A morte da triatleta brasileira Mara Flávia Araújo, de 38 anos, durante a etapa de natação do Ironman Texas (EUA), no último sábado (18/4), trouxe novamente à tona discussões importantes sobre os riscos envolvidos em provas de alta exigência física. O corpo da atleta, localizado após buscas em um lago com visibilidade praticamente nula, deve passar por autópsia nesta segunda-feira (21), nos Estados Unidos, procedimento essencial para esclarecer a causa do óbito.

De acordo com as primeiras informações divulgadas, a atleta desapareceu logo no início da prova de natação, durante a travessia de 3,9 quilômetros no Lago Woodlands, cuja temperatura da água era de aproximadamente 23°C. O corpo estava a cerca de 3 metros de profundidade. O resgate foi dificultado pelas condições adversas do ambiente, incluindo profundidade e ausência de visibilidade, fatores que podem agravar desfechos em situações emergenciais na água.

Mara era uma atleta experiente de alto rendimento, com pódios em competições nacionais e classificação garantida para o Mundial 70.3. Em março deste ano, o empresário Sérgio Ferreira, de 44 anos, sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a natação do Ironman 70.3 Curitiba. Ele também era considerado um atleta experiente e mantinha uma rotina rigorosa de treinos.
Sergio Ferreira, de 44 anos, morreu durante o Ironman em Curitiba, em março de 2026 (Fotos: Divulgação)

Morte cardíaca súbita é a principal causa

 

As mortes recentes reacenderam o debate sobre o risco de eventos cardíacos durante exercícios de alta intensidade, principalmente em praticantes amadores acima dos 35 anos. Especialistas alertam que provas de resistência, como triathlon, maratonas e ciclismo de longa distância, podem desencadear arritmias graves ou parada cardiorrespiratória em pessoas com doenças cardíacas silenciosas, muitas vezes sem sintomas prévios.
Embora raras, as mortes em triatlos ocorrem com maior frequência na etapa de natação e frequentemente envolvem paradas cardiorrespiratórias. Estudos em medicina esportiva  e relatos de organizadores indicam que cerca de 80% das fatalidades em triatlos ocorrem na natação. Ao menos dois terços das mortes súbitas em competições desse tipo acontecem justamente nesse momento, o que chama atenção para características específicas dessa fase da prova.

Os principais motivos incluem:

  1. SIPE (Edema Pulmonar Induzido pela Natação): Acúmulo de fluido nos pulmões causado pelo esforço em água fria.
  2. Pânico e aglomeração: O contato físico entre atletas na largada pode elevar a frequência cardíaca e causar estresse respiratório.
  3. Dificuldade de Resgate: Diferente da corrida ou ciclismo, um mal súbito na água pode levar ao afogamento rápido se o atleta não for avistado imediatamente por guardas-vidas.

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Morte de triatleta brasileira está sob investigação

Segundo a médica Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, é fundamental tratar casos como este com cautela, especialmente diante da ausência de laudos conclusivos.

Em situações semelhantes, é importante evitar conclusões precipitadas, uma vez que a determinação da causa da morte depende de análise técnica detalhada, incluindo a autópsia e exames complementares”, enfatiza.

De acordo com a perita, a confirmação da causa da morte dependerá diretamente dos resultados da autópsia, que deve analisar tanto aspectos cardíacos quanto pulmonares e outros possíveis fatores. “Esse é um passo essencial não apenas para elucidar o caso, mas também para orientar medidas preventivas futuras”, pontua.

Entre as possíveis causas em cenários análogos, a médica aponta a morte cardíaca súbita como a hipótese mais comum. “Em situações semelhantes, o esforço físico intenso, associado à descarga de adrenalina no início da prova, pode desencadear arritmias fatais em atletas com condições cardíacas pré-existentes, muitas vezes não diagnosticadas”, afirma.

Edema pulmonar é um risco na natação

Outra possibilidade é o chamado edema pulmonar induzido por imersão (SIPE), condição em que há acúmulo de líquido nos pulmões sem aspiração de água externa. “Esse quadro pode provocar falta de ar súbita e queda na oxigenação, levando à perda de consciência dentro da água, o que agrava o risco de afogamento secundário”, explica.

Daitx também menciona o chamado “conflito autonômico” como fator relevante em ambientes aquáticos. Nesse caso, reflexos fisiológicos opostos — como a resposta ao frio e o reflexo de mergulho — podem ser ativados simultaneamente, gerando instabilidade elétrica no coração e aumentando o risco de arritmias potencialmente fatais.

Além das causas clínicas, fatores operacionais também podem contribuir para desfechos graves. “Em cenários análogos, a largada da natação é marcada por grande aglomeração de atletas, o que pode gerar desorientação, pânico ou até aspiração de água. Somado a isso, a baixa visibilidade pode impedir a identificação rápida de um competidor em dificuldade”, observa.

Prevenção vai muito além de ter um “coração forte”

Embora o risco exista, a taxa de conclusão das provas de Ironman é alta (cerca de 94%), refletindo o preparo exigido dos participantes. Para atletas de endurance, especialmente aqueles que encaram desafios como o Ironman, a prevenção vai muito além de ter um “coração forte”.

O esforço prolongado exige que o sistema cardiovascular esteja não apenas saudável, mas capaz de lidar com variações extremas de pressão e volume sanguíneo. Aqui estão as principais recomendações médicas para prevenir complicações:
1. Check-up cardiológico específico
Não basta um eletrocardiograma comum. Para quem treina em alta intensidade, os médicos recomendam:
  • Teste ergométrico ou Ergoespirometria: Avalia como o coração responde ao esforço máximo e mede o consumo de oxigênio.
  • Ecocardiograma com Doppler: Essencial para descartar a Miocardiopatia Hipertrófica (espessamento do músculo cardíaco), uma das maiores causas de morte súbita em atletas jovens.
  • Avaliação de arritmias: O esforço extremo pode “gatilhar” arritmias em pessoas predispostas.
2. Atenção aos sinais de alerta
Muitos atletas ignoram sintomas por acharem que fazem parte do “sacrifício” do treino. Pare imediatamente se sentir:
  • Dor ou pressão no peito (mesmo que leve).
  • Palpitações desordenadas que não seguem o ritmo do exercício.
  • Tontura ou desmaio (síncope) durante ou logo após o esforço.
  • Cansaço desproporcional ao nível de treinamento habitual.
3. Gerenciamento de eletrólitos
A falta de sódio, potássio e magnésio pode causar desequilíbrios elétricos no coração.
  • Hidratação não é só água: Beber água em excesso sem repor sais pode levar à hiponatremia, que afeta o ritmo cardíaco e o cérebro.
  • Suplementação guiada: Use isotônicos e cápsulas de sal conforme planejado em seus treinos longos.
4. Respeito ao “destreinamento” e Infecções
  • Miocardite: Nunca treine pesado se estiver com febre ou sintomas gripais fortes. Vírus comuns podem inflamar o músculo cardíaco (miocardite), e o esforço físico nesse estado aumenta drasticamente o risco de parada cardíaca.
5. O perigo da natação (Fator SIPE)
Como a maioria das mortes ocorre na água, os médicos sugerem:
  • Aquecimento fora e dentro d’água: Entrar direto na água fria causa vasoconstrição súbita, o que aumenta a pressão arterial instantaneamente.
  • Controle da ansiedade: Se sentir que o fôlego “encurtou” no início da prova, nade de costas ou diminua o ritmo até o batimento estabilizar.

Com Assessorias

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