Em um cenário de avanços na medicina de transplantes, o Brasil alcançou em 2025 o maior número de transplantes já registrado em sua história. Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), nesta última quarta-feira (6), o país realizou 31 mil procedimentos ao longo do ano, um crescimento de 21% em relação a 2022, quando foram contabilizados 25,6 mil transplantes.
O transplante de córnea foi o mais realizado em 2025, com 17.790 procedimentos.  Entre os órgãos mais transplantados, o rim segue liderando o ranking nacional, com 6.697 cirurgias realizadas em 2025, alta de 5,9% em relação ao ano anterior. O fígado também bateu recorde, com 2.573 transplantes e crescimento de 4,8% na comparação com 2024. Em ambos os casos, o aumento foi impulsionado principalmente pelos transplantes realizados com doadores falecidos. Em seguida, aparecem os transplantes de medula óssea, com 3.993; fígado, com 2.573; e coração, com 427.

O avanço também se refletiu no número de doadores efetivos. Em 2025, o Brasil registrou 4.335 pessoas que doaram ao menos um órgão, o equivalente a 20,3 doadores por milhão de população (pmp), outro recorde histórico nacional. O número de notificações de potenciais doadores também atingiu sua maior marca: foram 15.940 notificações no período.

Apesar dos avanços, ainda há um desafio importante: a recusa familiar à doação de órgãos. Hoje, cerca de 45% das famílias não autorizam a doação, o que limita o número de transplantes que poderiam ser feitos. Essa é uma decisão que ocorre em momento difícil, de dor e impacto emocional. Por isso, falar sobre o tema com a família faz diferença. Quando o desejo de ser doador é conhecido, a decisão se torna mais segura e pode ajudar a salvar outras vidas.

Parceria para agilizar o transporte aéreo de órgãos

O recorde histórico reflete o avanço da logística e da organização do sistema em todo o país, com o fortalecimento de parcerias institucionais e a ampliação do acesso dos pacientes aos transplantes. A consolidação da distribuição interestadual, coordenada pela Central Nacional de Transplantes, tem sido decisiva nesse processo.
Em 2025, essa estratégia viabilizou 867 transplantes renais, 375 hepáticos, 100 cardíacos, 25 pulmonares e quatro de pâncreas, contribuindo para atender prioridades clínicas e reduzir perdas de órgãos mais sensíveis ao tempo de isquemia.

Os resultados também refletem o esforço conjunto entre o Ministério da Saúde, companhias aéreas e a Força Aérea Brasileira (FAB) para garantir o transporte ágil de órgãos e equipes de captação e transplante. Em 2025, foram feitos 4.808 voos — um aumento de 22% em relação a 2022 —, o que contribui para que os órgãos cheguem a tempo ao destino, ampliando as chances de transplante e salvando mais vidas em diferentes regiões do país.

Houve também aumento no número de equipes de captação, o que contribui para ampliar a identificação de doadores. Esses profissionais passaram de 1.537, em 2022, para 1.600 em 2026. 

O Ministério da Saúde tem investido na qualificação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Entre as iniciativas está o Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Prodot), que prepara profissionais de saúde para identificar potenciais doadores, conduzir entrevistas com acolhimento às famílias e qualificar todo o processo de doação.

Mais de mil profissionais de saúde já se formaram nos estados de Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Tocantins, Distrito Federal, Mato Grosso, Goiás, Alagoas, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

Como funciona o sistema de transplantes pelo SUS

O acesso ao transplante de órgãos, tecidos ou medula óssea no Brasil ocorre por meio do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Para ingressar na lista de espera, o paciente deve ser encaminhado a um estabelecimento de saúde habilitado, onde passa por avaliação de equipe médica especializada e realiza os exames necessários. Confirmada a indicação para o transplante, a equipe responsável faz a inscrição do paciente no sistema, registrando também as características do doador compatível com o seu perfil clínico.

A lista de espera por transplantes é dinâmica e varia de acordo com a condição clínica dos pacientes e a disponibilidade de doadores compatíveis. O SNT passou por modernização nos últimos anos, com a incorporação de novas tecnologias e a ampliação do acesso aos serviços especializados. Entre essas iniciativas, destaca-se a Prova Cruzada Virtual, que permite avaliar previamente a compatibilidade entre doador e receptor, reduzindo o risco de rejeição e conferindo mais agilidade ao processo.

Em todos os casos, o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece aos pacientes toda a assistência necessária de forma gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante. O SUS financia cerca de 86% dos transplantes no país, assegurando acesso gratuito e universal.

Para garantir atendimento qualificado, o Ministério da Saúde também destinou mais recursos para o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) em 2025. Enquanto em 2022 o investimento foi de R$ 1,1 bilhão, no ano passado os recursos federais alcançaram R$ 1,5 bilhão, um crescimento de 37%.

Cultura da doação ainda precisa crescer

Para Lucas Nacif, cirurgião gastrointestinal e membro da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), os números representam um avanço importante, mas o cenário ainda exige atenção. “Embora o número de transplantes tenha progredido nos últimos anos, ainda há milhares de pessoas na fila de espera. Isso mostra que precisamos fortalecer a cultura de doação de órgãos no país, conscientizando cada vez mais a população sobre a importância de se tornar um doador”, destaca.

Apesar do crescimento nos índices, a recusa familiar segue como o principal obstáculo para a efetivação das doações de órgãos no Brasil. Atualmente, as famílias recusam a autorização em 45% dos casos de potenciais doadores. A necessidade de diálogo sobre doação de órgãos nunca foi tão evidente. As campanhas nacionais enfatizam que a decisão de doar deve ser comunicada à família, já que é ela quem autoriza o procedimento no momento do falecimento. “A doação de órgãos é um ato de solidariedade que pode transformar vidas”, afirma o especialista.

Sobre a fila de espera, o Dr. Nacif explica que o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) mantém uma lista única que reúne todos os pacientes brasileiros que aguardam por um órgão, independentemente de estarem em hospitais públicos ou privados. “Muitas pessoas acreditam que existe algum tipo de privilégio nos transplantes, mas a realidade é completamente diferente. A lista única nacional é um dos sistemas mais justos e transparentes que temos na medicina brasileira”, explica.

A prioridade não segue apenas a ordem cronológica de inscrição. “Pacientes em estado mais grave podem subir na lista, assim como aqueles com maior compatibilidade com o órgão disponível. O sistema também considera a distância entre doador e receptor, já que alguns órgãos, como o coração, têm poucas horas de viabilidade fora do corpo.”

Doação de órgãos: como funciona e como ser um doador

A doação de órgãos pode acontecer de duas formas: após a morte encefálica ou em vida. No primeiro caso, um único doador pode salvar até dez vidas, doando coração, fígado, rins, pâncreas, pulmões, intestino, córneas e tecidos. Já a doação em vida ocorre em casos específicos, como a doação de órgãos duplos, principalmente rins, ou de parte do fígado e pulmão, além da medula óssea.

O processo de doação após morte encefálica é criterioso. Fatores como idade avançada, histórico de tabagismo, uso de drogas ou consumo excessivo de álcool podem ser limitadores, mas não impedem automaticamente a doação. A decisão final sempre cabe à equipe médica especializada.

Todo doador em vida passa por uma avaliação completa para garantir que a doação será segura tanto para ele quanto para o receptor”, explica o médico transplantador. “No caso da doação após morte encefálica, a avaliação é feita por equipes especializadas, considerando diversos critérios técnicos”, finaliza o Dr. Lucas Nacif.

Com Agência Brasil e Assessorias

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