Os medicamentos que revolucionaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade estão abrindo uma nova e esperançosa frente na medicina. Durante o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco 2026), encerrado no último dia 2 de junho em Chicago, nos Estados Unidos, mais de 40 estudos ganharam destaque ao investigar a relação entre as chamadas “canetas emagrecedoras” (remédios da classe da semaglutida e tirzepatida) e o câncer.
Os dados sugerem que essas terapias estão associadas à redução do aparecimento de novos tumores e a melhores resultados de cura em pacientes que já enfrentam a doença. Os dados sugerem que as populares “canetas emagrecedoras” não apenas auxiliam na redução do peso, mas também estão associadas a uma menor incidência de tumores e a melhores desfechos de sobrevida em pacientes já diagnosticados.
Entre as pesquisas de maior impacto está uma análise com mais de 100 mil mulheres, que identificou cerca de 30% menos casos de câncer de mama entre as usuárias desses medicamentos. Além disso, os trabalhos observaram que os remédios ajudaram a frear a evolução da doença para outros órgãos (metástase) em tumores de mama, pulmão, fígado e intestino, funcionando como um excelente aliado quando combinados aos tratamentos tradicionais, como a imunoterapia.
Proteção e maior tempo de vida no câncer de intestino
O câncer de intestino (colorretal), que é o segundo tumor mais comum em homens e mulheres no Brasil, foi o grande foco das atenções. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a doença teve um crescimento de 35% na última década no país, saltando de 34.280 casos em 2016 para uma estimativa de 53.810 novos diagnósticos neste ano de 2026. Duas pesquisas americanas apresentadas no evento mostraram o poder dessas medicações para mudar essa realidade:
-
Em casos avançados: Um estudo do New York Medical College acompanhou pacientes com câncer de intestino avançado e mostrou que aqueles que usaram as canetas emagrecedoras tiveram uma redução de 32% no risco de morte. Esse benefício se manteve forte e trouxe uma probabilidade de sobrevida ainda maior após cinco anos de acompanhamento.
-
Aliado da quimioterapia: Outra pesquisa, realizada pelo Atrium Health Levine Cancer com mais de 4.800 pacientes, apontou que o uso do medicamento aumentou o tempo de vida total de quem estava passando pela quimioterapia padrão, reduzindo o risco de morte em 18%.
Redução expressiva no risco de morte por câncer colorretal
O câncer colorretal, segundo tumor mais comum em homens e mulheres no Brasil, foi alvo de dois estudos de grande impacto nesta edição do congresso americano. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a incidência dessa neoplasia saltou 35% na última década no país, saindo de 34.280 diagnósticos em 2016 para uma projeção de 53.810 novos casos no cenário atual de 2026.
Para enfrentar essa escalada, as propriedades metabólicas e imunomoduladoras dos hormônios intestinais sintéticos demonstraram benefícios tanto em estágios iniciais quanto avançados da doença:
-
Cenário metastático: Uma pesquisa conduzida pelo The New York Medical College (Estados Unidos) avaliou 276 pacientes com câncer colorretal metastático. Partindo do princípio de que a inflamação sistêmica e o desarranjo metabólico prejudicam a ação das terapias oncológicas, os cientistas introduziram o antagonista de $GLP\text{-1}$. No horizonte de um a cinco anos de acompanhamento, os pacientes que receberam a medicação apresentaram uma redução de 32% no risco de morte em comparação ao grupo controle, com o pico de probabilidade de sobrevida manifestando-se após o quinto ano do início do monitoramento.
-
Tratamento de primeira Linha: Outro estudo estruturado pelo Atrium Health Levine Cancer (Estados Unidos) envolveu 4.824 pacientes submetidos à quimioterapia padrão de primeira linha. Metade da amostra utilizou o $GLP\text{-1}$ RA no período de 90 dias antes ou após o início dos ciclos quimioterápicos. Com um seguimento médio de 24,6 meses, os pesquisadores constataram que o medicamento aumentou o tempo de vida global dos indivíduos e reduziu o risco de óbito em 18%.
Para a médica Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em tumores gastrointestinais da Oncologia D’Or, a a presença de sobreviventes do câncer fazendo uso dessa classe terapêutica é uma realidade cada vez mais frequente nos consultórios.
Cabe a nós entender a segurança dessa combinação e explorar se há vantagem no controle de peso e na incidência de câncer, o que parece ter um papel positivo”, declara.
O oncologista Alexandre Palladino, da mesma instituição, reforça que o controle da obesidade deve ser parte do plano de cuidado. “Estes estudos demonstram que o controle do peso e do estado inflamatório associado a ele devem fazer parte da estratégia global da assistência aos pacientes com câncer. Os inibidores de GLP-1 se apresentam como mais uma importante ferramenta”, pondera.
Uma semente plantada no congresso anterior
Esse entusiasmo todo não surgiu do nada. A avalanche de dados positivos em 2026 consolida uma tendência que começou a ganhar corpo no ano passado. Na ASCO 2025, um estudo liderado pelo médico Lucas A. Mavromatis, da Universidade de Nova York, já havia acendido essa luz de esperança, antecipando o potencial protetivo dessas substâncias;
Ao analisar os dados de 170 mil pacientes que tinham obesidade (Índice de Massa Corporal médio de 38 kg/m²), a pesquisa descobriu que o uso do Ozempic (semaglutida) e remédios semelhantes reduzia em 7% o risco de desenvolver 14 tipos de câncer ligados ao excesso de peso, além de diminuir em 8% a chance de morte por qualquer causa.
Na época, o efeito protetor mais nítido foi observado justamente nos tumores intestinais, registrando uma diminuição de 16% para o câncer de cólon e de 28% para o câncer retal. Entre as mulheres, o uso da medicação reduziu o risco geral de tumores em 8% e a mortalidade por causas gerais em 20%.
A endocrinologista Alessandra Rascovski, diretora clínica da Atma Soma, explica que a obesidade funciona como um motor inflamatório no corpo. “O medicamento age simulando um hormônio produzido no intestino que regula o açúcar no sangue, diminui a fome e aumenta a saciedade, quebrando esse ciclo de inflamação”, diz ela.
Apesar dos excelentes resultados, os especialistas pedem cautela e lembram que ninguém deve usar essas canetas com o objetivo exclusivo de prevenir o câncer. O oncologista Mauro Donadio, da Oncoclínicas, explica que os dados atuais mostram uma ligação positiva, mas ainda são necessários novos testes práticos com voluntários para comprovar a relação direta de causa e efeito. “Os medicamentos podem ter efeitos anti-inflamatórios que vão além do emagrecimento, mas precisamos de mais evidências antes de considerarmos seu uso específico para prevenção”, conclui
Retrospecto: o ponto de partida na ASCO 2025
Mecanismos além da perda de peso exigem ensaios controlados
A obesidade é um fator de risco crítico reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — caracterizada quando o Índice de Massa Corporal (IMC) passa de 30kg/m). No Brasil, a prevalência da condição atinge 31% da população, e projeções indicam que até 2044 quase 75% dos adultos do país apresentarão excesso de peso (somando sobrepeso e obesidade).
De acordo com especialistas, o tecido adiposo em excesso funciona como um órgão endócrino inflamatório, secretando citocinas que estimulam a proliferação celular maligna. Embora o emagrecimento por si só reduza esse estado inflamatório, os cientistas acreditam que os agonistas de GLP-1 (as conhecidas canetas emagrecedoras) atuam por vias biológicas diretas adicionais.
Estudos paralelos indicam que a substância possui propriedades intrínsecas de estabilização metabólica e modulação do sistema imune, o que melhora a tolerância do organismo aos quimioterápicos e inibe vias de sinalização celular utilizadas pelos tumores para escapar das defesas naturais do corpo.
Caneta emagrecedora não deve ser prescrita para prevenir ou tratar câncer
Apesar do entusiasmo que tomou conta das sessões em Chicago, a comunidade científica mantém uma postura de cautela e reforça o alerta de que esses medicamentos não devem ser prescritos com a finalidade exclusiva de prevenir ou tratar tumores.
Por se tratarem predominantemente de análises de dados retrospectivos e estudos observacionais, os resultados geram hipóteses valiosas, mas que ainda precisam ser chanceladas por ensaios clínicos prospectivos, randomizados e controlados em larga escala, incluindo populações de indivíduos sem diabetes.
O avanço das pesquisas nos próximos anos ditará se as canetas emagrecedoras migrarão definitivamente dos folhetos de endocrinologia para os guias oficiais de prevenção oncológica global.
Fique por dentro das principais notícias de saúde, bem-estar e avanços da medicina:




