Mais do que prevenir doenças, a vacinação é uma das medidas de saúde pública mais eficazes já desenvolvidas. Graças às campanhas de imunização, doenças como poliomielite, sarampo e rubéola tiveram seus casos drasticamente reduzidos ao longo das últimas décadas. Nos últimos 50 anos, os imunizantes ajudaram a salvar pelo menos 154 milhões de vidas em todo o mundo, o equivalente a seis por minuto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A Semana Mundial da Imunização, celebrada de 24 a 30 de abril, chama a atenção para o papel das vacinas na prevenção de doenças e na proteção da saúde pública.  A iniciativa traz o mote “For every generation, vaccines work” (“Para todas as gerações, as vacinas funcionam”, em tradução livre), reforçando a importância da imunização como estratégia de proteção em diferentes fases da vida. (Saiba mais sobre a mobilização aqui).

Mais do que uma proteção individual, vacinação é uma medida coletiva de saúde pública. Manter o calendário atualizado contribui para reduzir a circulação de agentes infecciosos e proteger grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. No entanto, uma onda de negacionismo científico que assolou o Brasil nos últimos anos, colocou as autoridades sanitárias e especialistas em situação de alerta.

Queda na cobertura vacinal infantil após o primeiro ano de vida

Dados do Ministério da Saúde mostram que a cobertura vacinal segue alta nas primeiras doses aplicadas logo após o nascimento. Em 2025, a BCG atingiu 98,55% e a vacina contra hepatite B, 98,76%. Com o passar dos meses, porém, esse índice começa a cair.

Entre as vacinas aplicadas antes de 1 ano, a cobertura contra poliomielite ficou em 87,68% e a vacina penta, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e outras doenças, atingiu 88,12%. A vacina contra febre amarela segue com uma das menores coberturas, com 73,82%.

O mesmo padrão foi observado em 2024: a cobertura contra poliomielite ficou em 90,54%, a penta registrou 90,35%, enquanto a vacina contra febre amarela manteve baixa adesão, com 73,54%.

A queda é mais evidente após o primeiro ano de vida, quando entram as doses de reforço. A tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, alcançou 92,66% na primeira dose, mas caiu para 78,02% na segunda. O mesmo ocorre com os reforços contra poliomielite (85,42%) e contra difteria, tétano e coqueluche (86,85%).

Em 2024, a tríplice viral registrou 95,84% na primeira dose e 80,53% na segunda. Já o reforço da poliomielite ficou em 88,06% e o de difteria, tétano e coqueluche, em 89,07%.

Atenção ao calendário vacinal durante a infância

Para a coordenadora da Pediatria do Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança Paulista, Amanda Sereno Rahal, os números mostram um padrão já conhecido: o início da vacinação costuma ter boa adesão, mas a continuidade ainda é um desafio.

As vacinas são organizadas em um calendário justamente porque o sistema imunológico precisa de estímulos em momentos diferentes. Quando a criança não recebe todas as doses, ela pode ficar parcialmente protegida”, explica.

Outro ponto importante é a importância de manter o calendário vacinal em dia. “As vacinas seguem um cronograma definido, com doses em momentos específicos para garantir a proteção completa. Por isso, é fundamental que pais e responsáveis acompanhem a caderneta e levem as crianças até uma Unidade Básica de Saúde para receber as vacinas nas idades recomendadas”, reforça.

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Vacina não se restringe à infância: cobertura de adultos segue abaixo da meta

Apesar de o Brasil contar com um dos maiores programas públicos de imunização do mundo, a vacinação na população adulta ainda é um dos principais pontos de fragilidade do sistema de saúde. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), todas as vacinas recomendadas para adultos estão abaixo da meta de cobertura, que deveria atingir ao menos 95% para garantir proteção coletiva.

Em alguns casos, os índices são significativamente baixos. Levantamento divulgado pelo Conselho Regional de Enfermagem da Paraíba (Coren-PB) aponta, por exemplo, que a cobertura da vacina tríplice viral em adultos gira em torno de 4,7%, evidenciando o distanciamento em relação ao ideal recomendado pelas autoridades de saúde.

A baixa adesão à vacinação adulta também impacta diretamente o controle de doenças preveníveis. De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a queda na cobertura vacinal está associada ao aumento do risco de reintrodução e circulação de doenças que já estavam controladas no país.

Muitos brasileiros abandonam a caderneta vacinal ao longo da vida, seja por falta de informação ou pela ausência de campanhas direcionadas a esse público. Esse comportamento representa um risco importante, tanto individual quanto coletivo. Um dos principais fatores por trás desse cenário é a percepção equivocada de que a vacinação se restringe à infância.

Entre as vacinas que precisam de atenção na vida adulta estão reforços contra tétano e difteria, hepatite B, febre amarela, além da atualização da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.

Em alguns casos, também são recomendadas vacinas específicas de acordo com faixa etária, condições de saúde ou estilo de vida, como imunizantes contra gripe, pneumonia, HPV e herpes-zóster — esta última indicada especialmente para adultos a partir dos 50 anos, como forma de prevenir a reativação do vírus da catapora.

Vacinas que precisam de atenção na vida adulta]

A vacinação é uma estratégia de proteção ao longo de toda a vida. Quando o adulto deixa de se vacinar, ele não apenas se expõe a doenças evitáveis, como também contribui para a circulação desses vírus e bactérias na população”, explica a enfermeira especialista em vacinação da Clínica Vacinne, Elisa Lino.

Segundo ela, as chamadas doenças imunopreveníveis – que podem ser evitadas com vacinas – não desaparecem, mas ficam sob controle enquanto a população está protegida. “Quando a cobertura cai, o risco de novos casos volta a crescer”, alerta. Daí a importância de se manter sempre em dia com as vacinas recomendadas para cada faixa etária.

Para a enfermeira Elsa Lino, os adultos também precisam olhar com atenção para a própria carteira de vacinação. A orientação é buscar avaliação profissional para entender quais imunizações estão em dia e quais precisam ser atualizadas.

Muitas vezes, a pessoa acredita que está protegida, mas já perdeu o prazo de reforço ou deixou de tomar alguma dose importante”, completa a especialista.

 

Como atingir a proteção completa

De acordo com a pediatra Amanda Sereno Rahal, a vacina funciona como um estímulo controlado para o organismo. Ao entrar em contato com uma versão segura do agente causador da doença, o corpo ativa o sistema imunológico e cria uma memória de defesa. Isso permite que, em uma exposição futura ao vírus ou à bactéria, a resposta seja mais rápida e eficaz, reduzindo o risco de complicações e internações.

Quando as doses são aplicadas no tempo correto, essa proteção se torna mais completa. Além de proteger quem recebe a vacina, a imunização ajuda a reduzir a circulação de doenças na comunidade, diminuindo o risco de transmissão. Esse efeito coletivo é especialmente importante para quem não pode se vacinar, como recém-nascidos, idosos e pessoas com a imunidade comprometida.

Apesar dos benefícios já comprovados, ainda há desinformação que interfere na adesão. “Muitos mitos ainda circulam, principalmente nas redes sociais, como a ideia de que vacinas não são seguras ou não são necessárias. Isso não se sustenta. As vacinas passam por testes rigorosos antes de serem aprovadas e continuam sendo monitoradas mesmo após a aplicação na população”, afirma.

Durante a Semana Mundial da Imunização, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro também reforça a importância de manter a vacinação em dia em todas as fases da vida. A mobilização busca conscientizar a população sobre a proteção individual e coletiva oferecida pelas vacinas, além de ampliar a cobertura vacinal no município.

Entre as vacinas de rotina estão imunizantes contra gripe, covid-19, febre amarela, hepatites, tétano, HPV, meningite, sarampo, caxumba e rubéola, entre outros. Crianças, adolescentes, adultos, gestantes e idosos possuem esquemas específicos e precisam de acompanhamento regular. No Rio, as vacinas estão disponíveis gratuitamente nas unidades de Atenção Primária, como clínicas da família e centros municipais de saúde, distribuídos por todas as regiões da cidade.

Muitas vacinas exigem reforço ao longo da vida. Por isso, mesmo quem foi vacinado na infância deve conferir se há doses pendentes ou necessidade de atualização. A orientação é que moradores procurem uma unidade de saúde com documento de identificação e, se possível, a caderneta de vacinação. Profissionais da rede avaliam a situação vacinal e indicam as doses necessárias conforme faixa etária e histórico de imunização.

Vacinar é um ato de cuidado e responsabilidade coletiva. Ao se proteger, cada pessoa também ajuda a proteger familiares, amigos e pessoas mais vulneráveis, como bebês, idosos e pacientes imunossuprimidos”, destaca o secretário municipal de saúde do Rio, Rodrigo Prado. “Manter a caderneta atualizada é uma forma simples, segura e gratuita de prevenir doenças e evitar surtos”.

Com Assessorias

 

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