O leite materno é amplamente reconhecido pela ciência como o alimento mais completo e seguro para o desenvolvimento de um recém-nascido. No entanto, para milhares de bebês que nascem de forma prematura ou com baixo peso e precisam permanecer internados em UTIs neonatais, esse alimento deixa de ser apenas uma fonte de nutrição e passa a ser um recurso terapêutico vital.
No marco das celebrações do Dia Mundial de Doação de Leite Humano (19 de maio), completando 15 anos de mobilização global, o principal desafio enfrentado pelas autoridades de saúde brasileiras não é a capacidade técnica, mas sim a conscientização das lactantes para que evitem o desperdício do excedente de sua produção.
Para debater esse cenário e buscar soluções globais, a cidade do Rio de Janeiro sedia, entre os dias 18 e 21 de maio de 2026, o I Congresso da Rede Global de Bancos de Leite Humano. Organizado pela Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano da Fundação Oswaldo Cruz (rBLH-BR/Fiocruz), o evento traz como tema central os “15 Anos Promovendo Equidade e Resiliência”. O objetivo é promover uma profunda reflexão sobre os avanços, os gargalos históricos e as perspectivas para garantir que nenhum bebê desprovido de leite materno fique sem assistência.
O paradoxo do desperdício: leite jogado fora
O Brasil possui uma das redes de bancos de leite humano mais complexas e bem-estruturadas do mundo, somando mais de 230 unidades em operação. Apesar dessa capilaridade, os volumes coletados ainda se mostram insuficientes para atender a totalidade da demanda dos recém-nascidos internados.
De acordo com Danielle Aparecida da Silva, coordenadora da rBLH e do Banco de Leite Humano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), há um grave problema cultural de descarte inadequado.
É muito comum ver uma mulher que está produzindo muito leite jogar fora o excedente que seu bebê não consome. A gente precisa sensibilizar muito mais a sociedade para que ela se direcione aos bancos de leite. Temos que levar esse conhecimento a ela, para que não jogue fora, mas doe aos bancos de leite humano”, ressalta Danielle.
O banco de leite atua como um serviço de apoio integral à amamentação. Toda a produção excedente voluntariamente entregue passa por um rigoroso processo de seleção, classificação, processamento e controle de qualidade laboratorial antes de ser administrada aos bebês prematuros. O alimento atua diretamente no fortalecimento do sistema imunológico, acelera o desenvolvimento global da criança e é fator determinante para que o recém-nascido receba alta hospitalar mais cedo.
Sazonalidade e a proximidade do inverno preocupam
Outro obstáculo crônico apontado pela coordenação da Rede Global é a extrema flutuação no volume de doações ao longo do ano. Campanhas nacionais e o próprio Dia Mundial de Doação de Leite Humano impulsionam os estoques durante o mês de maio. Contudo, a tendência histórica aponta para uma queda acentuada logo em seguida, agravada drasticamente nos períodos de férias escolares e nas festividades de fim de ano.
O momento atual exige atenção redobrada. Com a aproximação do inverno, há um aumento sazonal significativo de doenças respiratórias na população infantil, o que eleva as internações hospitalares e multiplica o número de recém-nascidos receptores nas UTIs. Como o volume de doações tende a permanecer estável ou cair nessa mesma época, a conta não fecha, gerando cenários de desabastecimento crítico em diversas regiões.
O próprio Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira registra, em média, de 100 a 150 doadoras fixas mensais, produzindo um volume total de 100 a 150 litros por mês — montante que fica no limite do atendimento. Embora tenha havido um crescimento recente de 8% nas doações em âmbito nacional, o índice é considerado ineficiente diante da real necessidade dos hospitais.
Desigualdades regionais e o exemplo de autossuficiência
O panorama da doação de leite reflete as profundas desigualdades de infraestrutura do território nacional. Enquanto o Distrito Federal alcançou a histórica marca da autossuficiência — conseguindo coletar volume suficiente para suprir 100% da demanda de sua rede de bebês internados —, estados das regiões Sul, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, caminham firmes para consolidar essa sustentabilidade.
Em contrapartida, a vulnerabilidade impera nas regiões Norte e Nordeste. A grande maioria de seus estados conta com apenas um único banco de leite humano centralizado para cobrir toda a extensão territorial, configurando exceções apenas os estados do Amazonas e do Pará, que possuem estruturas ligeiramente mais amplas.
No estado do Rio de Janeiro, que sedia o congresso internacional, a infraestrutura é composta por 17 bancos de leite estrategicamente distribuídos. Fora do eixo da capital e região metropolitana, há unidades operando em Petrópolis (duas), Nova Friburgo, Campos e Volta Redonda. No entanto, mesmo com essa distribuição geográfica estruturada, as captações fluminenses não registraram aumento real no último período, mantendo-se estagnadas com viés de queda em determinados meses.
Serviço: Como ajudar e doar
Mulheres que estão amamentando, que possuem excesso de produção e que gozam de boa saúde podem entrar em contato com o banco de leite humano mais próximo para receber orientações sobre a coleta e o armazenamento correto do leite. Na maioria das cidades da rede, a retirada dos frascos é realizada em domicílio pelas próprias equipes dos hospitais ou com o apoio de órgãos parceiros, como o Corpo de Bombeiros, garantindo total segurança e comodidade à doadora. Consulte as unidades e saiba como doar no site oficial da Rede BLH.






