Quando Walter Benjamin escreveu A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, em 1936, diagnosticou o declínio de algo fundamental para a cultura ocidental: a aura. Para o filósofo alemão, a aura era o sopro de unicidade, a presença irrepetível no tempo e no espaço, a autoridade sacra do objeto autêntico. Com a chegada da fotografia e do cinema — tecnologias capazes de multiplicar infinitamente o original —, a obra perdeu o seu lugar sagrado e se democratizou. A cópia, por natureza, profanou a aura.

Avançamos quase um século e nos deparamos com um fenômeno linguístico e comportamental intrigante. Nas redes digitais, especialmente entre os jovens da Geração Z e da Geração Alfa, popularizou-se a expressão “farmar aura” (ou “ter aura”). Na gíria da internet — emprestada do universo dos videogames, onde farmar significa acumular recursos repetidamente —, a aura passou a designar o carisma, o estilo, a presença marcante ou a postura inabalável de alguém. Atitudes autênticas ganham “pontos de aura”; deslizes morais ou situações constrangedoras fazem a pessoa “perder aura”.

À primeira vista, pode parecer um mero modismo vocabular. No entanto, o encontro entre a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt e o algoritmo do TikTok revela uma profunda e irônica transformação cultural sobre como percebemos a subjetividade humana na era da inteligência artificial e das mídias sociais.

A ironia da aura encenada

A grande ironia histórica é que, se para Benjamin a tecnologia destruía a aura ao eliminar a singularidade, no ambiente digital contemporâneo a aura só existe porque é reproduzida.

Ninguém “farma aura” no isolamento absoluto. O ato de acumular essa reputação estética exige o registro, a captura do ângulo correto, a edição precisa e, fundamentalmente, a circulação em massa. A experiência que deveria ser singular e espontânea passa a ser cuidadosamente calculada e encenada para a câmera. Trata-se da mercantilização da própria autenticidade: o sujeito transforma a sua presença em um ativo de capital social, um fluxo contínuo de conteúdo projetado para gerar fascínio. É a corrida atrás de “likes” para gerar engajamento.

Se a obra de arte clássica emanava aura por sua raridade e distância, o indivíduo hiperconectado tenta simular essa mesma distância e mistério por meio de uma curadoria minuciosa de sua imagem. Agora, trata-se da gestão algorítmica da presença, onde a aura virou pontuação.

O papel da educação e a curadoria do ser

Para quem pensa a educação, a mídia e a formação das novas gerações, esse movimento não deve ser encarado com mero desdém adultocêntrico. Ele expressa uma busca legítima — ainda que mediada pelo consumo de plataformas — por singularidade em um mundo saturado de réplicas, dados e simulações.

Se a inteligência artificial generativa pode clonar vozes, sintetizar rostos e replicar estilos artísticos em segundos, a obsessão dos jovens por “ter aura” nada mais é do que um grito pelo que é humano, visceral e insubstituível. Há um desejo implícito de não ser apenas mais um perfil padronizado pelo algoritmo.

O desafio posto à educação midiática e ao pensamento crítico é ajudar essa juventude a compreender as engrenagens dessa engenhosa ilusão. A verdadeira aura — a integridade da experiência humana, o olhar atento ao outro, a presença real no território e a capacidade de espanto diante do mundo — não se acumula como pontos em um jogo de videogame, nem se valida pelo contador de curtidas.

A aura autêntica não pode ser “farmada” em uma tela; ela é cultivada na vida vivida fora dela.

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