A morte da triatleta brasileira Mara Flávia Araújo, de 38 anos, durante a etapa de natação do Ironman Texas (EUA), no último sábado (18/4), trouxe novamente à tona discussões importantes sobre os riscos envolvidos em provas de alta exigência física. O corpo da atleta, localizado após buscas em um lago com visibilidade praticamente nula, deve passar por autópsia nesta segunda-feira (21), nos Estados Unidos, procedimento essencial para esclarecer a causa do óbito.
De acordo com as primeiras informações divulgadas, a atleta desapareceu logo no início da prova de natação, durante a travessia de 3,9 quilômetros no Lago Woodlands, cuja temperatura da água era de aproximadamente 23°C. O corpo estava a cerca de 3 metros de profundidade. O resgate foi dificultado pelas condições adversas do ambiente, incluindo profundidade e ausência de visibilidade, fatores que podem agravar desfechos em situações emergenciais na água.

Morte cardíaca súbita é a principal causa
Os principais motivos incluem:
- SIPE (Edema Pulmonar Induzido pela Natação): Acúmulo de fluido nos pulmões causado pelo esforço em água fria.
- Pânico e aglomeração: O contato físico entre atletas na largada pode elevar a frequência cardíaca e causar estresse respiratório.
- Dificuldade de Resgate: Diferente da corrida ou ciclismo, um mal súbito na água pode levar ao afogamento rápido se o atleta não for avistado imediatamente por guardas-vidas.
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Em situações semelhantes, é importante evitar conclusões precipitadas, uma vez que a determinação da causa da morte depende de análise técnica detalhada, incluindo a autópsia e exames complementares”, enfatiza.
De acordo com a perita, a confirmação da causa da morte dependerá diretamente dos resultados da autópsia, que deve analisar tanto aspectos cardíacos quanto pulmonares e outros possíveis fatores. “Esse é um passo essencial não apenas para elucidar o caso, mas também para orientar medidas preventivas futuras”, pontua.
Entre as possíveis causas em cenários análogos, a médica aponta a morte cardíaca súbita como a hipótese mais comum. “Em situações semelhantes, o esforço físico intenso, associado à descarga de adrenalina no início da prova, pode desencadear arritmias fatais em atletas com condições cardíacas pré-existentes, muitas vezes não diagnosticadas”, afirma.
Edema pulmonar é um risco na natação
Outra possibilidade é o chamado edema pulmonar induzido por imersão (SIPE), condição em que há acúmulo de líquido nos pulmões sem aspiração de água externa. “Esse quadro pode provocar falta de ar súbita e queda na oxigenação, levando à perda de consciência dentro da água, o que agrava o risco de afogamento secundário”, explica.
Daitx também menciona o chamado “conflito autonômico” como fator relevante em ambientes aquáticos. Nesse caso, reflexos fisiológicos opostos — como a resposta ao frio e o reflexo de mergulho — podem ser ativados simultaneamente, gerando instabilidade elétrica no coração e aumentando o risco de arritmias potencialmente fatais.
Além das causas clínicas, fatores operacionais também podem contribuir para desfechos graves. “Em cenários análogos, a largada da natação é marcada por grande aglomeração de atletas, o que pode gerar desorientação, pânico ou até aspiração de água. Somado a isso, a baixa visibilidade pode impedir a identificação rápida de um competidor em dificuldade”, observa.
Prevenção vai muito além de ter um “coração forte”
Embora o risco exista, a taxa de conclusão das provas de Ironman é alta (cerca de 94%), refletindo o preparo exigido dos participantes. Para atletas de endurance, especialmente aqueles que encaram desafios como o Ironman, a prevenção vai muito além de ter um “coração forte”.
1. Check-up cardiológico específico
- Teste ergométrico ou Ergoespirometria: Avalia como o coração responde ao esforço máximo e mede o consumo de oxigênio.
- Ecocardiograma com Doppler: Essencial para descartar a Miocardiopatia Hipertrófica (espessamento do músculo cardíaco), uma das maiores causas de morte súbita em atletas jovens.
- Avaliação de arritmias: O esforço extremo pode “gatilhar” arritmias em pessoas predispostas.
2. Atenção aos sinais de alerta
- Dor ou pressão no peito (mesmo que leve).
- Palpitações desordenadas que não seguem o ritmo do exercício.
- Tontura ou desmaio (síncope) durante ou logo após o esforço.
- Cansaço desproporcional ao nível de treinamento habitual.
3. Gerenciamento de eletrólitos
- Hidratação não é só água: Beber água em excesso sem repor sais pode levar à hiponatremia, que afeta o ritmo cardíaco e o cérebro.
- Suplementação guiada: Use isotônicos e cápsulas de sal conforme planejado em seus treinos longos.
4. Respeito ao “destreinamento” e Infecções
- Miocardite: Nunca treine pesado se estiver com febre ou sintomas gripais fortes. Vírus comuns podem inflamar o músculo cardíaco (miocardite), e o esforço físico nesse estado aumenta drasticamente o risco de parada cardíaca.
5. O perigo da natação (Fator SIPE)
- Aquecimento fora e dentro d’água: Entrar direto na água fria causa vasoconstrição súbita, o que aumenta a pressão arterial instantaneamente.
- Controle da ansiedade: Se sentir que o fôlego “encurtou” no início da prova, nade de costas ou diminua o ritmo até o batimento estabilizar.
Com Assessorias







