunciou a criação da Rede de Proteção aos Direitos da Pessoa Idosa, uma tentativa de costurar ações entre União, estados e municípios (saiba mais no fim do texto).

Campanha de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa

O Junho Violeta é uma campanha mundial que alerta a sociedade sobre as diversas formas de violência, incluindo agressões físicas, psicológicas, negligência, abandono, exploração e violência patrimonial e outras violações de direitos.

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) faz um alerta essencial: precisamos parar de achar que violência é apenas a marca física na pele. A preocupação com a invisibilidade do problema é tão grande que a SBGG nacional está lançando uma grande Campanha de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa. Desenvolvida por um grupo multidisciplinar, a iniciativa vai articular ações educativas por todo o país ao longo de um ano…”

Falar sobre violência contra a pessoa idosa também é falar sobre cuidado. Muitas vezes, a violência aparece justamente quando deixamos de reconhecer a autonomia, a história e o direito dessa pessoa de participar das próprias decisões. Muitos desses comportamentos violentos ainda são naturalizados nas relações familiares, e precisamos ampliar esse entendimento na sociedade”, afirma a assistente social Maria Angélica Sanchez, especialista em Gerontologia e membro do Conselho Consultivo Pleno da SBGG.

A violência que se esconde no ambiente doméstico

Entre as violações mais recorrentes estão negligência, exposição de risco à saúde, tortura psíquica, maus-tratos, abandono, constrangimento e violência patrimonial. O dado mais doloroso desse relatório não está na quantidade, mas no endereço: a esmagadora maioria das agressões acontece dentro de casa, praticada por filhos, netos, parentes ou cuidadores muito próximos.

A violência também está na negligência, no abandono, na humilhação, no isolamento forçado, no controle do dinheiro, na infantilização e na retirada da autonomia”, desabafa Marília Berzins, especialista em gerontologia e diretora da SBGG-SP. “Muitas vezes, ela acontece de forma silenciosa, dentro de casa, praticada por pessoas próximas, e por isso é tão difícil de ser identificada e enfrentada.”

A violência pode assumir diferentes formas. Entre elas estão agressões físicas, violência psicológica ou moral, abuso sexual, exploração financeira, negligência, abandono, restrição de liberdade, privação de medicamentos, alimentação inadequada, falta de higiene, impedimento de acesso a consultas e apropriação indevida de benefícios, aposentadorias ou patrimônio.

Foco no etarismo e na violência estrutural

O grande vilão por trás do cenário de violência contra os idosos no Brasil é o etarismo — o preconceito de idade que desvaloriza a palavra do idoso, minimiza sua dor e faz com que a família tome decisões por ele, sem ouvi-lo. Proteger não significa enclausurar ou controlar. Cuidar é manter vivo o direito de escolha, respeitando a história, os desejos e a independência de quem está envelhecendo.

Ainda é difícil identificar e discutir a violência contra pessoas idosas porque muitos preconceitos relacionados ao envelhecimento continuam profundamente presentes na nossa cultura. Precisamos superar a ideia de que determinadas situações são naturais do envelhecimento. Combater a violência também significa enfrentar o etarismo, qualificar profissionais, apoiar as famílias e construir uma sociedade que enxergue o envelhecimento com mais respeito e responsabilidade coletiva”, destaca  socióloga Vania Beatriz Herédia, doutora em História e membro da Comissão de Normas da SBGG.

Por um envelhecimento digno e livre de violência

O papel aceita tudo: fala-se em federalismo cooperativo, diagnósticos e planos de ação. Mas, na prática da vida real, a verdadeira proteção nasce do olhar atento no dia a dia, porque a dor da violência contra o idoso raramente grita; ela costuma sussurrar.

A violência contra a pessoa idosa é uma questão de segurança pública que exige atenção urgente. Os casos vêm crescendo ano após ano, o que torna fundamental o engajamento coletivo por um envelhecimento digno e livre de violência.

Junho Violeta quebra o silêncio que adoece nossos longevos e reforça a urgência do cuidado real. Mais do que monitorar números e criar redes governamentais, precisamos combater o etarismo dentro de casa e garantir o direito a uma longevidade ativa, digna e feliz.

Viver mais só faz sentido se houver dignidade, afeto e autonomia — bandeiras que o portal Vida e Ação defende, por meio do projeto Saúde Sem Idade, lançado no Rio de Janeiro em parceria com o site Comida na Mesa para promover a longevidade ativa e saudável.

Como vai funcionar a Rede de Proteção aos Direitos da Pessoa Idosa

A Rede de Proteção aos Direitos da Pessoa Idosa foi criada através da Portaria nº 1.058/2026, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania com a finalidade promover ações coordenadas para assegurar o acesso a direitos, com base nos princípios da equidade, da não discriminação e do respeito à diversidade das etapas de envelhecimento. A adesão à rede será voluntária e cada instituição ficará responsável pelos custos decorrentes de sua participação.

Entre as atribuições da rede estão:

  • promoção do federalismo cooperativo;
  • incentivo à elaboração de diagnósticos sobre o envelhecimento da população;
  • fortalecimento da participação social;
  • apoio a fóruns e entidades voltadas à defesa dos direitos das pessoas idosas.

A portaria estabelece ainda que os participantes deverão compartilhar informações, monitorar políticas públicas e apresentar planos de ação alinhados às diretrizes da rede. A coordenação da iniciativa caberá à Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, em parceria com o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. 

Números sobre a violência contra a pessoa idosa no Brasil

  • Segundo dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH/MDHC) entre janeiro de 2024 e abril de 2026, foram registradas mais de 435 mil denúncias relacionadas a violações de direitos de pessoas idosas em todo o país. 
  • No mesmo período, foram contabilizadas mais de 2,5 milhões de violações de direitos, evidenciando a complexidade e a recorrência das agressões sofridas por essa parcela da população.
  • Já nos primeiros quatro meses de 2026, foram contabilizadas 75.700 denúncias, contra 58.296 no mesmo período de 2025, o que representa um aumento de 29,85%.
  • As mulheres idosas aparecem como as principais vítimas das denúncias registradas, somando mais de 273 mil ocorrências, com maior concentração na faixa etária entre 70 e 74 anos.

Sinais de alerta: quando o corpo e a alma pedem socorro

Como as vítimas muitas vezes sentem vergonha, medo de retaliação ou dependem emocional e financeiramente do agressor, o silêncio se prolonga. Por isso, vizinhos, amigos e profissionais de saúde precisam estar atentos a mudanças bruscas de comportamento. Fique atento se um idoso apresentar:

  • Isolamento e medo: Ficar excessivamente calado, triste ou demonstrar nervosismo e sobressalto perto de determinados familiares;

  • Sinais de negligência: Emagrecimento rápido sem motivo de saúde, desidratação, falta de higiene ou roupas inadequadas;

  • Abandono à saúde: Faltar constantemente a consultas médicas ou apresentar confusão e atrasos na tomada de remédios de uso contínuo;

  • Abuso financeiro: Sumiço de cartões bancários, assinaturas em papéis sem entendimento e privação de dinheiro para as necessidades básicas de sobrevivência.

Para tentar romper essa barreira, o Disque 100 passou por mudanças, trazendo uma nova central especializada e dando prioridade máxima para os casos envolvendo idosos, com o objetivo de acolher o relato sem fazer a pessoa reviver o trauma várias vezes (evitando a revitimização).

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Agenda Positiva

O afeto que cura: pontes entre gerações

Se a violência nasce do preconceito e do isolamento, a cura passa pela convivência e pela valorização da experiência. Felizmente, existem iniciativas que escolhem enxergar o idoso como protagonista de sua própria história.

O Instituto de Longevidade MAG, por exemplo, lançou uma cartilha prática para orientar a sociedade a identificar e agir diante de sinais de abuso, trazendo o tema para debates familiares de forma franca.

Já em Santa Catarina, o projeto intergeracional “De Guru para Guri”— promovido pelo Instituto Gene no Centro de Inovação Blumenau (CIB) — resolveu unir os dois extremos da vida. Jovens de escolas públicas e idosos da comunidade se reuniram para trocar vivências, e desse encontro nasceu o gibi O Guruzinho

Com recursos do Fundo Estadual da Pessoa Idosa (FEI/SC), a história em quadrinhos usa uma linguagem leve e divertida para falar sobre amizade, mercado de trabalho e o uso da tecnologia na terceira idade.

Para Malvina Juliane Ribeiro, coordenadora do programa De Guru para Guri, o lançamento de O Guruzinho simboliza o verdadeiro propósito do projeto.

O gibi é a prova de que o envelhecimento não é o fim de uma jornada, mas uma oportunidade de compartilhar legados. Cada página mostra que, quando jovens e idosos se encontram, nasce algo poderoso: respeito, aprendizado e transformação social”, afirma.

O lançamento faz parte do evento EnvelheSer 360°, que promove debates e oficinas para aproximar netos e avós. Quem quiser conhecer o projeto e se inscrever para acessar os materiais pode acessar o formulário oficial de inscrição.

Nesta segunda-feira, 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), o monumento ao Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, será iluminado em violeta, das 20h às 21h. O objetivo da iluminação realizada é reforçar a importância da proteção dos direitos da população idosa e valorizar sua presença e contribuição na sociedade.

Em São Paulo, o Plaza Sul Shopping, no bairro da Saúde, participa da campanha Junho Violeta, reforçando a conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa. Neste ano, o shopping se une ao Instituto Velho Amigo, que há 27 anos  atua na promoção do envelhecimento digno, ativo e saudável de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade social, desenvolvendo ações de acolhimento, inclusão e conscientização na campanha,

A campanha traz o tema “Silêncio. Uma escolha que não protege”, com o objetivo de incentivar a reflexão sobre a importância de identificar, denunciar e combater diferentes formas de violência contra a população idosa, reforçando a importância do cuidado, do respeito e da proteção às pessoas idosas.

Conheça o projeto SAÚDE SEM IDADE, criado por Vida e Ação e Comida na Mesa
‘Saúde Sem Idade’ reúne várias gerações por longevidade ativa

‘Denunciar é uma forma de proteção, não de exposição’

A SBGG-SP reforça que casos suspeitos ou confirmados de violência podem ser denunciados pelo Disque 100, serviço gratuito e disponível para registro de violações de direitos humanos. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar também os serviços de segurança pública e saúde.

Denunciar é uma forma de proteção, não de exposição. Muitas famílias têm medo, vergonha ou dificuldade de reconhecer que existe violência no próprio ambiente doméstico. Mas o silêncio prolonga o sofrimento. Precisamos fortalecer uma cultura de cuidado, corresponsabilidade e respeito aos direitos da pessoa idosa”, completa Marília.

Em 2025, o governo federal estabeleceu prioridade para denúncias de violência contra pessoas idosas no Disque 100, com protocolos específicos para acolhimento, escuta qualificada e encaminhamento dos casos. O atendimento deve evitar revitimização, preservar o livre relato e acionar serviços de urgência quando houver risco imediato.

Conheça o projeto Saúde Sem Idade

Como denunciar?

O Disque 100 é um canal da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH/MDHC) que funciona diariamente, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados, registra denúncias de violações, dissemina informações e orienta a sociedade sobre a política de direitos humanos. O serviço é gratuito, anônimo e funciona todos os dias da semana. Basta discar 100 em qualquer aparelho telefônico.

Pela internet, as denúncias podem ser feitas no site da Ouvidoria, pelo WhatsApp (61) 99611-0100 ou Telegram. O serviço também dispõe de atendimento na Língua Brasileira de Sinais (Libras), no site da Ouvidoria; basta digitar no navegador: www.gov.br/mdh/pt-br/ondh.

Envelhecer não é perder o direito de brilhar, de aprender ou de inspirar. Denunciar a violência é um ato de amor e de preservação do futuro de todos nós. Se você suspeita ou testemunha qualquer situação de abuso, ligue para o Disque 100. Em casos de perigo imediato, não hesite em chamar a Polícia Militar (190) ou o Samu (192).

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Com Assessorias e Agência Brasil

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