Quase metade das crianças e adolescentes do mundo — o equivalente a 1,1 bilhão de indivíduos — está exposta a pelo menos três riscos climáticos simultâneos que ameaçam diretamente sua saúde, educação e sobrevivência. Os dados alarmantes são do Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
De acordo com o estudo global, praticamente todas as crianças do planeta enfrentam hoje ao menos uma ameaça climática, enquanto mais de 4 milhões delas sofrem com até seis vulnerabilidades ambientais diferentes.
O cenário crítico no Brasil e no mundo
No território nacional, a realidade se mostra severa: 16 milhões de crianças e adolescentes (o equivalente a 3 em cada 10) estão expostos a três ou mais riscos climáticos, com destaque para as ondas de calor e as secas prolongadas. Se analisarmos a exposição a dois ou mais riscos, o número salta para mais de 30 milhões de jovens brasileiros (6 em cada 10) convivendo diariamente com o perigo.
O relatório mapeou a intensidade de oito grandes ameaças globais: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes de rios, tempestades de areia/poeira e tempestades tropicais. A combinação mais frequente e devastadora no mundo une a seca ao calor extremo e às ondas de calor, afetando diretamente 296 milhões de menores.
Além dos fatores meteorológicos, o Unicef incluiu variáveis de saúde pública sensíveis às transformações ambientais. No Brasil, o cenário é agravado pela poluição atmosférica, que atinge 95% da população infantojuvenil (47 milhões de jovens), e pela exposição de 5,6 milhões de crianças à malária.
Crise climática e o conceito de Saúde Única (One Health)
Os dados trazidos pelo Unicef acendem um alerta crucial sobre a urgência de encararmos a crise climática sob a perspectiva da Saúde Única (One Health). Este conceito reforça que a saúde humana, a saúde animal e a saúde do meio ambiente estão intrinsecamente interligadas e são interdependentes.
O avanço do aquecimento global não apenas destrói ecossistemas e ameaça a fauna, mas gera reflexos diretos e desproporcionais no bem-estar e no desenvolvimento humano, sendo as crianças o elo mais vulnerável dessa corrente.
A proliferação de vetores de doenças (como os mosquitos transmissores da malária), a degradação da qualidade do ar e a insegurança alimentar provocada pelas secas demonstram claramente como o desequilíbrio ambiental adoece diretamente as futuras gerações.
Recomendações urgentes para o futuro
Para mitigar os impactos e salvaguardar os direitos das crianças, o Unicef listou ações prioritárias direcionadas a governos e tomadores de decisão:
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Cortes de emissões: Cumprimento rigoroso de acordos internacionais, com a eliminação progressiva de combustíveis fósseis e transição para fontes renováveis.
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Adaptação inclusiva: Inclusão de políticas focadas na infância dentro dos planos nacionais de adaptação climática e governança de riscos.
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Infraestrutura resiliente: Criação de escolas verdes e seguras, além de unidades de saúde e sistemas de saneamento preparados para resistir a eventos extremos.
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Participação jovem: Empoderamento e investimento na educação climática de jovens e crianças, garantindo o direito de serem ouvidos nas decisões que moldarão seus futuros.
Sem esforços urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, as ameaças climáticas vão se tornar mais frequentes e mais intensas”, conclui o documento oficial, reforçando a necessidade de investimentos imediatos em serviços públicos resilientes.
ONU alerta para secas e degradação da terra
Metade das pastagens naturais do planeta já está degradada ou sob risco
O Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, celebrado neste dia 17 de junho, traz um apelo urgente para a preservação dos solos globais. Em pronunciamento oficial, o secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou a importância vital das pastagens naturais — ecossistemas que cobrem metade da superfície terrestre, sustentam mais de dois bilhões de pessoas, fornecem alimentos e atuam como reguladores climáticos essenciais na absorção de carbono.
Atualmente, cerca de 50% dessas áreas estão degradadas ou severamente ameaçadas. Esse processo de desertificação coloca em xeque a segurança alimentar do planeta, destrói os meios de subsistência de comunidades locais, reduz a biodiversidade global e acelera a liberação de gases de efeito estufa na atmosfera.
Cooperação internacional e restauração
Este ano, as celebrações globais da data são sediadas pelo Quênia, em parceria com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). A convenção é um dos marcos históricos e legados diretos da Rio-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento), realizada no Rio de Janeiro.
Sob o tema “Reconhecer, respeitar e restaurar”, a campanha de 2026 coincide também com o Ano Internacional das Pastagens Naturais e dos Pastores, uma iniciativa para valorizar povos indígenas e comunidades tradicionais que detêm o conhecimento necessário para salvaguardar esses ambientes.
Para reverter esse cenário de degradação, a liderança da ONU aponta três caminhos imediatos:
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Investimento em recuperação: Foco prioritário na garantia de segurança hídrica para solos castigados.
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Capacitação comunitária: Geração de empregos sustentáveis para fixar e proteger o homem no campo.
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Ações além-fronteiras: Fortalecimento da cooperação internacional para enfrentar um problema que não respeita limites geográficos.
Para proteger o nosso futuro, temos de proteger a terra. Juntos e juntas, asseguremos que as pastagens naturais em todo o mundo prosperem para as gerações futuras”, concluiu António Guterres.
A mensagem do secretário-geral foi transmitida globalmente e o pronunciamento em vídeo está disponível no canal oficial da ONU no YouTube.
O nexo com a Saúde Única (One Health)
A destruição dos solos e o avanço da seca formam a base perfeita para o colapso dos sistemas que sustentam a vida, exemplificando de forma drástica o conceito de Saúde Única (One Health).
A degradação da terra corrói a saúde ambiental, o que impacta diretamente a saúde animal — pela perda de pastagens e habitats da vida selvagem — e culmina no adoecimento da população humana, privada de segurança hídrica e alimentar.
Trata-se de um ciclo vicioso onde o desequilíbrio do solo dita o aumento da pobreza, da fome e da vulnerabilidade social perante a crise climática.
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