O avanço dos casos de sarampo nas Américas reacendeu um grave alerta sanitário internacional. Em um momento em que o continente se prepara para receber grandes fluxos de turistas devido à Copa do Mundo — sediada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá —, a combinação entre a intensa circulação global de pessoas e a queda na cobertura vacinal cria um cenário propício para o retorno de uma doença que já havia sido controlada.

Juntos, os três países que abrigarão os jogos do Mundial respondem por 70% dos casos de sarampo registrados nas Américas. Dados recentes da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) mostram que o número de ocorrências no continente saltou de 446 para quase 15 mil no último ano, resultando em dezenas de mortes — um crescimento superior a 30 vezes.

Em 2026, a curva continua ascendente. Somente em janeiro, os dados parciais da Opas apontaram 1.031 casos na região, um número quase 45 vezes maior do que o registrado no mesmo período do ano passado.

O perigo da alta transmissibilidade

Esse Dia Nacional de Imunização (9 de junho) vem com um alerta especial: o sarampo não é uma simples infecção comum: ele figura entre as enfermidades mais contagiosas conhecidas pela medicina. O vírus se espalha facilmente pelo ar através da fala, tosse, espirros ou até pela respiração, e um indivíduo infectado pode transmitir a doença para muitas outras pessoas simultaneamente, antes mesmo do surgimento das primeiras manchas na pele.

O sarampo é uma das doenças mais contagiosas que existem. Basta uma pessoa infectada em um ambiente com baixa cobertura vacinal para gerar surtos rapidamente. Eventos internacionais aumentam esse risco porque intensificam a circulação global do vírus através de viajantes doentes e não vacinados”, alerta o infectologista Paulo Gewehr, do Hospital Moinhos de Vento.

A infectologista Natalie Del Vecchio, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, órgão ligado à Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz), corrobora a preocupação e aponta a vulnerabilidade atual. “A gente tem visto a baixa cobertura vacinal nesses países e também no Brasil”, observa a médica à Agência Brasil.

No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para a expansão do surto quando o Canadá registrou mais de 5 mil ocorrências, perdendo a certificação de país livre da doença. O México saltou de sete notificações em 2024 para mais de 6 mil no ano seguinte, enquanto os Estados Unidos registraram mais de 2 mil casos no mesmo período.

O risco de retrocesso no Brasil

O cenário exige vigilância máxima das autoridades brasileiras. Em novembro de 2024, o Brasil havia recuperado da Opas a recertificação de país livre do sarampo. O país já tinha alcançado essa posição em 2016, mas a queda nos índices de vacinação permitiu a reintrodução do vírus em 2018.

A história ameaça se repetir se a população não atualizar as cadernetas. No último ano, foram confirmados 38 casos no país, todos importados de nações vizinhas. No início de 2026, duas novas ocorrências foram registradas: uma jovem de 22 anos, no Rio de Janeiro, e um bebê de 6 meses, em São Paulo. Nenhum dos dois pacientes tinha histórico de vacinação.

As complicações da doença são graves e podem deixar sequelas para o resto da vida ou levar ao óbito. Os impactos variam conforme a faixa etária:

  • Em crianças: Pode evoluir para pneumonia, infecções de ouvido severas, encefalite aguda (inflamação no cérebro) e morte.

  • Em adultos: A principal complicação grave é a pneumonia bacteriana ou viral.

  • Em gestantes: Pode provocar o parto prematuro e o nascimento de bebês com baixo peso.

Campanha nacional: saiba como se proteger antes de viajar

Para blindar o país e proteger os torcedores, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional orientando quem vai viajar para a Copa do Mundo a atualizar a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) pelo menos 15 dias antes do embarque.

No entanto, a recomendação de imunização serve para toda a população, independentemente de viagens, como uma estratégia de proteção coletiva:

  • Crianças de 6 a 11 meses (em viagem): Devem receber a “dose zero” (completando o esquema regular depois).

  • Crianças (rotina habitual): Duas doses obrigatórias, aplicadas aos 12 e aos 15 meses de idade.

  • Jovens e adultos até 29 anos: Devem comprovar duas doses tomadas ao longo da vida.

  • Adultos de 30 a 59 anos: Devem ter o registro de pelo menos uma dose (sendo recomendadas duas doses para maior segurança).

  • Idosos (a partir de 60 anos): Caso não tenham histórico da doença ou de vacinação prévia, devem receber uma dose.

  • Profissionais de saúde e viajantes: Devem manter o esquema vacinal completo e atualizado com prioridade absoluta.

“Se a pessoa já tem o calendário completo, não precisa tomar uma dose extra. Mas se não estiver completo, os viajantes devem regularizar a situação. Essas pessoas viajarão com tranquilidade, evitando adquirir o vírus e trazê-lo para o nosso país”, reforça Natalie Del Vecchio.

As doses estão disponíveis gratuitamente em todas as unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS).

Fique atento aos sintomas

Os sintomas costumam se manifestar entre sete e 14 dias após o contato com o vírus. Os principais sinais clínicos são:

  • Febre alta e persistente;

  • Tosse seca e coriza;

  • Irritação nos olhos (conjuntivite);

  • Manchas vermelhas na pele (exantema), que começam na região do rosto e depois se espalham por todo o corpo.

A orientação médica é clara: ao apresentar qualquer sintoma suspeito, principalmente após o retorno de uma viagem internacional ou contato com viajantes, o paciente deve procurar atendimento médico imediatamente e evitar circular em locais públicos. O diagnóstico precoce é a ferramenta mais eficaz para isolar o vírus e bloquear novos surtos em solo nacional.

Com informações da Agência Brasil e do Hospital Moinhos de Vento.

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