À medida que as autoridades avançam na apuração das circunstâncias da morte de Gabriel Ganley, novos desdobramentos trazem respostas técnicas e reacendem o impacto do caso. O laudo do Instituto Médico Legal (IML), confirmado por fontes oficiais e divulgado nesta segunda-feira (25/05), aponta que o influenciador de 22 anos foi vítima de uma morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica.

A cardiomiopatia hipertrófica é uma alteração estrutural hereditária caracterizada pelo espessamento anormal do músculo cardíaco (o miocárdio), o que dificulta o bombeamento correto do sangue e favorece a ocorrência de arritmias graves e parada cardíaca.

Embora as primeiras hipóteses levantadas em fóruns digitais sugerissem um choque de hipoglicemia severa devido ao uso estético de insulina — substância que Gabriel relatava usar —, especialistas apontam que a insulina, isoladamente, não causa a hipertrofia do coração.

Contudo, o espessamento do miocárdio é um dos efeitos colaterais mais robustos e documentados do abuso prolongado de esteroides anabolizantes androgênicos, substâncias que também eram utilizadas pelo atleta em sua preparação e que agravam drasticamente a evolução dessa condição genética.

As últimas investigações sobre a morte de Gabriel Ganley

No apartamento do influenciador, localizado no bairro da Mooca, na Zona Leste de São Paulo, a Polícia Civil encontrou e apreendeu uma quantidade significativa de medicamentos descritos preliminarmente como possíveis anabolizantes.

O material foi encaminhado para análise laboratorial pelo 42º Distrito Policial (Parque São Lucas), que conduz o inquérito. O imóvel estava totalmente limpo e organizado, e a análise inicial da cena não indicou qualquer indício de violência ou criminalidade. 

Medicamentos tarjados e ampolas suspeitas de conterem anabolizantes e insulina, encontrados no apartamento do jovem na Mooca, foram encaminhados para a perícia técnica do Instituto de Criminalística (IC). Os investigadores agora buscam entender em que medida a rotina de substâncias injetáveis acelerou o colapso do atleta, enquanto apuram eventuais responsabilidades.

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Gabriel Ganley tinha consciência dos riscos da cultura maromba

Com a repercussão do laudo, trechos de entrevistas anteriores de Gabriel Ganley ganharam forte tração nas redes sociais, funcionando como um alerta doloroso sobre a autoconsciência dos riscos na cultura maromba.

Em uma participação recente no Flow Podcast, o jovem influenciador havia feito um desabafo contundente e quase profético ao ser questionado sobre os impactos dos hormônios em seu organismo:

O maior efeito negativo [do uso de anabolizante] é a longo prazo. É problema de coração, de fígado… O verdadeiro B.O. é você saber que está encurtando 10 anos da sua vida. Eu tenho essa consciência”, declarou o atleta na ocasião.

O apoio de uma mãe e o choque da realidade

Mãe e amigos do meio maromba relatam a intimidade e a busca obstinada do jovem carioca pelo topo do fisiculturismo

Por trás dos músculos e dos números expressivos nas redes sociais, Gabriel era o filho único de Clarisse Ganley, uma relação marcada pelo afeto profundo, mas também pela constante angústia materna diante dos caminhos que o jovem escolheu seguir no esporte.

Desde a adolescência no Rio de Janeiro, quando ele começou a trocar os campeonatos de Pokémon pelos treinos pesados, Clarisse esteve ao seu lado. Ela chegou a apoiar sua entrada no curso de Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), antes de o jovem trancar a faculdade para buscar a fama e o profissionalismo em São Paulo.

Em um desabafo emocionado durante os trâmites para a liberação do corpo, Clarisse humanizou a figura do “gigante” da internet, revelando o medo que carregava no peito:

O Gabriel era um menino de ouro, um coração puro que só queria vencer na vida e dar o melhor para nós. Eu via a transformação dele e, como mãe, meu coração ficava apertado. Eu conversava, pedia cuidado, mas ele tinha uma obstinação que ninguém conseguia frear. Ele dizia: ‘Mãe, é o meu sonho, eu sei o que estou fazendo’. O meio do fisiculturismo cobra um preço que os jovens acham que podem pagar porque se sentem invencíveis. Perdi o meu bebê para uma busca que não tem fim”, lamentou.

Clarisse continua residindo no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, criou Gabriel e onde a família mantém suas raízes. Gabriel havia se mudado sozinho para a capital paulista há algum tempo com o objetivo de ficar mais próximo dos grandes centros de treinamento, patrocinadores e do eixo principal das competições de fisiculturismo no país.

A dor e o alerta entre os amigos e atletas

O impacto da morte de Gabriel Ganley também expôs a fragilidade emocional de seus companheiros de treino em São Paulo, que conviviam diariamente com o atleta e dividiam a mesma rotina de sacrifícios.

O fisiculturista e influenciador Léo Stronda, que compartilhou diversos vídeos de treino e resenhas com Gabriel nos últimos meses, expressou seu luto e pediu respeito à memória do amigo, sem fugir da complexidade do tema:

O Ganley era aquele moleque que iluminava o ambiente, com uma energia absurda e uma vontade de evoluir que assustava. Ele tomou decisões para o corpo dele porque queria o topo, queria competir com os maiores. É uma dor terrível ver um irmão de ferro partir assim, tão cedo. Que a internet não use esse momento para linchamento virtual, mas sim para entender que somos humanos, de carne e osso, e que o limite é muito tênue.”

‘Era um menino de 22 anos num corpo de gigante’

O atleta profissional Ramon Dino também prestou sua homenagem, focando no carisma que o jovem carioca mantinha nos bastidores: “Obrigado por tudo, irmão. Seu sorriso e sua dedicação no CT vão ficar guardados para sempre. Você foi um gigante.”

Nas comunidades e fóruns de fisiculturismo, amigos de infância do Rio de Janeiro lembraram que Gabriel era carinhosamente chamado de “bebdzinho” pelos atletas mais velhos, justamente por manter traços muito jovens e uma postura humilde, apesar do tamanho imponente.

Ele era um menino de 22 anos num corpo de gigante, mas com a cabeça cheia de sonhos de um garoto carioca”, postou um de seus primeiros parceiros de treino da capital fluminense.

A despedida de Gabriel ocorreu na manhã desta segunda-feira (25/05), em uma cerimônia restrita. O velório e a cremação do corpo foram reservados exclusivamente para familiares e amigos mais próximos.

Os passos da investigação: quem já foi ouvido?

A Polícia Civil montou uma força-tarefa para traçar a linha do tempo das últimas horas do influenciador e mapear quem fornecia e orientava o uso das substâncias apreendidas. Três frentes já prestaram depoimentos formais:

  1. O amigo que localizou o corpo: Foi quem acionou o socorro na manhã de sábado (23/05) após estranhar a falta de resposta de Gabriel. Ele detalhou a rotina do atleta nos dias anteriores e afirmou que Ganley não havia se queixado de dores recentes, embora mantivesse o ritmo exaustivo de treinos para o campeonato em Curitiba.

  2. Vizinhos e funcionários do condomínio: Prestaram esclarecimentos sobre a movimentação no apartamento para descartar definitivamente a presença de terceiros no imóvel no momento do óbito.

  3. Colegas de treino e equipe de apoio: Estão sendo intimados a prestar depoimento nesta semana para esclarecer como funcionava o ciclo de preparação do atleta.

O treinador pode ser responsabilizado criminalmente?

Uma das principais frentes da investigação policial gira em torno de quem prescrevia ou orientava os protocolos de Gabriel Ganley. Juridicamente, a responsabilidade de treinadores, preparadores físicos ou consultores de “coach” em casos de morte por abuso de substâncias entra em um terreno complexo, mas punível.

Se os laudos e depoimentos comprovarem que o treinador ou algum membro da equipe forneceu diretamente as substâncias, aplicou os medicamentos ou estruturou uma planilha de dosagens sabendo dos riscos letais (especialmente de substâncias restritas como a insulina e anabolizantes sem receita), essa pessoa pode responder criminalmente por homicídio culposo (quando não há intenção de matar, mas há negligência, imprudência ou imperícia) ou até mesmo por induzimento ao uso de drogas e exercício ilegal da medicina.

Caso a investigação aponte que o treinador tinha ciência de uma condição cardíaca prévia do atleta e, mesmo assim, o estimulou a elevar doses de risco, a acusação pode ser tipificada como homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de produzir a morte.

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