A precoce e trágica morte do influenciador digital Gabriel Ganley, aos 22 anos, em São Paulo, acendeu de vez os holofotes sobre uma crise sanitária que cresce silenciosamente nos bastidores de academias e centros de treinamento pelo país. O que para muitos jovens e atletas amadores parece um “atalho” necessário para alcançar padrões estéticos elevados, para a comunidade médica é tratado como uma verdadeira epidemia mundial e um grave problema de saúde pública.

O alerta é respaldado pelo posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). A entidade médica manifesta profunda preocupação com o uso indiscriminado de Esteroides Anabolizantes e Similares (EAS) para fins estéticos, de antienvelhecimento ou para a melhora do desempenho esportivo amador, classificando a prática como desprovida de qualquer base científica.

De acordo com as diretrizes da Sbem, as únicas indicações terapêuticas comprovadas e seguras para a testosterona são os casos de hipogonadismo (deficiência hormonal masculina devidamente diagnosticada por critérios médicos rígidos) e a terapia hormonal cruzada para pessoas transgênero ou com incongruência de gênero. Fora desse escopo, as aplicações entram em uma zona de alto risco e ilegalidade.

Mercado clandestino de anabolizantes: conexões com o crime organizado

Uma das maiores preocupações das autoridades de saúde reside na origem e na comercialização dessas substâncias. A Sbem alerta que o mercado altamente lucrativo do culto ao corpo perfeito desconsidera os riscos à vida e guarda severas similaridades com o comércio e o tráfico de drogas ilícitas e armas.

O circuito envolve desde o contrabando de substâncias até a manipulação direta em laboratórios clandestinos, operando sem qualquer tipo de controle sanitário. De forma alarmante, muitas das preparações consumidas por frequentadores de academias são desenvolvidas originalmente para uso veterinário.

Como o mercado é majoritariamente subterrâneo, mapear a prevalência exata do consumo é um desafio, mas as estimativas compiladas pela sociedade médica impressionam pela magnitude:

  • 3,3% da população geral já utilizou ou utiliza EAS de forma ocasional ou frequente (sendo 6,4% dos homens e 1,6% das mulheres).

  • 18,4% dos esportistas recreacionais (frequentadores de academia) fazem uso dessas drogas.

  • 13,4% dos atletas de competição recorrem às substâncias — prática proibida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde a década de 1970.

  • 2,3% dos estudantes do ensino médio já iniciam o contato com os anabolizantes ainda na adolescência.

A dependência psicológica e física pode atingir até 57,1% dos usuários. Entre esse grupo, estatísticas mostram uma prevalência muito maior no abuso de outras substâncias químicas (como álcool, nicotina e cocaína) e no contágio por doenças infecciosas graves, como as hepatites B e C e o vírus HIV, devido ao compartilhamento de seringas.

O mito dos ‘ciclos’ e o coquetel de drogas compensatórias

Para tentar blindar o organismo contra colaterais ou potencializar os resultados, os usuários costumam adotar estratégias empíricas disseminadas em fóruns digitais e vestiários. As mais comuns incluem os “ciclos” (períodos de uso intercalados com pausas), as “associações” (combinação de diferentes tipos de EAS) e as “pirâmides” (escalonamento progressivo de doses).

Não há nenhuma evidência científica de que qualquer uma dessas práticas reduza as consequências nocivas do abuso dessas substâncias”, sentencia o documento da Sbem.

Pelo contrário: o que se observa na prática clínica é a introdução de um verdadeiro “coquetel” de medicamentos secundários para tentar maquiar os sintomas colaterais imediatos. É comum que os usuários combinem os anabolizantes com:

  • Hormônio do Crescimento (GH): para maximizar o efeito anabólico.

  • Hormônio tiroidiano: para acelerar o metabolismo e queimar gordura.

  • Gonadotrofina Coriônica Humana (hCG): na tentativa de impedir o encolhimento dos testículos.

  • Inibidores da aromatase: para evitar a ginecomastia (crescimento de mamas em homens).

  • Inibidores da 5-alfa-redutase: para conter a calvície e crises severas de acne.

  • Diuréticos: para eliminar a retenção hídrica extrema (uma combinação perigosa que eleva severamente o risco de colapsos cardíacos).

Danos irreversíveis: do cérebro ao coração

Efeitos colaterais incluem lesões cerebrais, infertilidade e morte súbita

Enquanto as doses utilizadas na reposição hormonal do hipogonadismo apresentam efeitos leves e controláveis, os protocolos estéticos utilizam dosagens de 5 a 15 vezes maiores do que os limites clínicos recomendados. O resultado desse bombardeio hormonal no organismo pode ser severo, irreversível e potencialmente fatal.

No sistema nervoso central, o abuso prolongado é capaz de provocar o afilamento do córtex cerebral, a redução de seu volume e o aumento do núcleo accumbens — alterações estruturais que servem de base anatômica para o desenvolvimento de comportamentos altamente aditivos. Sintomas psiquiátricos como depressão, agressividade extrema (conhecida como roid rage), comportamento suicida e maior propensão a atos criminosos são amplamente documentados.

Ironicamente, o uso abusivo de EAS entre jovens em busca de virilidade e performance é, hoje, a causa mais frequente de perda de função sexual: 43% dos casos de hipogonadismo em homens jovens são causados pelo uso prévio dessas substâncias, resultando em supressão gonadal crônica e infertilidade.

Nas mulheres, o hiperandrogenismo desencadeia efeitos marcantes de masculinização, como o engrossamento definitivo da voz, calvície (alopecia androgênica), crescimento de pelos faciais (hirsutismo) e hipertrofia do clitóris.

O maior perigo, contudo, reside no sistema cardiovascular. As doses suprafisiológicas danificam diretamente as fibras do coração, induzindo a morte celular (apoptose) e a hipertrofia cardíaca. Esse quadro evolui para hipertensão arterial, arritmias severas, disfunção na capacidade de bombeamento de sangue e infartos.

Somado a isso, os anabolizantes destroem o perfil lipídico do usuário (desencadeando uma forte elevação do colesterol ruim/LDL e queda drástica do bom/HDL) e induzem a um estado de hipercoagulabilidade do sangue, aumentando a agregação de plaquetas. O desfecho dessa equação é trágico: a taxa de mortalidade entre usuários de esteroides anabolizantes é três vezes maior do que a de indivíduos não usuários.

Diante do cenário crítico, a Sbem finaliza seu posicionamento cobrando ações enérgicas e urgentes das autoridades públicas para que haja uma fiscalização rigorosa, regulamentação e controle da prescrição médica, visando coibir o uso antiético, nocivo e ilegal dessas substâncias no Brasil.

Entenda o caso que levou Gabriel Ganley à morte

  • Quem era: Gabriel Ganley, de 22 anos, era um influenciador fitness e fisiculturista natural do Rio de Janeiro que morava em São Paulo. Ele somava mais de 1,7 milhão de seguidores e ficou famoso por documentar sua rotina e, recentemente, sua transição do fisiculturismo “natural” para o uso de substâncias como esteroides e insulina.

  • O ocorrido: Ele foi encontrado morto na manhã de sábado, 23 de maio, na cozinha de seu apartamento na Zona Leste de São Paulo. O corpo foi localizado por um amigo e não apresentava sinais de violência.

  • A causa da morte: O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que Gabriel sofreu uma morte súbita decorrente de cardiomiopatia hipertrófica (espessamento do músculo cardíaco).

  • A linha de investigação: A Polícia Civil de São Paulo (42º DP) apreendeu substâncias encontradas no apartamento para análise laboratorial. Especialistas apontam que, embora a condição cardíaca possa ter base genética, o abuso de esteroides anabolizantes acelera e agrava drasticamente a hipertrofia do coração e o risco de arritmias fatais.

  • Repercussão: O caso chocou o meio esportivo e gerou um debate intenso nas redes sociais sobre o culto ao corpo perfeito e os limites do uso de substâncias de alto risco por jovens. Marcas patrocinadoras e grandes nomes do fisiculturismo manifestaram pesar. O sepultamento ocorreu de forma restrita à família e amigos nesta segunda-feira, 25 de maio.

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