A busca por tratamentos mais assertivos e menos tóxicos na batalha contra o câncer ganhou um aliado de peso na reunião anual da American Society of Clinical Oncology (Asco 2026), em Chicago, nos Estados Unidos. Os resultados do aguardado estudo clínico internacional OPTIMA demonstraram que milhares de mulheres diagnosticadas com câncer de mama em estágio inicial podem evitar com segurança a quimioterapia após a cirurgia.

A proposta era rastrear quais mulheres realmente obteriam ganho clínico real com a quimioterapia adjuvante. Os resultados mostraram que cerca de 68% das pacientes apresentavam baixo risco genômico e puderam receber apenas hormonioterapia, mantendo taxas de sobrevida livre de recorrência em cinco anos semelhantes às observadas entre aquelas tratadas com quimioterapia.

A pesquisa contou com a participação de 4.429 pacientes com câncer de mama inicial, receptor hormonal positivo e HER2-negativo, que configura a forma mais comum da doença. O protocolo clínico avaliou a eficácia do teste genômico Prosigna (PAM50) – baseado na análise da expressão de 50 genes – para auxiliar a decisão sobre a necessidade ou não de quimioterapia.

Os dados revelaram que as pacientes classificadas com um escore genômico de risco mais baixo — apresentando uma Taxa de Recorrência — puderam ser tratadas exclusivamente com terapia hormonal, mantendo índices excelentes de controle da doença nos primeiros cinco anos de acompanhamento.

Simpósio em Campinas traz autor do estudo britânico

A aplicação prática das evidências em torno do impacto do estudo britânico na realidade brasileira serão debatidos também por aqui. O principal autor e investigador líder do estudo OPTIMA, o professor Robert Stein, da University College London (Reino Unido), é o convidado especial do II Simpósio de Câncer de Mama Campinas, que acontece nos dias 18 e 19 de junho no Instituto de Oncologia da Universidade Estadual de Campinas (IOU-Unicamp).

O evento científico proporcionará a médicos e pesquisadores de diversas regiões do país um espaço de interlocução direta com a liderança do ensaio clínico internacional De acordo com os organizadores do Grupo SOnHe, a expectativa é que a validação de ferramentas genômicas de triagem ajude a moldar os novos protocolos nacionais, refinando a tomada de decisão em saúde e aproximando o ecossistema brasileiro dos padrões globais de precisão oncológica.

A estratégia é viável desde que as pacientes passem por uma seleção rigorosa baseada no perfil molecular do tumor, realizada por meio de testes genômicos. Os especialistas reforçam, contudo, que a decisão de omitir ou indicar a quimioterapia deve ser estritamente individualizada e baseada em exames específicos e critérios médicos bem estabelecidos.

Evidências robustas para grupos que geravam dúvidas clínicas

Susana Ramalho, oncologista clínica do Grupo SOnHe que acompanhou os debates científicos em Chicago, aponta que o grande diferencial do estudo OPTIMA foi trazer evidências sólidas para subgrupos de pacientes que ainda geravam muitas incertezas na rotina médica.

Ela reforça que o trabalho incluiu mulheres na pré-menopausa submetidas à supressão ovariana e pacientes que já apresentavam algum nível de comprometimento dos linfonodos axilares, cenários nos quais a indicação de quimioterapia costumava ser a regra geral na prática oncológica.

Para o também oncologista clínico Higor Mantovani, os achados consolidam o movimento de “descalada terapêutica” na medicina personalizada. O especialista explica que utilizar ferramentas de biologia molecular para identificar quem de fato necessita de abordagens citotóxicas permite desenhar um cuidado muito mais humano e assertivo.

O resultado prático para a paciente é a preservação da qualidade de vida, eliminando os efeitos colaterais severos da quimioterapia, sem que haja qualquer perda na segurança oncológica ou no tempo de sobrevida.

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Tratar mais quem realmente precisa e evitar tratamentos desnecessários

Para o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR), o principal mérito do estudo com mulheres com câncer de mama apresentado na Asco 2026 está justamente na capacidade de evitar tratamentos potencialmente tóxicos em pacientes que não devem se beneficiar deles.

O teste genômico pode desintensificar com segurança o tratamento mesmo em pacientes tradicionalmente encaminhadas à quimioterapia, evitando que sejam expostas à toxicidade de uma terapia que, para o perfil delas, não seria eficaz”, diz.

Segundo o especialista, trabalhos como o OPTIMA refletem uma mudança importante na forma como as decisões terapêuticas são tomadas. Em vez de seguir apenas critérios clínicos tradicionais, a oncologia passa a incorporar cada vez mais informações biológicas do tumor para personalizar o tratamento.

Dizer a uma paciente que ela pode evitar a quimioterapia com segurança transforma uma conduta antes imposta em uma decisão genuinamente compartilhada, sustentada por evidência”, afirma Guimarães, que coordena os departamentos cirúrgicos oncológicos e de medicina genômica da BP.

A tendência é evitar tratamentos desnecessários

Para o especialista, o estudo aponta para uma tendência complementar na Oncologia de precisão, que tem avançado cada vez mais: tratar mais quem realmente precisa e evitar tratamentos desnecessários quando não há benefício esperado. Essa lógica ficou evidente não apenas no estudo com o teste genômico Prosigna, mas também em outros estudos apresentados na plenária da Asco 2026.

Os trabalhos apresentados reforçam uma tendência cada vez mais presente na oncologia que é a de oferecer tratamentos mais intensivos quando há evidências consistentes de benefício e, ao mesmo tempo, evitar terapias desnecessárias em pacientes que provavelmente não terão ganho relevante com elas”, analisa Guimarães.

No campo dos tumores pulmonares, por exemplo, estudo LIBRETTO-432 avaliou o uso adjuvante do selpercatinibe em pacientes submetidos à cirurgia para o câncer de pulmão de não pequenas células com fusão de RET. Os resultados mostraram redução de aproximadamente 83% no risco de recorrência ou morte em comparação com placebo.

Na mesma área, o estudo HARMONi-6 apresentou resultados positivos com o ivonescimabe em pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado, ampliando as possibilidades terapêuticas baseadas em imunoterapia. “É mais um importante trabalho que reforça o teste de biomarcadores, oferecido de forma abrangente, mesmo em doença inicial e amplia o arsenal de imunoterapia de nova geração”, afirma o Dr Guimarães.

Também na sessão plenária, o estudo Proteus avaliou a inclusão da apalutamida ao tratamento hormonal realizado antes e depois da cirurgia para retirada da próstata em pacientes com tumores localizados de alto risco, ou seja, ainda restritos à região da próstata, mas com maior risco de retorno ou disseminação da doença. Os resultados mostraram aumento das respostas ao tratamento e redução do risco de surgimento de metástases ou morte.

Já o estudo SARC041 trouxe uma nova opção para pacientes com lipossarcoma desdiferenciado, um tipo raro de câncer dos tecidos moles que historicamente conta com poucas alternativas terapêuticas, demonstrando benefício com o uso do medicamento abemaciclibe.

Agenda Positiva

Pacientes e cuidadores participam de encontro

O II Simpósio de Câncer de Mama Campinas também vai receber, no dia 18 de junho, 30 pacientes com câncer, familiares e cuidadores, que podem se inscrever gratuitamente aqui. O III Encontro de Pacientes Oncológicos da Região Metropolitana de Campinas (RMC) vai oferecer informações práticas e acolhimento a quem enfrenta a jornada oncológica. A programação inclui temas como retorno ao trabalho, direitos das pacientes, qualidade de vida, autocuidado, oncologia integrativa e terapias complementares com respaldo científico.

Nosso objetivo é criar um espaço de escuta, orientação e troca de experiências, levando informação de qualidade e baseada em evidências para pacientes e suas famílias. Sabemos que o tratamento vai além das consultas e dos medicamentos, e oferecer suporte para as diferentes etapas dessa jornada faz toda a diferença”, afirma Laís Feres, oncologista clínica do Grupo SOnHe.

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Com Assessorias

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