A expectativa de vida da população brasileira sofreu um recuo de 3,4 anos durante a pandemia de covid-19, impulsionada por um salto de 27,6% na mortalidade nacional. O dado alarmante integra a análise subnacional do Estudo Carga Global de Doenças (Global Burden of Disease – GBD), considerado o maior esforço científico global para mensurar o impacto de enfermidades e fatores de risco. O levantamento foi publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.

De acordo com os pesquisadores envolvidos no monitoramento, o severo retrocesso demográfico e sanitário está diretamente atrelado à postura negacionista adotada pelo governo federal no período mais crítico da crise sanitária. O relatório aponta que a rejeição ao distanciamento social, a disseminação ativa de desinformação, a promoção de terapias sem eficácia comprovada e o atraso deliberado na compra de vacinas — sob o pretexto de evitar um colapso econômico — minaram as diretrizes científicas e agravaram o total de óbitos no país.

Em 2023, as principais causas de morte no país permaneceram concentradas nas doenças isquêmicas do coração, seguidas pelo Acidente Vascular Cerebral (AVC) e por infecções respiratórias baixas. Contudo, o relatório emite um alerta severo sobre o perfil da mortalidade prematura no Brasil: a violência interpessoal continua sendo o principal fator de anos de vida perdidos precocemente, gerando uma perda estimada de 1.351 anos de vida a cada 100 mil habitantes devido a causas violentas.

O contraste entre o Norte e o Nordeste

O impacto da ausência de uma coordenação centralizada de saúde não se distribuiu de forma homogênea pelo território nacional, revelando profundas desigualdades regionais e políticas:

  • Região Norte (Maiores quedas): Os estados de Rondônia (-6,01 anos), Amazonas (-5,84 anos) e Roraima (-5,67 anos) lideraram as perdas de expectativa de vida. A região sofreu dramaticamente com o colapso dos sistemas de saúde e o isolamento logístico.

  • Região Nordeste (Menores quedas): Maranhão (-1,86 anos), Alagoas (-2,01 anos) e Rio Grande do Norte (-2,11 anos) registraram os menores recuos.

O desempenho substancialmente melhor do Nordeste é atribuído pela comunidade científica à criação do Consórcio Nordeste. Diante do vácuo de liderança do Ministério da Saúde, os governadores da região estruturaram um comitê científico independente. Essa articulação permitiu a implementação célere de medidas protetivas, tais como o fechamento programado do comércio, a obrigatoriedade do uso de máscaras, o monitoramento de dados em tempo real e políticas de suporte socioeconômico aos trabalhadores.

O estudo reforça que o Brasil apresentou um desempenho humanitário e sanitário inferior ao de seus pares no Mercosul (como Argentina e Uruguai) e no bloco dos BRICS (como Índia e China). O documento enfatiza o paradoxo de um país historicamente reconhecido por sua excelência em campanhas de imunização ter ficado para trás na vacinação contra a covid-19 devido à desorganização logística e à insistência governamental no chamado “tratamento precoce”.

Leia mais

Vacina da Covid-19 NÃO causa infertilidade, autismo, câncer nem HIV
As mentiras que os negacionistas contam sobre meio ambiente
Barrado de entrar nos EUA, ministro da Saúde critica negacionismo

Avanços estruturais e novos desafios

Apesar do forte impacto observado no período pandêmico, o estudo do GBD ressalta que o Brasil acumulou conquistas estruturais robustas em saúde pública nas últimas três décadas. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida do brasileiro cresceu 7,18 anos, enquanto a taxa de mortalidade padronizada por idade despencou 34,5%. No mesmo intervalo, os anos de vida saudáveis perdidos por morte ou incapacidade (DALYs) caíram 29,5%.

Esse avanço histórico é creditado a pilares socioambientais e de assistência médica:

  • Consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e capilaridade do Programa Saúde da Família (PSF).

  • Expansão do Programa Nacional de Imunizações (PNI) nas décadas avaliadas.

  • Melhorias socioeconômicas, com destaque para o crescimento econômico e a ampliação do saneamento básico.

A evolução permitiu a redução na taxa de mortalidade de quase todas as principais patologias crônicas e infecciosas. As raras exceções de crescimento foram a doença de Alzheimer e outras demências (alta de 1%) — impulsionadas pelo envelhecimento populacional — e a doença renal crônica (alta de 9,6%).

Participe do nosso canal no WhatsApp! Receba as principais notícias e análises sobre saúde, bem-estar e políticas públicas diretamente no seu celular. Clique aqui para entrar no canal do Portal Vida e Ação.

Fonte: Agência Brasil com Redação

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *