A busca por tratamentos mais assertivos e menos tóxicos ganhou um aliado de peso na reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO 2026), em Chicago, nos Estados Unidos. Os resultados do aguardado estudo clínico internacional OPTIMA demonstraram que milhares de mulheres diagnosticadas com câncer de mama em estágio inicial podem evitar com segurança a quimioterapia após a cirurgia. A estratégia é viável desde que as pacientes passem por uma seleção rigorosa baseada no perfil molecular do tumor, realizada por meio de testes genômicos.
A pesquisa contou com a participação de 4.429 pacientes com câncer de mama inicial, receptor hormonal positivo e HER2-negativo, que configura a forma mais comum da doença. O protocolo clínico avaliou a eficácia do teste genômico Prosigna (PAM50) – baseado na análise da expressão de 50 genes – para para auxiliar a decisão sobre a necessidade ou não de quimioterapia.
A proposta era rastrear quais mulheres realmente obteriam ganho clínico real com a quimioterapia adjuvante. Os resultados mostraram que cerca de 68% das pacientes apresentavam baixo risco genômico e puderam receber apenas hormonioterapia, mantendo taxas de sobrevida livre de recorrência em cinco anos semelhantes às observadas entre aquelas tratadas com quimioterapia.
Os dados revelaram que as pacientes classificadas com um escore genômico de risco mais baixo — apresentando uma Taxa de Recorrência ($\text{ROR} \le 60$) — puderam ser tratadas exclusivamente com terapia hormonal, mantendo índices excelentes de controle da doença nos primeiros cinco anos de acompanhamento.
Evidências robustas para grupos que geravam dúvidas clínicas
Susana Ramalho, oncologista clínica do Grupo SOnHe que acompanhou os debates científicos em Chicago, aponta que o grande diferencial do estudo OPTIMA foi trazer evidências sólidas para subgrupos de pacientes que ainda geravam muitas incertezas na rotina médica.
O trabalho incluiu mulheres na pré-menopausa submetidas à supressão ovariana e pacientes que já apresentavam algum nível de comprometimento dos linfonodos axilares, cenários nos quais a indicação de quimioterapia costumava ser a regra geral na prática oncológica.
Para o também oncologista clínico Higor Mantovani, os achados consolidam o movimento de “descalada terapêutica” na medicina personalizada. O especialista explica que utilizar ferramentas de biologia molecular para identificar quem de fato necessita de abordagens citotóxicas permite desenhar um cuidado muito mais humano e assertivo.
O resultado prático para a paciente é a preservação da qualidade de vida, eliminando os efeitos colaterais severos da quimioterapia, sem que haja qualquer perda na segurança oncológica ou no tempo de sobrevida.
Debate científico desembarca no Brasil em junho
A aplicação prática das evidências em torno desse impacto na realidade do cenário assistencial brasileiro serão debatidos no país logo após o encerramento do congresso americano. O principal autor e investigador líder do estudo OPTIMA, o professor Robert Stein, da University College London (Reino Unido), virá ao Brasil para participar do II Simpósio de Câncer de Mama Campinas, que acontece nos dias 18 e 19 de junho no Instituto de Oncologia da Universidade Estadual de Campinas (IOU-Unicamp).
O evento científico proporcionará a médicos e pesquisadores de diversas regiões do país um espaço de interlocução direta com a liderança do ensaio clínico internacional. Os especialistas reforçam, contudo, que a decisão de omitir ou indicar a quimioterapia deve ser estritamente individualizada e baseada em exames específicos e critérios médicos bem estabelecidos.
A expectativa é que a validação de ferramentas genômicas de triagem ajude a moldar os novos protocolos nacionais, refinando a tomada de decisão em saúde e aproximando o ecossistema brasileiro dos padrões globais de precisão oncológica.
Tratar mais quem realmente precisa e evitar tratamentos desnecessários
Para o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR), o principal mérito do estudo com mulheres com câncer de mama está justamente na capacidade de evitar tratamentos potencialmente tóxicos em pacientes que não devem se beneficiar deles.
O teste genômico pode desintensificar com segurança o tratamento mesmo em pacientes tradicionalmente encaminhadas à quimioterapia, evitando que sejam expostas à toxicidade de uma terapia que, para o perfil delas, não seria eficaz”, diz.
Segundo o especialista, trabalhos como o OPTIMA refletem uma mudança importante na forma como as decisões terapêuticas são tomadas. Em vez de seguir apenas critérios clínicos tradicionais, a oncologia passa a incorporar cada vez mais informações biológicas do tumor para personalizar o tratamento.
Dizer a uma paciente que ela pode evitar a quimioterapia com segurança transforma uma conduta antes imposta em uma decisão genuinamente compartilhada, sustentada por evidência”, afirma Guimarães, que coordena os departamentos cirúrgicos oncológicos e de medicina genômica da BP.
Teste de biomarcadores reforça papel da imunoterapia em câncer de pulmão
Para o especialista, o estudo aponta para uma tendência complementar: tratar mais quem realmente precisa e evitar tratamentos desnecessários quando não há benefício esperado. Essa lógica ficou evidente no estudo com o teste genômico Prosigna e também em outros estudos apresentados na plenária da Asco 2026.
No caso dos tumores pulmonares, outro destaque foi o estudo LIBRETTO-432. O trabalho avaliou o uso adjuvante do selpercatinibe em pacientes submetidos à cirurgia para o câncer de pulmão de não pequenas células com fusão de RET. Os resultados mostraram redução de aproximadamente 83% no risco de recorrência ou morte em comparação com placebo.
Na mesma área, o estudo HARMONi-6 apresentou resultados positivos com o ivonescimabe em pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado, ampliando as possibilidades terapêuticas baseadas em imunoterapia.
É mais um importante trabalho que reforça o teste de biomarcadores, oferecido de forma abrangente, mesmo em doença inicial e amplia o arsenal de imunoterapia de nova geração”, afirma Gustavo Guimarães.
Como evitar as terapias desnecessárias
Também na sessão plenária, o estudo PROTEUS avaliou a inclusão da apalutamida ao tratamento hormonal realizado antes e depois da cirurgia para retirada da próstata em pacientes com tumores localizados de alto risco, ou seja, ainda restritos à região da próstata, mas com maior risco de retorno ou disseminação da doença.
Os resultados mostraram aumento das respostas ao tratamento e redução do risco de surgimento de metástases ou morte. Já o estudo SARC041 trouxe uma nova opção para pacientes com lipossarcoma desdiferenciado, um tipo raro de câncer dos tecidos moles que historicamente conta com poucas alternativas terapêuticas, demonstrando benefício com o uso do medicamento abemaciclibe.
Os trabalhos apresentados reforçam uma tendência cada vez mais presente na oncologia que é a de oferecer tratamentos mais intensivos quando há evidências consistentes de benefício e, ao mesmo tempo, evitar terapias desnecessárias em pacientes que provavelmente não terão ganho relevante com elas”, analisa Guimarães.
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Com Assessorias




