O recente caso envolvendo a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22anos, reacendeu o debate sobre os riscos cardiovasculares associados ao uso indiscriminado de esteroides anabolizantes e à busca por padrões extremos de performance física.  O uso de hormônios androgênicos sem orientação clínica torna-se ainda mais letal quando entra em contato com condições cardíacas preexistentes e assintomáticas – como foi o caso de Ganley, que sofria de cardiomiopatia hipertrófica, um fenômeno biológico impressionante e perigoso.

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) aponta um cenário alarmante na base dessa pirâmide de consumo: um em cada 16 estudantes do Ensino Fundamental ou Médio no Brasil já utilizou anabolizantes pelo menos uma vez. Esses adolescentes e jovens adultos podem carregar no DNA a predisposição para a cardiomiopatia hipertrófica — doença que enrijece e espessa o miocárdio, dificultando o relaxamento do órgão.

A ‘Síndrome do Super-Homem’ e a falsa segurança

Diferente das doenças tradicionais que costumam afastar as pessoas das atividades físicas, as cardiopatias provocadas ou agravadas por anabolizantes instalam-se de maneira completamente silenciosa. De acordo com o cardiologista Herbert Lima Mendes, professor do Instituto de Educação Médica (Idomed), o ambiente das academias muitas vezes alimenta uma perigosa ilusão de imunidade entre os praticantes.

Entre atletas que usam anabolizantes é comum a ocorrência da chamada ‘Síndrome do Super-Homem’. Os atletas dizem que isso acontece com os outros, não vai acontecer comigo, eu não vou ter nada”, aponta o médico.

O professor adverte que a urgência em apresentar resultados rápidos para manter o engajamento digital e atingir o topo das competições faz com que os usuários aumentem progressivamente as doses e o número de substâncias em uso, elevando o risco de morte.

Infelizmente, muitas pessoas usam anabolizantes sem fazer avaliação cardiológica. E, quando descobrem alguma doença, já estão em uma fase que não dá para fazer nada”, lamenta o Dr. Herbert Lima Mendes.

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A falsa sensação de imunidade em atletas de alta performance

Para o médico Joaquim Menezes, a alta performance e uma musculatura externa bem desenvolvida frequentemente criam uma falsa percepção de imunidade biológica. “Muitas vezes, pessoas extremamente condicionadas fisicamente acreditam estar protegidas de problemas cardíacos, quando, na realidade, algumas práticas podem aumentar consideravelmente o risco cardiovascular. O check-up periódico deve fazer parte da rotina de qualquer pessoa que leve o corpo ao limite”, conclui.

O especialista ressalta ainda que existem situações clínicas específicas em que o uso de esteroides anabolizantes pode ter indicação médica legítima, desde que realizado com critérios rigorosos, acompanhamento especializado e avaliação individualizada do paciente. Entre elas estão determinados quadros hormonais, perdas severas de massa muscular e algumas condições metabólicas específicas.

Na medicina, tão importante quanto não acreditar em soluções milagrosas é não demonizar protocolos sem o devido aprofundamento técnico e científico. Existem contextos clínicos em que determinadas terapias podem ter indicação, mas isso exige responsabilidade, acompanhamento médico sério e análise individual de cada caso. O grande problema está justamente no uso indiscriminado, sem controle e sem avaliação adequada”, afirma Dr. Joaquim Menezes.

Uso de esteroides anabolizantes exige atenção redobrada à saúde cardiovascular

Uso de esteroides anabolizantes exige atenção redobrada à saúde cardiovascular, destaca o médico especialista em emagrecimento definitivo e longevidade

O cirurgião cardiovascular Adriano Milanez, da Rede Oto, explica que as alterações morfológicas promovidas pelas drogas operam de forma silenciosa e cruel: O coração, sendo essencialmente um órgão muscular dotado de receptores hormonais, responde aos estímulos das drogas sintéticas de maneira muito similar aos bíceps e pernas. No entanto, o que no espelho se traduz em estética, por dentro se converte em uma disfunção rígida e potencialmente fatal.

O uso de anabolizantes causa alterações no funcionamento do organismo. Além do desejado ganho muscular, podem ocorrer alterações nos vasos sanguíneos que favorecem obstruções e infarto. Também pode haver aumento da pressão arterial, levando à hipertrofia do músculo do coração. Muitas vezes, as alterações acontecem de forma silenciosa e o primeiro sinal pode ser um ataque cardíaco. Em alguns casos, podem surgir dores no peito, cansaço excessivo e palpitações, que servem como alerta”, explica o Dr. Adriano Milanez.

O médico Joaquim Menezes reforça que muitas doenças cardíacas podem evoluir de forma silenciosa durante anos, sem sintomas aparentes, tornando os exames preventivos fundamentais para reduzir riscos e identificar alterações precocemente. Ele defende cuidados cardiovasculares intensos e permanentes, principalmente em pacientes expostos a situações de maior risco, como o uso de esteroides anabolizantes.

O coração pode sofrer alterações importantes sem que a pessoa perceba, e isso exige acompanhamento sério, responsável e contínuo”, afirma o especialista em emagrecimento, longevidade, performance física e mental, destacando  a importância da prevenção e do acompanhamento médico contínuo, especialmente entre praticantes de atividades físicas intensas e usuários dessas substâncias.

O papel das novas tecnologias na prevenção da morte súbita

Tradicionalmente, a investigação começa com um eletrocardiograma acompanhado pelo ecocardiograma convencional, capaz de medir a espessura das paredes do coração. No entanto, a medicina diagnóstica evoluiu para identificar pequenas falhas de contração muito antes de a estrutura deformada se tornar evidente.

O médico Joaquim Menezes, que atua no Instituto Evoluttion, destaca o papel de tecnologias refinadas na prevenção:

Hoje já contamos com ferramentas extremamente avançadas, como o ecocardiograma com strain, que faz uma análise muito sensível da função do músculo cardíaco. Esse exame pode identificar alterações relacionadas à cardiomiopatia hipertrófica até cerca de um ano antes do aparecimento mais evidente da doença. Isso aumenta significativamente a possibilidade de intervenção precoce e acompanhamento adequado”, explica o Dr. Joaquim Menezes.

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