Reflexo das mudanças climáticas que afetam diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, as ondas de calor têm se tornado cada vez mais frequentes e intensas. Com temperaturas que chegam a ultrapassar os 40°C em algumas regiões, o fenômeno não só representa desconforto, mas também traz sérios riscos à saúde da população – especialmente para crianças e idosos, que são mais vulneráveis às mudanças bruscas de temperatura, e para quem já tem doenças como cardiopatias ou problemas renais.

A última semana de abril foi marcada por temperaturas até 10°C acima da média histórica em algumas regiões do Brasil, especialmente no Centro-Oeste e no Sudeste, segundo previsões da MetSul Meteorologia. O cenário é resultado de um bloqueio atmosférico persistente, associado a uma massa de ar quente intensa, que dificulta a chegada de frentes frias e mantém o calor por mais tempo nessas áreas.

calor extremo está diretamente associado ao aumento da mortalidade entre idosos, com evidências de que cada dia adicional de calor intenso eleva em 1,016 óbito por 100 mil idosos, o equivalente a um avanço de cerca de 0,56% na taxa média mensal.  Esse efeito se soma a uma alta relevante nas internações por desidratação, exaustão térmica e eventos cardiovasculares.

Diante desse cenário, Luis Fernando Penna, clínico-geral e coordenador do Pronto Atendimento do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, reforça que o impacto das temperaturas elevadas na saúde ainda é subestimado. “Muitas pessoas acreditam que o calor causa apenas mal-estar, mas estamos falando de riscos reais que incluem desde quedas de pressão até falência térmica. Em dias de temperaturas extremas, o corpo trabalha no limite”, afirma.

Penna explica que, para dissipar o calor, o organismo aumenta a sudorese, acelera os batimentos cardíacos e dilata os vasos sanguíneos. Esses mecanismos, porém, têm limite e, quando falham, instala-se a falência térmica, uma emergência médica caracterizada por confusão mental, fala arrastada, pele quente e seca, e temperatura corporal acima de 40°C. “Se esses sinais aparecem, é fundamental procurar atendimento imediato”, alerta o médico.

O calor extremo também agrava doenças crônicas como hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e doença renal crônica. O uso de determinados medicamentos pode aumentar ainda mais a vulnerabilidade:

  • diuréticos – favorecem desidratação e queda de pressão;
  • anti-hipertensivos – somam seus efeitos à vasodilatação natural do calor;
  • antidepressivos, anticolinérgicos e antipsicóticos – podem reduzir a sudorese ou alterar a regulação térmica.

Para quem já tem uma condição de base, o calor impõe uma sobrecarga perigosa ao organismo”, explica o especialista. Os efeitos, porém, não se restringem ao corpo. Altas temperaturas interferem no sono, prejudicam o humor, aumentam a irritabilidade e reduzem a produtividade, já que a privação de descanso adequada afeta a atenção, memória e tomada de decisão.

Nesse contexto, Penna explica que a hidratação apropriada, incluindo reposição de eletrólitos, é essencial, mas não suficiente. Segundo ele, a recomendação é evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, usar roupas leves e claras, priorizar ambientes ventilados ou climatizados e evitar exercícios intensos durante períodos de calor extremo. “Trabalhadores expostos ao sol, como profissionais da construção civil, coleta de lixo e entregadores, devem fazer pausas frequentes nos horários mais quentes”, ressalta.

Entre os grupos mais vulneráveis estão: idosos, que têm menor percepção de sede e regulação térmica menos eficiente; crianças, que desidratam mais rapidamente; gestantes; pessoas com doenças crônicas; e indivíduos em situação de vulnerabilidade social. Hábitos comuns como dormir pouco, manter ambientes fechados sem ventilação, ignorar sinais de sede ou tontura e aumentar o consumo de álcool ampliam ainda mais os riscos.

Para Penna, a prevenção continua sendo a principal ferramenta diante de altas temperaturas. “Não existe adaptação completa para ondas de calor extremas e repetidas. Acima de 35°C com alta umidade, o corpo humano simplesmente não consegue funcionar como deveria. Reconhecer sinais precoces e adotar medidas preventivas é essencial para evitar situações de risco”, conclui.

Erros mais frequentes ao tentar se refrescar

• Usar roupas escuras e tecidos pesados, que retêm calor e dificultam a ventilação;
• Tomar banhos gelados, que provocam efeito rebote e fazem o corpo aumentar a produção de calor;
• Exagerar no uso do ar-condicionado, criando ambientes excessivamente frios e favorecendo choques térmicos;
• Aumentar o consumo de álcool acreditando que ajuda a relaxar, quando na verdade ele acelera a desidratação;
• Permanecer em ambientes fechados e sem circulação de ar, onde o calor se acumula e pode ser mais intenso do que ao ar livre;
• Deixar de priorizar a hidratação adequada ao longo do dia, confiando apenas em soluções imediatistas como ventiladores ou duchas.

Até 10°C acima da média: calor fora de época pressiona saúde e segurança nas rodovias

Temperaturas extremas elevam mortalidade cardiovascular e aceleram desgaste de veículos, exigindo prontidão em serviços de urgência

Uma onda de calor atípica para a estação deve elevar as temperaturas em até 10°C acima da média histórica em diversas regiões do Brasil, ampliando riscos que vão além da saúde e impactam severamente a saúde e a segurança. Temperaturas elevadas forçam o coração a trabalhar mais, o que pode desencadear infartos ou arritmias em indivíduos com condições preexistentes

Nas rodovias, o cenário se agrava. Motoristas têm maior incidência de fadiga, desidratação e perda de atenção, o que amplia o risco de colisões em um ambiente já pressionado pelas condições climáticas extremas. Além disso, o calor excessivo acelera o desgaste de pneus, aumentando o risco de estouros devido à alta temperatura do asfalto e ao atrito contínuo, um dos fatores que contribuem para acidentes, especialmente em viagens longas e transporte de carga.

calor extremo amplia riscos que muitas vezes não são percebidos de imediato, como falhas mecânicas e perda de capacidade física do motorista. O impacto do calor sobre o organismo também contribui diretamente para o aumento de acidentes. A desidratação reduz a capacidade cognitiva, provoca tontura, diminui o tempo de reação e pode levar a episódios de mal-estar súbito ao volante. Em casos mais graves, há risco de desmaios, arritmias e eventos cardiovasculares, especialmente em pessoas com histórico clínico.

Pausas estratégicas salvam vidas

Diante desse cenário,  medidas preventivas são decisivas, como pausas estratégicas em local seguro (SAU) para levantar do carro (ameniza a fadiga mental), descansar, andar o que ajuda no retorno venoso (previne inchaço nos membros inferiores e previne trombose venosa profunda), hidratação e voltar para a rodovia mais inteiro e atento.

Heleno Strobel Rosa, médico especialista do Grupo Med+, que atua diretamente nas estradas e rodovias, recomenda manter hidratação constante, fazer pausas regulares em viagens longas, evitar dirigir nos horários mais quentes do dia e checar as condições do veículo, especialmente pneus e sistema de arrefecimento,

Uma dica para a hidratação adequada é multiplicar o peso vezes 35 para uma hidratação adequada principalmente em idosos que já são desidratados pelo fator idade”, explica o especialista.

Apoio especializado para prevenir acidentes por falhas humanas

A resposta exige preparo estruturado e atuação preventiva, especialmente em pontos de alta circulação como rodovias e aeroportos. Em operações estruturadas, a presença de equipes capacitadas para atendimento imediato se torna um diferencial crítico.

Em um cenário de calor cada vez mais intenso e frequente, a segurança passa a depender não apenas da condução, mas da capacidade de antecipar riscos e responder rapidamente a eles.  Ter equipes preparadas e estrutura adequada nesses ambientes é essencial para reduzir o tempo de resposta e evitar que ocorrências evoluam para situações mais graves”, afirma Bruna Reis, CEO do Grupo Med+.

A empresa tem intensificado protocolos para atender ocorrências associadas ao calor, que vão desde mal súbito de motoristas até acidentes provocados por falhas mecânicas agravadas pelas altas temperaturas. A estratégia passa por posicionamento de equipes em pontos críticos, monitoramento contínuo e capacidade de resposta rápida em situações de emergência.

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