O crescimento das apostas esportivas no Brasil trouxe para dentro das empresas um desafio que já não pode ser ignorado. Embora o hábito de apostar não seja caracterizado pela nova Norma Regulamentadora número 1 (a NR-1) como um risco psicossocial ocupacional, seus impactos sobre a saúde mental, a estabilidade financeira e o desempenho profissional dos trabalhadores vêm exigindo atenção crescente das áreas de Recursos Humanos. Para as empresas, o tema passa a integrar as discussões sobre prevenção, acolhimento e promoção do bem-estar no ambiente de trabalho.
Levantamento da Unifesp identificou 10,9 milhões de brasileiros que apostam de forma a gerar prejuízos emocionais, familiares ou profissionais. Em 1,4 milhão de casos, o padrão de comportamento já configura transtorno do jogo, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença mental com critérios clínicos definidos na CID-11. No INSS, os pedidos de auxílio-doença por ludopatia cresceram 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025, segundo levantamento do Intercept Brasil.
A advogada trabalhista Priscila Arraes Reino, fazer apostas online durante o expediente pode gerar demissão por justa causa, inclusive se o trabalhador estiver em home office enquanto joga, além de sofrer outras penalidades cabem nesses casos.
As apostas online representam um risco real para a saúde financeira e emocional de milhões de brasileiros. Quando o endividamento cresce, surgem consequências como ansiedade, estresse, depressão e perda da qualidade de vida. Em muitos casos, a situação chega a um ponto em que a pessoa deixa de priorizar despesas essenciais, incluindo cuidados com a própria saúde e a compra de medicamentos. Quando o endividamento compromete a renda, até mesmo a continuidade de tratamentos pode ser afetada.
30% dos trabalhadores brasileiros não adotam nenhuma prática de cuidado com a saúde mental.
Uma das contribuições menos discutidas no debate sobre bets é o papel dos dados de saúde populacional como instrumento de identificação precoce. A 3ª edição do Check-up de Bem-Estar da Vidalink, realizada com 11.600 trabalhadores de 250 empresas de grande porte entre janeiro e junho de 2025, identificou que 30% dos trabalhadores brasileiros não adotam nenhuma prática de cuidado com a saúde mental.
Entre os homens da Geração Z, esse índice chega a 39%. No varejo, o setor com maior exposição a jornadas longas e pressão financeira, 40% dos colaboradores declararam o mesmo. Para Gisele Caleffi, psicóloga especialista em saúde mental corporativa, esse dado ultrapassa a dimensão do comportamento preventivo.
‘Não fazer nada’ pode se tornar um forte indicador de adoecimento futuro, ou já refletir um sofrimento existente que o colaborador ainda tem dificuldade de reconhecer e nomear”.
O que acontece quando o vício chega ao expediente
No ambiente corporativo, o transtorno raramente se apresenta com clareza. Manifesta-se, primeiro, como queda de produtividade, gerando atrasos em entregas, erros frequentes, prazos perdidos e desinteresse progressivo pelas rotinas de trabalho. Em seguida surgem mudanças de comportamento como irritabilidade, oscilações de humor associadas a resultados de eventos esportivos e afastamento gradual da equipe.
O terceiro padrão, frequentemente o mais tardio a ser identificado pelos gestores, são os sinais de instabilidade financeira retratados em pedidos de adiantamento salarial, empréstimos informais entre colegas e dificuldades financeiras incompatíveis com o nível de renda do colaborador.
Para Gisele, o problema vai muito além do impacto financeiro. “Quando falamos sobre compulsão ou dependência em jogos de aposta, não estamos diante apenas de um problema de comportamento financeiro ou de autocontrole. A literatura mostra que o transtorno frequentemente está associado a quadros de ansiedade, depressão, uso de álcool e outras formas de sofrimento psíquico, tornando sua abordagem mais complexa”.
Segundo ela, muitas vezes, antes mesmo das perdas financeiras se tornarem evidentes, já existem sinais de sofrimento emocional, queda de concentração, prejuízos nas relações, presenteísmo e dificuldades de desempenho. “Identificar esses sinais precocemente e facilitar o acesso ao cuidado pode fazer toda a diferença”, afirma.
Empresas que dispõem de diagnósticos de saúde mental conseguem orientar ações antes de a crise se instalar, em vez de reagir ao afastamento, ao conflito ou ao pedido de demissão.
Da conscientização à estrutura
O caminho que a maioria das empresas ainda percorre ao enfrentar o tema é o da campanha pontual. Palestras em datas específicas, comunicados internos e rodas de conversa têm valor, mas efeito limitado quando não estão integrados a uma estrutura permanente de suporte.
Para Gisele Caleffi o que realmente gera impacto são estratégias estruturadas, com suporte real, desenvolvimento de lideranças, acompanhamento de indicadores e práticas consistentes incorporadas à cultura da empresa.
A psicoeducação realizada por especialistas é fundamental para que os colaboradores desenvolvam repertório e conduta adequada, tanto para se cuidarem quanto para apoiarem quem está ao redor”, acrescenta.
Gisele afirma ainda que a conscientização é uma ferramenta importante para ampliar a identificação precoce e facilitar a busca por ajuda especializada. “Ainda existe muito desconhecimento sobre a dependência em jogos, tanto por parte das pessoas que sofrem com o problema quanto das famílias, lideranças e da sociedade em geral. Melhorar a educação sobre o tema é essencial para reduzir seus impactos pessoais, familiares, sociais e profissionais”.
De acordo com a especialista, não existe uma solução única para o problema. “O tratamento deve ser individualizado e considerar a história, a gravidade do quadro e as possíveis comorbidades presentes. Em alguns casos, o tratamento medicamentoso pode ser indicado, especialmente quando existem sintomas significativos de ansiedade, depressão ou alterações de humor associados ao transtorno. Estudos apontam resultados positivos com o uso de antidepressivos e estabilizadores de humor em alguns pacientes, uma vez que a melhora está frequentemente relacionada ao alívio dessas condições que coexistem com o comportamento de jogar”.
Ela ressalta, porém, que a indicação medicamentosa deve ser sempre realizada por um médico, a partir de uma avaliação clínica cuidadosa. “O medicamento, quando prescrito, trata parte do sofrimento. Mas a recuperação exige olhar também para aquilo que o jogo estava tentando anestesiar. Muitas vezes, a aposta não é apenas o problema. Ela também pode ser uma tentativa de lidar com dores emocionais, ansiedade, vazio, estresse ou outras formas de sofrimento que precisam ser compreendidas e cuidadas”, acrescenta.
Quando o tratamento medicamentoso é indicado, o acesso aos medicamentos e a continuidade da terapia tornam-se fatores importantes para a adesão e a recuperação. Nesse contexto, benefícios corporativos voltados para saúde podem contribuir para reduzir principalmente barreiras financeiras.
A saúde mental exige continuidade de cuidado. Quando o colaborador encontra dificuldades financeiras para seguir o tratamento, as chances de interrupção aumentam. O acesso facilitado aos medicamentos é um dos pilares para garantir que esse cuidado seja sustentado ao longo do tempo”, diz Luis.
A recuperação depende de uma abordagem mais ampla, que inclui acompanhamento psicológico, fortalecimento da motivação para a mudança, apoio social e estratégias de prevenção de recaídas. “A motivação para a mudança é um dos fatores mais importantes para a adesão e o sucesso do tratamento”, conclui.
Para Luis Gonzalez, CEO e cofundador da Vidalink, o cenário impõe uma revisão do que se entende por benefício corporativo. “Saúde financeira, saúde mental e produtividade estão profundamente conectadas, e ignorar essa relação significa deixar de enfrentar uma das principais ameaças ao bem-estar dos trabalhadores atualmente”, afirma.
Empresas que já investem em plataformas integradas de bem-estar, com apoio à saúde mental e acesso facilitado a medicamentos, estão mais preparadas para enfrentar esse desafio. Por isso, oferecer uma rede de cuidado completa é fundamental para proteger os colaboradores antes que os impactos do vício se tornem mais graves.
O RH precisa oferecer soluções personalizadas que dialoguem com as vulnerabilidades reais dos colaboradores. Não se trata de invadir a vida pessoal, mas de reconhecer que o trabalho é parte da vida e precisa acolher os desafios que vêm junto com ela”, afirma.
Cartilha para conscientiza trabalhadores sobre os riscos das Bets
Há duas versões do material, uma com linguagem voltada aos alunos de escolas e outra para levar às empresas e orientar os trabalhadores da indústria
Com foco na prevenção e na promoção da saúde financeira e emocional, o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) lançam duas cartilhas educativas sobre os riscos das apostas on-line, conhecidas como Bets, para estudantes e trabalhadores da indústria.
As publicações apresentam, em linguagem acessível, informações sobre o funcionamento das apostas digitais e os impactos na saúde mental, nas finanças, nas relações familiares e no desempenho escolar e profissional. O material também aborda temas como educação financeira, tomada de decisões conscientes e a importância de buscar apoio diante de sinais de perda de controle.
As Bets causam impactos relevantes na educação, na saúde e no trabalho. Entre os problemas identificados estão a falta de concentração dos alunos, a exposição precoce às apostas, consequências financeiras, como o endividamento, além de aspectos emocionais e perda de produtividade no trabalho”, pontua o diretor-superintendente do Sesi, Paulo Mól.
A cartilha “Escola” foi desenvolvida para estimular o diálogo entre estudantes, famílias e educadores, incentivando escolhas responsáveis e a prevenção desde a juventude. Já a versão “Indústria” trata dos reflexos das apostas no ambiente de trabalho, como dificuldades financeiras, queda de concentração, riscos à segurança e impactos na qualidade de vida dos trabalhadores.
Quando o trabalhador enfrenta dificuldades financeiras ou emocionais decorrentes das apostas, os reflexos podem chegar ao ambiente de trabalho, comprometendo a atenção, a segurança e a produtividade. Por isso, investir em informação e prevenção é uma forma de cuidar das pessoas e fortalecer a competitividade da indústria”, reforça o diretor geral do Senai, Leone Andrade.
Acesse as cartilhas nos links a seguir:
> Cartilha educativa: os perigos das Bets (Escola)
> Cartilha educativa: os perigos das Bets (Indústria)




